Crítica: Evangelion 3.0+1.0: A Esperança quer fazer do mundo um lugar mais leve

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Crítica: Evangelion 3.0+1.0: A Esperança quer fazer do mundo um lugar mais leve

Por Lucas Rafael

Evangelion 3.0+1.0: A Esperança vem para encerrar os filmes rebuilds da franquia como End of Evangelion veio para fechar o anime original. Toda a mitologia sobre anjos, Adão, Lilith, lanças e toda essa coisa imponente e religiosa, poderes ancestrais que ditaram a criação da vida na Terra no universo do anime, estão a favor de algo mais intimista e espiritual. Desde a série original, Evangelion parecia mais preocupado em explorar os fardos de existir e co-depender num mundo cada vez mais alucinado do que em lidar didaticamente com a própria mitologia complexa. 

A primeira cena de Evangelion: 1.11 (o primeiro dos rebuilds de Eva) mostra essa onda de uma cor vermelha-saturada quebrando numa praia. Esse tom de vermelho impresso nas águas do planeta Terra é uma consequência do Segundo Impacto, um evento apocalíptico que dizimou a vida nos oceanos e deixou nosso globo terrestre todo sarapintado de vermelho. É uma cor opressiva e forte, a primeira cor que a minha cabeça invoca quando eu penso no terceiro filme dos rebuilds (Evangelion 3.33), que por sua vez talvez seja o equivalente cinematográfico de se retrair em posição fetal enquanto o mundo se afoga em sangue ao seu redor e é tudo culpa sua – uma animação que asfixia o espectador no mesmo ruído de incompreensão que atormenta o seu protagonista até os créditos subirem, deixando como última imagem três silhuetas vagando por uma paisagem atapetada de um vermelho-saturado. Evangelion 3.0 + 1.0 retoma a partir daí, após Shinji acabar com tudo sem entender direito o que estava fazendo e arrasar com a vida de incontáveis pessoas no processo, isso sem falar na quantidade de traumas que o rapaz colecionou pelo caminho, como ver a cabeça de Kaworu explodir diante de seus olhos. Como o título do terceiro longa indica nada sutilmente, You Can (Not) Redo. Não dá pra refazer, já era. Como você dá sequência a isso? 

Ficha técnica

Título: Evangelion: 3.0+1.0 Thrice Upon a Time

 

Direção: Hideaki Anno, Kazuya Tsurumaki, Mahiro Maeda

 

Roteiro: Hideaki Anno

 

Data de lançamento: 8 de março de 2021 (Japão)

 

País de origem: Japão

 

Duração: 2h 35min

 

Sinopse: Após o final devastador do último filme, Shinji Ikari precisa lidar com o trauma do que passou (e causou) enquanto busca coragem para auxiliar a WILLE numa batalha final contra a NERV, capitaneada por seu próprio pai.

3.0+1.0 Começa devagar, tomando seu tempo. Os traumas vão sendo mitigados enquanto acompanhamos os personagens distantes de seus mechas, tentando levar uma vida simples num vilarejo idílico que graças às ações da organização WILLE está habitável. É um rolê bem slice-of-life que beira algo do studio Ghibli: não tem como não se encantar com a reação da Rei observando os gatos que habitam debaixo dos trilhos de trem, por exemplo. 

A partir daí o filme avança explorando seus personagens principais – com muito destaque pra Misato e Gendo, culminando num clímax vibrante que ecoa aquilo que vimos tanto no final do primeiro anime como em End of Evangelion.

O mundo contaminado por vermelho em Evangelion.

