Capa da Publicação

[CRÍTICA] A Hora da Sua Morte é um péssimo terror, mas poderia ter sido uma ótima comédia

·
Por Gus Fiaux

Tendo chegado aos Estados Unidos em outubro do ano passado, A Hora da Sua Morte saiu nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (27), com alguns meses de atraso. O filme tem uma premissa um tanto peculiar: um aplicativo que começa a prever a morte das pessoas logo viraliza, transformando a vida de uma enfermeira em um verdadeiro inferno.

O longa é escrito e dirigido por Justin Dec, que faz sua estreia nos cinemas, e o elenco traz algumas estrelas como Elizabeth Lail (You), Peter Facinelli (A Saga Crepúsculo) e Talitha Bateman (Annabelle 2: A Criação do Mal). E apesar de ter potencial – ainda que pequeno – o longa consegue surpreender (negativamente). Já conferimos o filme, e aqui você pode ler a nossa crítica!

Crédito: Diamond Films

Ficha Técnica

Título: A Hora da Sua Morte (Countdown)

Direção: Justin Dec

Roteiro: Justin Dec

Ano: 2019

Data de lançamento: 27 de fevereiro de 2020 (Brasil)

Duração: 90 minutos

Sinopse: Quando uma enfermeira baixa um aplicativo que supostamente prediz o momento em que a pessoa será assassinada, ela descobre que tem apenas mais três dias de vida. Com o passar das horas e uma figura a assombrando, ela precisa encontrar um jeito de salvar sua vida antes que o tempo acabe.

A Hora da Sua Morte é um péssimo terror, mas poderia ter sido uma ótima comédia

Nos últimos anos, Hollywood tem se esforçado – e muito – ao apelar para um público mais jovem, especialmente nos filmes de horror. Longas como A Forca, Verdade ou Desafio e até mesmo o remake de Brinquedo Assassino buscam surfar na onda das trends de internet ou em jogos populares entre os millennials. 

A Hora da Sua Morte é mais um lançamento desse tipo, dessa vez trazendo o horror para uma nova moradia – os apps de smartphone. O filme basicamente traz a história de um aplicativo que conta os últimos dias de vida de seu usuário, e é claro que, com isso, ele prevê a hora exata da morte de cada um.

Premissa ridícula, né? Bem, até existia um certo potencial caso o longa mirasse diretamente na comédia, como A Morte te Dá Parabéns, mas infelizmente, esse não é o caso aqui. E isso chega a ser curioso, já que o longa é um desastre como filme de terror, mas é uma comédia ótima.

Escrito e dirigido por Justin Dec, o filme prova desde o começo que o cineasta não faz a mínima ideia de como funciona a cultura de internet. É como se ele já tivesse lido tudo sobre aplicativos e como eles viralizam, mas nunca, em sua vida, tivesse instalado um app em seu celular e visto, de fato, como isso funciona.

O roteiro é, para ser direto ao ponto, uma verdadeira bagaceira. Do começo ao fim, há relatos de pessoas que tiveram sua morte prevista por esse aplicativo macabro – que, como descoberto depois, é “possuído” por um demônio -, mas isso não impede que os protagonistas e outros usuários baixem e app, descrentes de sua função.

Isso torna o longa involuntariamente cômico, o que seria um ponto positivo se o filme se comprometesse com isso. Mas ele se leva a sério demais, quase como se o diretor acreditasse mesmo que um aplicativo possuído fosse algo assustador e tenebroso. Isso porque ele nunca viu a minha fatura no app do banco.

O elenco até tenta. Elizabeth Lail (mais conhecida como a Beck de You) se esforça para fazer uma protagonista séria, madura e que está correndo contra o tempo, mas sofre com o fraco desenvolvimento que lhe é dado por um roteiro que está mais preocupado com jump scares sem sentido do que construção de personagem.

Peter Facinelli até tem um papel importante, mas toda sua subtrama com a protagonista parece deslocada. Para se ter uma ideia do descaso do longa com o humor, a atriz Tichina Arnold (a Rochelle de Todo Mundo Odeia o Chris) está aqui, mas não conta uma piada sequer, mesmo sendo uma gigante da comédia.

Os únicos “alívios cômicos” são vividos por PJ Byrne Tom Segura, que até mandam bem. Byrne faz um padre “modernão”, que fuma maconha e escuta rap, e suas partes são as únicas que tornam o roteiro mais agradável. Se ele tivesse exorcizado um celular no longa, todos os erros estariam absolvidos.

Curiosamente, no que Dec falha como roteirista, ele acerta como diretor. O cineasta se esforça para fazer um filme visualmente bonito, com uma fotografia decente e um bom trabalho de design gráfico – até mesmo o visual do demônio é bem interessante e “diferente” dos cramunhões comuns da cultura pop. 

Ainda assim, há um ditado popular no meio audiovisual que diz: “dá para fazer um filme ruim com um bom roteiro, mas nunca um filme bom com um roteiro ruim”. E esse é exatamente o caso aqui. Mesmo que o longa tivesse quesitos técnicos dignos de Oscar, jamais seria um filme de terror bom.

Primeiro porque ele não assusta (mesmo com trocentos jump scares premeditados), e segundo porque falta qualquer coesão narrativa para tornar essa história razoável. Esse efeito se intensifica no ato final, quando vemos que falta apenas trinta segundos para uma personagem morrer. Há uma cena de ação de, no mínimo, dois minutos, e quando voltamos à contagem regressiva, ainda faltam dois segundos.

Fosse um terrir puro – nos moldes de Zumbilândia, por exemplo -, A Hora da Sua Morte até poderia sair no lucro. Ainda seria um filme sem um bom roteiro e com uma premissa estúpida, mas ao menos divertiria o público. Do jeito que saiu, fica no meio do caminho e não explora bem nenhum dos gêneros.

Aliás, fica o questionamento de por que raios a Diamond Films decidiu soltar esse longa agora, mais de quatro meses após seu lançamento nos Estados Unidos. Nem é como se o público brasileiro estivesse, de fato, interessado num longa do tipo, que nem sequer teve uma boa divulgação por aqui.

Em suma, fuja de A Hora da Sua Morte. Não vale a pena e é mais um desses filmes de terror que tenta ser “moderninho” e falha miseravelmente. O longa faz Verdade ou Desafio parecer uma obra de arte. Para Justin Dec, mais sorte no futuro, mas que invista mais na carreira de diretor que de roteirista.

E se, depois de tudo isso, você ainda tiver um mínimo interesse no filme, fica aqui a recomendação: busque o aplicativo baseado no longa, que foi lançado para promovê-lo no ano passado. Talvez você se assuste mais assim…

 

A seguir, veja mais críticas de filmes:

[CRÍTICA] Maria e João: O Conto das Bruxas é sombrio e conceitual

[CRÍTICA] O Grito faz muito barulho, mas não diz a que veio

[CRÍTICA] Os Órfãos e a volta errada do parafuso

Na galeria abaixo, fique com cartazes do filme:

A Hora da Sua Morte está em cartaz nos cinemas.

Imagem de perfil
sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux