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Castlevania: O que esperar da série derivada

Por Melissa de Viveiros

Atenção: Alerta de Spoilers!

Castlevania chegou ao fim em sua quarta temporada, após 32 episódios. O anúncio de que esta seria sua temporada final surpreendeu a todos, já que não haviam indicações anteriores de que a série estava próxima do fim. Apesar disso, a história foi concluída de modo bem trabalhado, sem deixar pontas soltas ou tramas não concluídas, fato que rendeu muitos elogios para os últimos episódios.

Esse não foi o fim do universo, no entanto. Junto à informação sobre o término da produção, veio também a confirmação de que outra série já estaria em desenvolvimento pela Netflix. Dado o enorme alcance que Castlevania teve, atingindo altos índices de público ao redor do mundo, a notícia não foi exatamente surpreendente, embora tenha deixado os fãs aliviados. A questão quanto à trama do spin-off, no entanto, permaneceu sem resposta.

Ainda não foi confirmado do que a história tratará. Neste artigo, vamos apresentar todos os pontos deixados pela quarta temporada que podem ser utilizados no derivado, bem como as maiores possibilidades do que vem por aí. Aqui, você encontrará respostas e ficará sabendo o que esperar da nova produção!

Trevor, Alucard e Sypha na animação da Netflix.

O que o fim de Castlevania deixa para o futuro?

Concluir uma narrativa como a de Castlevania inevitavelmente significa dizer adeus a alguns personagens. Na quarta temporada, parte do elenco recebe finais um tanto permanentes. Outros, apesar de vivos, claramente já tiveram suas histórias contadas, e não teriam muito a acrescentar em uma nova série.

Entre o trio de protagonistas, isso se aplica em parte. Trevor, Sypha e Alucard encontraram um meio de dar fim à longa batalha que vinham travando durante toda a história, ficando em paz e buscando construir um futuro melhor. Dadas as vidas humanas dos dois primeiros, sua presença em uma possível sequência parece mínima, a não ser que o derivado fosse bastante próximo da produção original. Caso isso fosse ocorrer, porém, a série poderia ter sido continuada ao invés de finalizada, então parece pouco provável de acontecer. O ponto em que eles se encontram dentro da narrativa não sugere que os veremos de novo — sua história já foi contada, e acrescentar mais a isso não teria propósito.

O mesmo não pode ser dito de Alucard, no entanto. Sendo um meio-vampiro, o personagem possui vida eterna, tal qual seu pai. Mesmo com essa conclusão, é sempre possível trazê-lo para uma nova história, já que ele permanecerá existindo. Sua relação com a parte mortal do elenco da trama poderia dificultar um pouco a situação, mas também poderia ser um ponto interessante a ser explorado. Replicar a dinâmica que ele demonstrou com Trevor e Sypha dificilmente se mostraria interessante para o público, mas mostrá-lo em outras aventuras com novos personagens ainda é uma possibilidade.

Uma situação um pouco semelhante se apresenta em relação aos forjadores, Hector e Isaac. Depois de tudo que passou e tendo finalmente encontrado um meio de se perdoar e seguir em frente, a história de Hector já teve fim. Não seria impossível vê-lo como parte de um elenco de apoio, dado que o desenvolvimento correto acontecesse. Ainda assim, seus planos para o futuro indicam que seu papel na trama teve fim. Agora, ele deseja apenas viver e deixar seu conto para as gerações futuras, visando impedir que eles cometam os mesmos erros do passado.

Isaac, porém, encontra um novo começo em sua conclusão. Após uma jornada complexa na qual ele precisou lidar com raiva, vingança, violência e perdão, o forjador decidiu usar seu poder e sabedoria para liderar outros para um caminho melhor. A base para uma nova história focada nele seria facilmente construída a partir disso, ao mesmo tempo sendo diferente o bastante para justificar uma nova série. Ainda assim, a ideia parece se distanciar do tipo de produção que Castlevania buscava ser, o que torna a ideia um tanto improvável. Não é necessário ver o caminho trilhado por Isaac daqui em diante para saber quais são seus propósitos, e é possível ver os resultados de seus esforços no futuro sem mostrar sua jornada.

Drácula e Lisa no fim da quarta temporada.