Vejam bem, quando eu assisti a série original pela primeira vez eu estava bem atrasado pra festa. Foi aí por 2018. O impacto de Evangelion na produção de animes já havia sido desferido, os rebuilds já estavam encaminhados. Tudo que eu sabia é que se tratava de uma franquia influente sobre crianças pilotando mechas contra monstros gigantes. Eu assisti Evangelion pela primeira vez num período da vida em que dormir era difícil por N razões e me parecia fazer sentido preencher as horas da madrugada com uma animação antiga sobre robôs e monstros gigantes, era condizente com o meu estilo de vida. Quando a coisa toda no anime original acaba com todo mundo dando parabéns pro Shinji e você percebe que a trama não era lá literalmente sobre os mechas e tal mas sobre crescer e lidar com pessoas e seus traumas, você sente que aqueles 26 episódios foram quase uma terapia em forma animada.

Terapia sendo uma palavra-chave, pois partes de 3.0 + 1.0 atingem um nível de descarrego e purgação psicológica através de uma montagem tão impactante que faz você lembrar a razão dessa franquia ser tão importante pra cultura pop num nível narrativo em primeiro lugar.

Evangelion 3.0+1.0: A Esperança é inclemente com navegadores de primeira viagem. Você não começa Evangelion por aqui. Talvez você possa começar pelo primeiro filme do rebuild mas, de uma maneira metalinguística, o próprio texto deste último longa parece reconhecer o anime original – e ele ainda é o ponto de partida ideal. Se você chegou até esse ponto da review e nunca viu Evangelion, aqui vai um guia rápido: veja o anime original, então End of Evangelion, e aí você parte para os rebuilds. Se quem já está calejado por este universo pontualmente se pega coçando a cabeça, quem começar por aqui vai lidar com puro ruído estético. 

Estética que talvez seja outra palavra-chave da franquia. Anno é um esteta e todas as suas produções  – das animadas aos live-actions – contam com uma identidade forte focada nas linhas que delineiam silhuetas de detritos urbanos, o espaçamento entre trilhos de trem, os fios de postes, os traços angulosos dos Evas contra o plano de fundo geométrico que os prédios cubistas de Tóquio-3 oferecem. Não bastasse essa preocupação com as formas e espaços que preenchem os frames, 3.0 + 1.0 se mostra alucinado em sua montagem, com os momentos de batalhas e confrontos se tornando uma paulada sensorial hipnótica e vertiginosa. Assim como em End of Evangelion, pontualmente a edição vira quase uma colagem abstrata de imagens que busca refletir algo além do espaço físico que as personagens ocupam – planos mentais e além da compreensão que são comportados por uma edição experimental dotada de um ritmo inspirador, passando de projeções e planos de fundo psicodélicos até maquetes prestando homenagem à tokusatsus. O filme parece quebrar diante dos seus olhos conforme vai se reestruturando para subverter algumas noções pré-estabelecidas por entradas anteriores da franquia.

Tchau, Evangelion!

3.0+1.0 trabalha, à sua maneira, os traumas de seus personagens e faz tudo colidir em prol de sua conclusão. É legal pra caramba ver mecha batendo em bicho gigante, claro, mas melhor ainda é ver mecha batendo em bicho gigante numa narrativa sobre como aceitar a dependência que você tem de outras pessoas e que as outras pessoas tem de você é difícil. Evangelion ainda é sobre amadurecer, depressão e traumas, mas Hideaki Anno parece ter crescido junto de sua franquia ao ponto de torná-la menos amarga: a lição agora é que desistir é mais doloroso do que seguir em frente.

Sim, há problemas aqui, como quando convenientemente novos conceitos são introduzidos de súbito através de diálogos super expositivos e nem vamos falar nessa coisa bizarríssima que a animação japonesa tem de posicionar personagens femininas em posições sugestivas e reveladoras.

No fim das contas, 3.0 + 1.0 é a sequência que 3.33 precisava: agridoce, sincera e esperançosa, o tipo de coisa que, assim como a animação original, é capaz de te fazer sair mais leve depois de assistir. O mundo de Evangelion já não é mais tão vermelho e A Esperança funciona tanto como presente para os fãs quanto como uma nota de seu criador sobre como viver até que vale a pena sim. 

Não deixe de conferir nossa lista sobre a série:

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sobre o autor Lucas Rafael

Redator. Entusiasta de coisas demais