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Estúdio Laika: Esculpindo originalidade em Hollywood

Por Gus Fiaux

Fundado há quinze anos, o Estúdio Laika se tornou um dos queridinhos do público quando o assunto é animação, especialmente por injetar uma nova fórmula de originalidade que se distancia bastante de empresas já estabelecidas como a Disney, a Warner Animation e a Illumination. O estúdio ficou bem conhecido por suas produções em stop-motion, geralmente com temáticas mais sombrias e abordagens mais maduras.

Em seus filmes, a Laika trata de preconceito, intolerância e a busca por um ideal coletivo, ao mesmo tempo em que nos presenteia com personagens carismáticos, protagonistas inspiradores e uma boa dose de diversão, seja nas suas produções mais antigas até os filmes mais novos. E se você se interessa pela casa de Coraline e o Mundo Secreto, ParaNorman e tantos outros filmes, vem com a gente descobrir um pouco mais sobre a história dessa companhia incrível!

O estúdio trabalhou em filmes conceituados, como A Noiva Cadáver.

Onde tudo começou

Laika foi fundada em 2005, mas sua história começa bem antes disso. Na década de 90, havia um estúdio animado especializado em produções em stop-motion. Nele, trabalhava Travis Knight — guarde esse nome — como animador em algumas pequenas produções. O nome do estúdio era Will Vinton Studios e seu fundador, Will Vinton, era bem conhecido por trabalhar com efeitos especiais de stop-motion em grandes produções, como O Mundo Fantástico de OzMoonwalker.

Vinton sempre teve a vontade de produzir seus próprios longas-metragens, mas precisava de investidores injetando dinheiro para que os negócios fossem para a frente. É aí que entra uma figura bem importante: Phil Knight, um co-fundador da Nike e pai de Travis Knight. Ele começou investindo no estúdio em 1998, mas após ver a produtora com diversos problemas financeiros, resolveu adquiri-la em 2002 e dar início ao seu próprio estúdio.

O nome não poderia ser mais inteligente: Laika, em homenagem à cadela russa que foi lançada no espaço, virando um dos primeiros animais a conquistar a imensidão do cosmos. E nascia assim um dos estúdios mais respeitados de Hollywood quando o assunto são as animações. Porém, em seus primeiros anos, a Laika não desenvolvia seus filmes próprios — na verdade, demorou um bom tempo até isso acontecer.

Phil Knight sabia que teria um longo caminho a trilhar e começou com a Laika/house, uma produtora comercial que seria especializada em videoclipes, comerciais e produções terceirizadas. Através deles, o estúdio chegou a trabalhar em filmes famosos como A Noiva Cadáver, de Tim Burton; bem como a série de TV Slacker Cats. Em alguns casos, eles até se envolveram com produções live-action, como O Rei da Califórnia.

Claro que, em 2005 (no ano de fundação oficial da Laika), tivemos uma pequena amostra do que o estúdio era capaz de fazer. Moongirl foi um curta-metragem combinando efeitos digitais e animação stop-motion. O projeto ficou na mão de Henry Selick, um diretor que seria bem importante nos anos seguintes. É uma história bem simples, sobre um garoto que de repente é transportado para a lua e encontra uma menina que pode auxiliá-lo em uma missão bem especial.

Coraline e o Mundo Secreto foi o primeiro longa-metragem da Laika.

O mundo mágico de Coraline

Os primeiros anos foram repletos de reviravoltas para a Laika. Para começar, a empresa desenvolveu um ramo que seria especializado em produções originais. Foi assim que nasceu a Laika Entertainment, o estúdio que conhecemos hoje, desenvolvido a partir da Laika/House (que atualmente é chamada de HouseSpecial e continua trabalhando em produções terceirizadas, comerciais e videoclipes). E foi aí que começaram os primeiros sonhos com um longa.

Em 2006, anunciaram seus dois primeiros projetos: O primeiro seria uma adaptação do prestigiado livro de horror e fantasia infanto-juvenil de Neil Gaiman. O nome era Coraline e o Mundo Secreto, a história de uma menina que adentrava em um mundo bem parecido com o seu ao entrar em uma porta na sua nova casa. O segundo tinha o nome Jack & Ben’s Animated Adventure, e parecia ser uma história original.

Acontece que, em 2008, veio o anúncio de que Jack & Ben seria cancelado. Com isso, uma boa parte da equipe que trabalhava na Laika foi demitida e começaram os rumores de que o estúdio poderia fechar as portas. Mas ninguém estava preparado para o sucesso que Coraline faria no ano seguinte. Dirigido por Henry Selick (que, na época, era o principal nome do estúdio), o filme foi um sucesso absoluto e ganhou fãs fervorosos que perduram até hoje.

A fama de Coraline e o Mundo Secreto foi muito além do boca-a-boca dos fãs. O longa ganhou reconhecimento em várias premiações de grande porte, recebendo uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Animado (perdeu para Up: Altas Aventuras), ao BAFTA, ao Globo de Ouro e ao prêmio do Sindicato dos Produtores. O sucesso veio mesmo com o Annie Awards, premiação especializada em produções infanto-juvenis: das nove indicações, recebeu três.