Entre os núcleos principais, o que se mostra mais promissor para uma futura série é aquele que veio com o maior número de questões deixadas em aberto. Uma das últimas cenas da série traz de volta Drácula e Lisa, vivos, inteiros e bem. Não fica claro como isso aconteceu, já que as tentativas de ressurreição envolviam fundi-los em uma única entidade, mas não foram bem sucedidas. Além disso, o casal se mantém em segredo no momento, sem sequer tentar retornar ao castelo ou contactar Alucard. Dada a importância do vampiro para o mundo, muito poderia acontecer se outros soubessem sobre sua ressurreição.

Com o mistério envolvido na volta dos dois, parece improvável que isso não tenha impacto em uma produção futura. Não fica claro como isso acontecerá, mas pode ser que vejamos uma história focada nos dois. Também é possível que Drácula acabe sendo levado à insanidade mais uma vez, já que Lisa permanece mortal, e todos sabemos como perdê-la o afetou.

O que a produção já falou sobre a nova série?

De acordo com o Deadline, a expectativa é que a nova série tenha alguma distância da original. Assim, ao invés de ser de fato uma sequência, o spin-off apenas se passaria no mesmo universo. Dado que o elenco principal recebeu conclusões apropriadas e com o devido fechamento, este de fato parece ser o objetivo da equipe por trás da franquia.

A matéria diz:

“Enquanto Castlevania, baseada no jogo clássico da Konami, chegará ao fim, o mundo que ela criou pode continuar a viver. Eu ouvi que a Netflix está de olho em uma nova série no mesmo universo de Castlevania com um elenco completamente novo de personagens.”

Kevin Kolde, um dos produtores executivos da série, também indicou que a intenção do novo projeto não é ser fortemente relacionado à história finalizada. Ele afirma que sequer o definiria como um spin-off, visto que o objetivo é criar algo novo. Falando à CBR, ele também destaca os títulos da franquia nos videogames, que embora tenham uma continuidade dentro de um mesmo universo, raramente são conectados de modo muito direto:

“Nós não estamos falando sobre o que eu especificamente chamaria de spin-off porque estamos tirando dos personagens ou derivando diretamente dessa série. Nós estamos olhando para outra série no universo de Castlevania. Eu não posso contar nada realmente específico no momento; nós com certeza poderemos falar quando os detalhes estiverem mais sólidos, neste momento é mais sobre finalizar a série. Como você sabe, tem muitos jogos ótimos, ótimas histórias, ótimos personagens no mundo de Castlevania, voltando atrás, antes da história de Trevor, e indo para o futuro com Soma Cruz e coisas do tipo. Há muito ali para se brincar — eu não vou contar onde nós vamos brincar — mas os detalhes vão ser revelados em breve o bastante. [Risadas] Eu acho que os fãs de Castlevania vão ficar muito empolgados.”

Soma Cruz, personagem de Castlevania: Aria of Sorrow citado por Kolde.

Assim, fica claro que a versão animada parece pretender se aproximar do modelo dos jogos. As datas de lançamento dos títulos da Konami não são equivalentes à cronologia da história, que conta diferentes partes da história do clã Belmont e de Drácula em diferentes momentos. Se este for o modelo adotado, a indicação também pode ser de que a proposta é estabelecer uma franquia animada, expandindo o universo com o tempo em múltiplas séries e novos elencos em cada uma delas.

Apesar disso, vale notar que ainda é possível que certos elementos e personagens retornem. Samuel Deats, diretor da série da Netflix, sugeriu inclusive que Alucard deve retornar no futuro. No Twitter, respondendo a um comentário de um fã lamentando a notícia de que o derivado traria um elenco completamente novo e o meio-vampiro não apareceria mais, ele disse:

“Bom, se você conhece os jogos você sabe que Alucard está por aí por alguns bons séculos, então eu não o descartaria 👀”

A sugestão é bastante significativa, já que ao que parece a intenção é manter a mesma equipe responsável pelo original no novo projeto. Desse modo, a Powerhouse Animation, estúdio que trabalhou no projeto, deve continuar levando a franquia à diante na Netflix. Em outro tweet, um fã questiona Deats se eles estão trabalhando no spin-off, ao que ele responde:

“Se for desenvolvido, essa é a ideia, sim!”

Até o momento, a mudança mais significativa quando se trata da equipe responsável pela animação é a saída de Warren Ellis. Um nome muito conhecido no meio dos quadrinhos, ele foi o principal responsável pela escrita de Castlevania, bem como sua criação. No ano passado, o autor foi acusado de assédio sexual por diversas pessoas, o que levou a seu afastamento da produção. Seu trabalho nos roteiros da quarta temporada foi mantido, mas o Deadline afirma que ele não faz parte de qualquer discussão sobre o spin-off, sugerindo que ele não terá envolvimento algum com o projeto.

O que os jogos tem a oferecer

Considerando tudo que pessoas relacionadas ao projeto vem comentando, a maior possibilidade é que a série derivada busque adaptar outros jogos da franquia. A partir daí, as possibilidades são muitas. Ao todo, a franquia conta com mais de dez jogos apenas entre os que são considerados parte da série principal. Além deles, existem vários outros que se relacionam a ela de formas diferentes, além dos que não são contados como parte da cronologia oficial.

A base da trama utilizada pela Netflix vem principalmente de Castlevania III: Dracula’s Curse. O jogo também conta com Drácula se tornando maligno após a morte de sua esposa. Ele então manda seus exércitos de monstros em ataques devastadores pela Europa, buscando destruir a humanidade. Os Belmont haviam sido expulsos de Wallachia pelo povo temer seus poderes, mas diante da ameaça, a população não tem escolha a não ser pedir ajuda a Trevor, último membro do clã.

Sypha, Alucard e Grant Danasty, que não chegou a aparecer na adaptação, eventualmente se juntam à missão dele de derrotar o Conde. A missão acaba sendo bem sucedida, com o grupo derrotando o vampiro. Depois disso, Grant busca reconstruir Wallachia, enquanto Alucard entra em um estado de hibernação por não conseguir lidar com ter enfrentado seu pai. Trevor e Sypha, assim como na animação, terminam como um casal, e a paz é restabelecida na região.

Parte da arte de capa de Castlevania III: Dracula’s Curse.

A parte relacionada a Hector e Isaac vem de Castlevania: Curse of Darkness, que se passa poucos anos depois disso. Ainda que o conflito inicial entre os forjadores seja mantido, muito da história foi alterado no caso dos dois. Isaac, por exemplo, se tornou um personagem completamente diferente, o que também o levou a um caminho novo no fim da história. Assim, fica claro que embora o desenho utilize a base dos jogos, há sempre um esforço para se aprofundar nesse universo de modo bem original.

Após esses dois títulos, a sequência cronológica seria a adaptação de Christopher Belmont, dos títulos Castlevania: The Adventure e Castlevania II: Belmont’s Revenge. Além dele, seu filho Soleil também tem importância no segundo jogo. A história deles se passa cerca de 100 anos após a de Trevor, o que os tornaria os próximos protagonistas seguindo a ordem temporal. Apesar disso, os dois são personagens menos conhecidos, e sem a conexão direta entre as histórias, é completamente possível que a série simplesmente pule diretamente para outro Belmont.

Entre todos os possíveis nomes, o que mais se destaca é Simon, que protagoniza o jogo original da franquia. Inicialmente, sua história é semelhante à dos outros membros do seu clã: Drácula retorna, e é dever dele acabar com essa ameaça. No entanto, após derrotar o Conde, Simon se encontra amaldiçoado, precisando encontrar um meio de se libertar disso para evitar o retorno do vampiro.

O personagem é um dos protagonistas mais conhecidos e mais queridos da franquia. Além disso, o salto temporal entre ele e Trevor seria algo por volta de 200 anos, mantendo suas histórias suficientemente distantes mas não impedindo que a série original tivesse algum impacto no que seria visto no spin-off. Pela liberdade que a escolha permitiria, ao mesmo tempo em que não cortaria relações completamente com a produção anterior, parece plausível que esta seja a ambientação para o derivado. Com o retorno de Drácula, bem como Sypha e Trevor esperando um filho, o caminho para um descendente Belmont enfrentando o grande vampiro já é estabelecido pelo fim da quarta temporada.

Simon Belmont em Super Smash Bros. Ultimate.

Outra rota possível seria que a próxima animação se voltasse para um período anterior, ao invés de dar sequência à história deste universo. Nesse caso, existe bastante material nos jogos contando sobre Leon Belmont, a origem de Drácula, bem como de onde surgiu a inimizade entre ele e o clã de caçadores de vampiros. Isso é contado em Castlevania: Lament of Innocence, com Leon sendo o único protagonista cuja trama antecede Trevor nos jogos. O comentário de Kolde menciona a possibilidade de se retornar a um período anterior, o que sugeriria uma produção mais voltada para este sentido.

