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Quem é Arsène Lupin na cultura pop? Livros, animações e mais

Por Melissa de Viveiros

A série Lupin, lançamento deste ano da Netflix, conquistou o público com a história de Assane Diop (Omar Sy), que se inspira em Arsène Lupin em sua busca por vingança contra a injustiça sofrida por seu pai, condenado por um crime que não cometeu. Ainda que o sucesso da série tenha dado grande destaque ao personagem da ficção francesa, Lupin não é a primeira adaptação do personagem e de suas histórias na cultura pop, e é possível encontrar versões do ladrão cavalheiro em mídias diversas, que passam por livros, animações, e até mesmo mangás e jogos.

O personagem foi criado por Maurice Leblanc, e teve sua primeira aparição em uma revista mensal francesa chamada Je Sais Tout. Leblanc continuou escrevendo as aventuras de Lupin desde essa estreia, em 1905, até sua morte em 1941. A vasta obra de Leblanc se tornou muito influente nos países francófonos (falantes da língua francesa), mas Lupin foi além, se tornando um personagem muito conhecido em outros locais do mundo, sendo um dos mais notáveis o Japão. Aqui, você vai conhecer mais sobre Lupin, e ficar por dentro das variadas representações do personagem e suas histórias na cultura pop.

Quem é Arsène Lupin?

Parte da capa de Arsène Lupin contra Herlock Sholmes

A criação de Maurice Leblanc é um personagem de grande importância na cultura francesa, sendo comparável ao que Sherlock Holmes representa para os ingleses. Um herói de moral ambígua, Lupin é considerado uma força do bem agindo do lado errado da lei, utilizando sua inteligência e impressionante habilidade de se disfarçar em roubos, mas derrotando vilões muito piores do que ele.

Para aqueles que assistiram a série da Netflix, é mais fácil entender não só essa ambiguidade do personagem, uma vez que isto também é retratado no protagonista Assane Diop. A maneira como Lupin opera em suas histórias também é refletida na série, uma vez que o personagem interpretado por Omar Sy utiliza muitos dos roubos de Arsène como base para suas ações. Muitos pontos da história da série não somente se baseiam nas aventuras do personagem como de fato os adaptam para uma versão moderna.

Ao todo, o autor publicou dezessete romances sobre o personagem, e quase quarenta novelas e contos, que foram reunidas em vinte e quatro livros. Além disso, um livro póstumo foi publicado, cerca de 70 anos após a morte do autor, contendo uma história sobre Arsène Lupin descoberta por um de seus descendentes. Ainda considerando-se apenas as obras escritas por Leblanc, foram criadas cinco peças de teatro sobre as aventuras do ladrão cavalheiro.

Arsène Lupin e Sherlock Holmes

Arte do jogo Sherlock Holmes: Nemesis

Além de serem semelhantes em relação à importância que tem em seus países de origem, estudiosos supõem que Holmes tenha sido uma das inspirações para a criação de Lupin, ainda que este seja um ladrão, e não um detetive. Os dois não só são comparados, como também já interagiram em algumas das histórias escritas pelo próprio Leblanc, sendo introduzidos em uma das primeiras a serem publicadas, ainda em 1906.

Chamado de “Sherlock Holmes Chega Tarde Demais”, o conto traz uma versão idosa de Holmes conhecendo um jovem Lupin. O criador do detetive, Arthur Conan Doyle, se opôs à história, utilizando até mesmo meios legais para isto. Em resposta, Leblanc manteve a história em seu livro, apenas trocando o nome do personagem para Herlock Sholmes.

Sholmes retornou em outros contos de Lupin, acompanhado por Wilson, ao invés de Watson. Em uma das histórias, Lupin consegue desvendar um mistério que Herlock não foi capaz de solucionar. O ladrão cavalheiro só enfrentaria o detetive com seu nome verdadeiro sendo utilizado muitos anos depois e em um tipo completamente diferente de mídia: os video-games.

Lupin nos jogos

O persona Arsène de Persona 5

A notoriedade do personagem é tamanha que ele chegou até mesmo aos jogos, seja como presença direta ou indireta. Lupin é um dos protagonistas de Sherlock Holmes Versus Arsène Lupin, também conhecido como Sherlock Holmes: Nemesis, no qual ele tenta roubar os maiores tesouros da Inglaterra enquanto o grande detetive busca impedi-lo. O jogo foi desenvolvido pela Frogwares, famosa por fazer jogos do detetive criado por Conan Doyle, e foi lançado em 2007.

Um título recente fortemente inspirado pela obra de Maurice Leblanc é Persona 5, que tem como base o grupo dos chamados Phantom Thieves, assim como Lupin, que lutam pelo bem embora suas ações não estejam de acordo com a lei. Como se não bastasse a premissa ser semelhante à das histórias do autor, existem diversas referências ao personagem em Persona: o nome do café onde o protagonista Joker vive é Leblanc, como o sobrenome do autor, e o nome de seu primeiro persona é Arsène, assim como o famoso ladrão. Em Persona 5 Royal, que expande os eventos do jogo original, existe uma versão de Arsène chamada Raoul, um pseudônimo comumente utilizado por Lupin.

Em quadrinhos e mangás

Capa do mangá Lupin III

No Japão, Arsène Lupin se tornou muito popular através dos mangás. Muito desse sucesso se deve à Lupin III, escrito e ilustrado por Monkey Punch, que é uma releitura, contando a história do neto do personagem de Leblanc. O mangá gerou toda uma franquia derivada de si, que conta com diversos cds, filmes, animações, jogos e até musicais. A franquia permanece sendo muito popular no país, e teve sua sexta série em anime lançada em 2018. É notável nos títulos de Lupin III a variação de tom em diferentes produtos, sendo que os filmes e animações tendem a ser mais voltados para famílias, enquanto o mangá é por vezes explícito em relação à sexo e violência.

Por muitos anos, os produtos da franquia não podiam utilizar o nome Lupin fora do Japão, por conta dos direitos autorais de Maurice Leblanc, e precisavam ser renomeados, utilizando nomes como “Rupan”. Há algum tempo, no entanto, esses direitos expiraram, o que permitiu que a franquia utilizasse o nome Lupin no mundo todo.

Além de ter recebido diversas adaptações em quadrinhos, outros títulos conhecidos contém referências a Arsène Lupin. Em Dossiê Negro, HQ de Alan Moore da Liga Extraordinária, o personagem faz uma aparição, sendo um dos membros da versão francesa do grupo britânico, chamado de Les Hommes Mysterieux. Já no mangá Soul Eater, existe um personagem chamado Lupin, que aparece no terceiro capítulo e também é um ladrão. Por fim, o artista Takashi Morita, de Gundam, fez uma adaptação em mangá da obra de Leblanc, publicada em 2011.

Nas animações

Lupin III

Como citado anteriormente, Arsène Lupin originou Lupin III, mangá que por sua vez teve animes e filmes derivados de si. Um dos animes foi exibido no Brasil no canal Locomotion, em 2001, e o filme O Ouro da Babilônia foi lançado por aqui em VHS, nos anos 80. Uma das adaptações mais notáveis de Lupin em forma de animação, no entanto, foi O Castelo de Cagliostro. O filme foi o segundo longa sobre Lupin III, além de marcar a estreia de Hayao Miyazaki como diretor de cinema. Além do filme, Miyazaki trabalhou na primeira adaptação do mangá para a televisão, também como diretor.

 O Castelo de Cagliostro se tornou o título mais popular e elogiado da franquia Lupin III, apesar de não ter ido bem na bilheteria inicialmente. O filme é creditado não somente como tendo grande influência nos trabalhos futuros de Miyazaki como tendo também influenciado animadores e diretores ao redor de todo o mundo, inclusive em relação à produções da Disney e da Pixar. Embora tenha sofrido algumas críticas por parte de fãs do mangá por caracterizar Lupin como um galante herói ao invés de um criminoso inescrupuloso, O Castelo de Cagliostro se tornou muito querido por grande parte do público, além de ser considerado um clássico da animação.

Em 2019, foi lançado o filme Lupin III – O primeiro, primeira versão em animação 3D do personagem, cuja história se passa nos anos 60, e leva o protagonista à Paris e até mesmo ao Brasil. Tanto a história quanto a animação do filme foram elogiados, sendo a opinião majoritária do público de que a transição da série para o 3D foi muito bem feita.

Arsène Lupin foi adaptado também como personagem de um anime de romance baseado em um jogo, chamado Code: Realize − Guardian of Rebirth. Nele, além de ser um grande ladrão, Lupin é o interesse romântico da protagonista.

As versões live-action de Arsène Lupin

A série da Netflix apresentou Lupin a um novo público, mas não é sua primeira adaptação em live-action

A primeira adaptação do personagem para os cinemas aconteceu poucos anos após sua primeira história, em um filme mudo em preto e branco, chamado The Gentleman Burglar, e dirigido por Edwin S. Porter. William V. Ranous foi o intérprete de Lupin no filme estadunidense, sendo o primeiro, mas não o único: outros vinte filmes baseados em Arsène Lupin foram lançados em múltiplos países, incluindo Japão, Alemanha, México e Reino Unido, além é claro da própria França.

Embora a primeira adaptação nos filmes venha dos Estados Unidos, não houveram muitos filmes do personagem produzidos lá, sendo o mais recente de 1944, no qual Charles Kovin viveu o protagonista. Antes disso, um filme de 1932 intitulado Arsène Lupin contou com o avô de Drew Barrymore, John Barrymore, no papel principal.

Lupin também já havia sido adaptado no formato de séries, aparecendo em várias séries francófonas ao longo das décadas de 70, 80 e 90. A primeira delas foi ao ar em 1971, tendo lançado episódios de uma hora até 1974. Além de uma série filipina de 2007, outras produções recentes que referenciam o personagem foram um filme de 2014 de Kamen Rider, que conta com o Kamen Rider Lupin, e a série japonesa Secret × Heroine Phantomirage!, que tem como premissa um grupo de ladrões cavalheiros chamado Phantomirage. A mais recente e mais conhecida adaptação do personagem nas séries é, claro, a versão da Netflix, uma releitura onde o protagonista se inspira nas histórias de Lupin.

Arsène Lupin é um personagem carismático, que protagoniza aventuras marcantes de maneira interessante e inteligente. Não é surpreendente, portanto, que tenha sido foco de tantas adaptações e releituras, nas mais diversas mídias. Para aqueles que o conheceram através da série da Netflix e se interessaram pelo personagem, este é apenas o começo: entre obras originais de Maurice Leblanc e versões das mais variadas formas, o que não falta é mais conteúdo de Lupin para conhecer. Agora, você já tem diversas opções para saber por onde começar!

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sobre o autor Melissa de Viveiros

Graduanda em Letras na UFMG. || Mais obcecada pela lore de WoW do que é saudável. || @windrunning_