O filme definiu muito do que faria parte do cânone criativo da Laika. Apesar de ser uma produção voltada ao público infantil, Coraline não tinha medo de ser um filme sombrio e com seus momentos de horror, especialmente quando a nossa jovem protagonista para nas garras de sua Outra Mãe. Ao final de 2009, o estúdio percebeu que esse era o jeito certo de prosseguir. Mais demissões vieram, mas dessa vez por uma boa causa: eles queriam focar no departamento de stop-motion, e por isso precisaram abrir mão de boa parte dos artistas que trabalhavam com CGI e animação 3D.

Lançado em 2012, ParaNorman ajudou a definir os rumos do estúdio.

ParaNorman: Entre o horror e o fascínio

Após o sucesso de Coraline (o filme rendeu o dobro de seu orçamento e é, até hoje, a maior bilheteria do estúdio), a Laika percebeu que teria novos desafios para enfrentar. Henry Selick decidiu deixar a empresa após uma falha na renovação de seu contrato. Tendo sido o diretor de filmes como O Estranho Mundo de Jack, ele ia fazer falta para a empresa, mas logo essa lacuna foi preenchida quando o segundo longa-metragem chegou aos cinemas.

Lançado em 2012, ParaNorman veio das mãos da dupla Sam Fell e Chris Butler (responsáveis por O Corajoso Ratinho Despereaux). Foi um filme inovador em termos práticos, por ter sido o primeiro a usar impressoras 3D para criar seus modelos de personagens, agilizando um processo que seria bem mais demorado por meio manual. E logo chegou aos cinemas, foi bem-recebido pela crítica e trouxe mais reconhecimento para o estúdio, seguindo os passos de sua irmã sombria, Coraline.

A história segue Norman, um garoto que parece ser bem comum, exceto por um dom sobrenatural: ele é capaz de ver as almas dos mortos. Isso faz com que ele se torne um pária em sua cidade – ninguém quer conversar com ele e todos fazem piadas sobre como ele é maluco… até o dia em que seus dons são essenciais para salvar a cidade de uma maldição antiga envolvendo uma bruxa e seu exército de mortos-vivos.

O filme também foi indicado ao Oscar de animação, mas perdeu para Valente, além de conquistar outras indicações no BAFTA e no Annie Awards, onde ganhou dois prêmios dentro de suas oito indicações. Foi um respiro dentro das dinâmicas de estúdios, mostrando como havia um interesse em animações voltadas para o horror e como não havia problema em desafiar um pouco seu público. E isso se reflete dentro das próprias escolhas narrativas. Também foi a primeira animação mainstream a introduzir um personagem LGBTQIA+, algo que era inovador para a época (e é até hoje, se pensarmos bem).

Os Boxtrolls, filme lançado em 2014.

Lutando contra o preconceito e a tirania: Os Boxtrolls

Dali para frente, a Laika cresceu em popularidade e escopo. Em 2014, lançaram seu terceiro longa-metragem. Os Boxtrolls é baseado no livro Here Be Monsters! de Alan Snow, e segue a história de um jovem menino chamado Ovo, que foi criado pelos Boxtrolls: monstrinhos adoráveis que recebem esse nome por viverem em caixas, que eles usam como se fossem roupas e armaduras.

Certo dia, um explorador maquiavélico chamado Arquibaldo Surrupião faz um acordo com o prefeito para se livrar dos Boxtrolls. Ele então começa suas maquinações, sequestrando os monstrinhos e fazendo com que o medo inflamasse o coração dos que conseguiam escapar de seus planos. Ovo então precisa se juntar a amigos humanos para deter o reinado tirânico de Arquibaldo, mostrando como os Boxtrolls são queridos e não fazem mal algum.

Em sua essência, Os Boxtrolls é um filme que fala sobre intolerância e preconceito, e como nós precisamos nos afastar desses ideais se queremos ter uma sociedade justa que ofereça chances iguais para todos. É uma mensagem que certamente já foi discutida centenas de vezes nos cinemas, mas que é trazido aqui com uma sensibilidade bem tocante, especialmente por ser um longa direcionado para crianças.

Como era de se esperar, o longa chegou a ir longe nas premiações, recebendo a indicação do Oscar de Melhor Filme Animado e perdendo para Operação Big Hero. Apesar de ser querido pelos fãs, é o filme com a recepção mais “baixa” da Laika — no Rotten Tomatoes, ele possui 77% de aprovação da crítica, enquanto todos os outros filmes têm média de avaliação acima dos 89%. Ainda assim, é um filme bem interessante para se mostrar a um público mais jovem.

Kubo e as Cordas Mágicas, o filme mais aclamado do estúdio.

Kubo e a aclamação mundial

Depois de anos trabalhando nos bastidores, Travis Knight finalmente mostrou ao mundo para que veio. Em 2016, ele dirigiu seu primeiro longa-metragem, um filme que ficou consagrado por ser a produção mais aclamada da Laika – Kubo e as Cordas Mágicas, um longa excepcional que mostrou toda a versatilidade e capacidade do estúdio de trabalhar com diferentes tipos de animação ao mesmo tempo em que oferecia uma história genuinamente tocante.