A próxima série poderia adaptar Symphony of the Night?

Um dos títulos mais aclamados entre os jogos da Konami é Castlevania: Symphony of the Night, lançado em 1997. Embora não tenha vendido bem no ocidente inicialmente, com o tempo o game se tornou conhecido como um dos melhores da série. Além disso, ele influenciou muito do que veio depois, principalmente em termos de jogabilidade.

Dada a popularidade do jogo de PlayStation, os fãs logo começaram a pensar na possibilidade de uma adaptação dele. O clamor por ver a história do clássico em uma animação levou Kolde a comentar o assunto em uma entrevista ao site ComingSoon. Nela, ele diz que seria desafiador fazer isso funcionar, já que certos pontos da narrativa são muito semelhantes ao que o desenho da Netflix já fez:

“Então eu realmente gosto de Symphony of the Night como um jogo, certo? Eu acho que é onde começa. Acho que é um jogo clássico de Castlevania. Symphony of the Night de um ponto de vista de história é um desafio interessante já que em Symphony of the Night, Alucard tem que lutar contra seu pai. Certo? Nós fizemos isso na temporada 2. Então eu não tenho certeza de como você faria isso de novo de um ponto de vista da narrativa e faria ser significativo. Então haveria desafios quanto a essa história em particular, mas há outros elementos disso que são interessantes. O elemento de Richter, o elemento de Maria que você poderia olhar para, mas a grande batalha entre Alucard e Drácula, eu não sei como poderíamos fazer isso melhor do que fizemos na temporada 2, para ser sincero com você.”

Richter, Maria e Alucard em artes de Symphony of the Night.

Richter, personagem mencionado pelo produtor, é o Belmont desta era. Além de Symphony of the Night, ele está presente em Rondo of Blood, no qual enfrenta Drácula com a ajuda de Maria Renard. Neste título, os dois não se encontram com Alucard, que só se une à trama no segundo jogo desse período, após o desaparecimento de Richter.

A dupla é bastante conhecida, dado seu papel em uma das maiores produções da franquia. Muitos especularam, inclusive, que Maria seria a misteriosa aventureira vista nas lembranças de Saint Germain, na versão da Netflix. Isso ocorreu principalmente por conta de sua conexão com o Corredor Infinito, semelhante a certas habilidades que a jovem possui nos jogos. Embora não se saiba se esse era o caso, já que a personagem da animação não teve sua identidade revelada, este seria um meio possível de explorar a história de Maria sem lidar com o problema mencionado por Kolde.

Ainda assim, Symphony of the Night não se mostra como uma escolha ruim para uma sequência. Após se manter em um sono profundo seguindo sua batalha com Drácula ao lado de Trevor e Sypha, é apenas neste jogo que Alucard retorna. Embora um segundo confronto entre o personagem e seu pai seja citado como um problema, é isso que acontece nos jogos, onde ele investiga o retorno do Conde antes de ter que derrotá-lo novamente.

O que já se sabe com certeza sobre a próxima série?

Até o momento, nada a certo sobre o spin-off. Tudo que pode ser concluído sobre ela vem de comentários breves sobre a produção, já que nenhum detalhe foi divulgado até o momento. Assim, não há certeza sobre qual será sua trama ou quando a nova animação começará a ser produzida de fato. Por causa disso, não é possível sequer formar hipóteses sobre a data de lançamento do derivado.

As falas de pessoas envolvidas no projeto, porém, dão clara indicação que o desenho buscará se distanciar do original em relação à trama e o período em que irá se passar. Também fica claro que os jogos inspirarão a produção, ao invés de a animação seguir por um caminho inteiramente isolado e original. Dado o comentário de Kolde sobre Symphony of the Night, parece que os fãs precisarão aguardar um pouco mais para ver essa história na versão da Netflix, mas existem grandes chances de que Simon protagonize a nova série.

Independente de todas as dúvidas, vale reafirmar que a equipe que propôs o derivado é a mesma que trabalhou na versão original. Assim, para aqueles que se tornaram fãs de Castlevania, há a tranquilidade de saber que as pessoas por trás do projeto continuarão trabalhando no universo.

Relembre os melhores momentos da quarta temporada com a lista abaixo:

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sobre o autor Melissa de Viveiros

Graduanda em Letras na UFMG. || What is infinite? The universe and the greed of men. || @windrunning_