Na trama, o jovem Kubo é um menino com um único olho conhecido por manipular magicamente peças de origami através de seu instrumento com duas cordas. Ele não sabe o que aconteceu seu pai e vive com a mãe, muito doente. Certo dia, ele precisa embarcar em uma jornada com aliados bem improváveis, como uma macaca e um guerreiro em armadura de besouro, enquanto descobre mais sobre seus antepassados e sua própria história.

Como sempre, o estúdio mostra que sabe criar protagonistas cativantes em histórias grandiosas. Kubo é exatamente o tipo de filme que nos faz torcer pelos personagens, ao mesmo tempo em que cria uma atmosfera única, baseada no Japão feudal. O longa tem um visual impressionante e faz um uso maravilhoso de efeitos digitais para tornar todo o trabalho de animação mais fluido e pirotécnico. O resultado final é um baita deleite visual para os fãs.

Travis Knight foi ovacionado por seu trabalho. Após ter desempenhado o papel de animador em ParaNorman e Os Boxtrolls, o diretor mostrou que sabia comandar um filme com toda a fluidez e carisma necessários para ser uma produção genuína dos Estúdios Laika. Não é à toa que seu trabalho aqui tenha aberto várias portas – posteriormente, ele foi chamado para dirigir Bumblebee, o filme solo do adorável fusca amarelo da franquia Transformers.

O filme também ganhou mais reconhecimento nas produções. No Oscar, foi indicado a Melhor Filme Animado —  como já era de se esperar, perdeu para Zootopia — e Melhores Efeitos Visuais. Contudo, no mesmo ano ele também recebeu a indicação de Melhor Filme Animado no BAFTA e, pela primeira vez, derrotou seus competidores da Disney. No lado financeiro, o filme já apresentava um problema: fez pouco mais que seu orçamento inicial, arrecadando “só” US$ 77 milhões. Era um aviso do que estava por vir.

Link Perdido foi um fracasso nas bilheterias, mas voou alto nas premiações.

Link Perdido e um futuro brilhante

Até aqui, todos os filmes da Laika tinham custado um orçamento igual: US$ 60 milhões para cada produção. E por mais que não fossem grandes sucessos de bilheteria, eram filmes que conquistavam bastante atenção dos nichos de fãs de animação, ao mesmo tempo em que conseguiam projeção ao serem indicados em grandes premiações como o Oscar e o Annie Awards.

Para 2019, o estúdio decidiu que faria seu maior filme. Link Perdido custou US$ 102,3 milhões, uma quantia verdadeiramente impressionante quando falamos de animações. Para comandar a produção, Chris Butler (um dos diretores de ParaNorman) foi chamado, e deu-se início ao processo de desenvolvimento. O filme conta a história de um pesquisador e explorador que parte em busca do Link Perdido, um ser que representa a ligação da humanidade com seus ancestrais evolutivos.

O elenco de vozes é simplesmente surpreendente, trazendo nomes como Hugh Jackman, Zoe Saldana, Stephen Fry, Zach Galifianakis Emma Thompson. Tudo isso parecia a fórmula certa para injetar dinheiro no bolso do estúdio, mas o filme não caiu nas graças do público. Sua bilheteria foi de apenas US$ 26 milhões, consagrando-se como o maior fracasso da Laika desde as origens do estúdio.

E para provar que é a Amy Adams dos estúdios de animação, a Laika ainda chegou a receber a indicação ao Oscar de Melhor Filme Animado, mas perdeu para Toy Story 4. Ao menos, ganhou a mesmíssima categoria no Globo de Ouro – só para não sair com as mãos abanando. O filme trouxe uma sombra de dúvida para o futuro da Laika, mas parece que o estúdio já sacudiu a poeira e está dando a volta por cima.

Para começo de conversa, já estão desenvolvendo seu sexto filme animado, do qual ainda não se sabe nada, seja a respeito da trama, elenco ou equipe de produção. Além disso, o estúdio já anunciou que vai expandir seus horizontes e começar a trabalhar ativamente com produções live-action, a começar por Seventeen. O longa será um thriller de ação baseado no livro homônimo de John Brownlow, que aparentemente é um grande fã dos trabalhos anteriores da Laika.

Tudo isso nos mostra como esse estúdio é cheio de potencial e ainda tem muito a oferecer. De Coraline e o Mundo Secreto a Link Perdido, já foram mais de dez anos de produções espetaculares e que esculpiram originalidade em Hollywood, onde já não havia mais. Para quem gosta de animações, conhecer o trabalho da Laika é expandir mais os horizontes e conhecer uma área majestosa que não é ditada pelas regras definidas por grandes corporações como a Disney. É um estúdio criativo e consciente que, seja através de seus temas sombrios ou das discussões sociais, agrega debates e valores em suas produções. Estamos muito ansiosos para ver o que ele ainda tem a nos oferecer no futuro!

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux