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[CRÍTICA] O Farol é um delírio cômico e grotesco

Por Gus Fiaux

Já começamos o ano bem, com a estreia de um dos filmes de horror mais elogiados de 2019. Após meses de espera, O Farol finalmente chega ao Brasil, trazendo as brilhantes interpretações de Robert Pattinson Willem Dafoe. O filme já veio com uma expectativa considerável, uma vez que é dirigido por Robert Eggers, responsável pelo revolucionário A Bruxa. 

No longa, dois homens precisam desafiar o isolamento em uma ilha remota, conforme são cada vez mais atraídos pelo brilho bruxuleante de um farol. Misturando mitos de marinheiros e uma pitada de horror cósmico, o longa surpreende pelo seu humor. Mas será que vale a pena vê-lo? Aqui, você pode conferir nossa crítica do longa-metragem!

Créditos: Divulgação

Ficha Técnica

Título: O Farol (The Lighthouse)

 

Direção: Robert Eggers

 

Roteiro: Robert Eggers e Max Eggers

 

Ano: 2019

 

Data de lançamento: 02 de janeiro de 2020 (Brasil)

 

Duração: 109 minutos

 

Sinopse: Dois faroleiros tentam manter sua sanidade enquanto vivem em uma ilha remota e misteriosa da Nova Inglaterra no fim do Século XIX.

O Farol é um delírio cômico e grotesco

Estamos vivendo uma era de renovação do horror. O gênero está se fragmentando, e de um lado temos as grandes franquias rentáveis (como o universo de Invocação do Mal ou IT: A Coisa), enquanto o outro nos traz produções mais independentes, que são conhecidas por deixar de lado os clichês e conveniências do terror “mainstream”.

Nesse cenário, muitos cineastas estão surgindo como promessas do gênero, como é o caso de Robert Eggers. O diretor norte-americano nos surpreendeu há quatro anos com o lançamento de A Bruxa, um filme que logo se tornou um clássico cult por sua atmosfera e por sua pegada psicológica, com poucos jump scares e cenas gráficas.

Agora, ele finalmente retorna aos cinemas com O Farol, um filme ainda mais autoral que explora a relação entre dois homens que precisam passar semanas isolados em uma ilha misteriosa, enquanto tomam conta de um farol. Como é um filme de terror, é óbvio que as coisas não dão certo…

A trama gira em torno de Ephraim Winslow (Robert Pattinson), um rapaz que parece estar querendo fugir de seu passado. Ele se voluntaria para trabalhar no farol resguardado por Thomas Wake (Willem Dafoe), um velho lunático que, através de seu comportamento e suas ordens, torna a convivência dos dois impossível.

A partir daqui, qualquer coisa que for falada sobre o longa pode ser considerada um spoiler, mas vamos dar um resumo básico, baseado nas entrevistas do diretor e do material do filme: é um longa que envolve sereias, lendas de marinheiros, gaivotas e horror cósmico. Peculiar, não é mesmo?

De muitas formas, assim como Aniquilação (de 2018, lançado no Brasil pela Netflix), O Farol funciona como uma perfeita “adaptação” das obras de H.P. Lovecraft, mesmo que não adapte diretamente nenhum dos contos ou livros do autor. É uma descida lenta pela espiral da loucura, do isolamento e da danação.

Porém, mais surpreendente que isso, o filme é hilário. Em várias entrevistas durante a turnê de imprensa do filme, Eggers disse que considerava O Farol mais como uma “comédia de humor negro” do que como um filme de horror. E de muitas formas, o diretor está certíssimo.

O filme explora a relação entre patrão e subordinado de uma forma nada convencional, com dois homens que não conseguem exprimir seus sentimentos (em uma das muitas críticas à masculinidade tóxica, que permeiam a trama) e que não conseguem se comunicar, enquanto ambos experimentam o horror do isolamento e do alcoolismo.

E tudo isso é feito de uma forma visceral, com muitas sacadas geniais. Até mesmo os recursos mais banais, como piadas escatológicas, são empregadas com louvor por Eggers, que sabe o momento certo de transformar o riso de alegria em uma risada desconfortável e nervosa. O diretor já havia se provado no horror, mas aqui ele se mostra um excelente comediante – mesmo que seu tipo de humor não seja para todo mundo.

Mas o que realmente faz o filme não colapsar em cima de si mesmo são as atuações de Robert Pattinson e Willem Dafoe. Os dois são os únicos atores “com falas” de toda a produção, e dominam a tela de uma forma espetacular. É impossível tirar os olhos da dupla, especialmente quando estão juntos trocando farpas.

Os dois conseguem a proeza de extrair todas as emoções de seus personagens apenas através das expressões corporais, o que é uma tarefa complicadíssima – ainda mais em um filme em que todos os diálogos são carregados do linguajar, do sotaque e das gírias dos Estados Unidos no final do Século XIX.

E mesmo que eles roubem a cena, o verdadeiro protagonista estampa o pôster e o título do filme, já que o misterioso farol parece ser o foco de toda a intriga e mistério entre os dois faroleiros. Os simbolismos aqui são variados, desde o mito de Proteu à figura fálica.

No entanto, o filme nunca perde seu charme, mesmo sendo situado em um único local durante quase duas horas. A trama cresce de uma maneira enigmática, conforme os personagens migram por diferentes estágios de seu cárcere voluntário. A presença de figuras míticas e até mesmo a tensão homoerótica extrapola os limites da loucura.

E, ainda assim, o longa nunca perde seu foco – o que permite que ele seja interpretado da forma mais simplista possível, como a história de dois homens que começam a enlouquecer por estarem isolados do mundo. E nesse sentido, o filme extrai algumas referências e rimas visuais de clássicos como O Iluminado, de Stanley Kubrick.

Porém, em uma perspectiva mais ampla, o filme permite várias interpretações diferentes, especialmente se levarmos em consideração o horror cósmico e as lendas de marinheiro que inspiraram a história. Muitos vão ver esse filme como “parte” do mito de Cthulhu, enquanto outros podem encontrar similaridades com a lenda de Davy Jones. 

Tecnicamente, o filme é um delírio. A fotografia em preto-e-branco – enquadrada em uma proporção de 4:3 – é bela e, ao mesmo tempo, macabra. Cada frame do longa-metragem é um quadro pronto para ser emoldurado, com um excelente trabalho de iluminação e sombras por parte do diretor de fotografia Jarin Blaschke, que colaborou anteriormente com Eggers em A Bruxa. 

A direção de arte também é impecável, com um ótimo trabalho de recriação de época e ambientação – algo que é complementado pelos figurinos belíssimos de Linda Muir. Por ser um filme de horror, é pouco provável que vá ter espaço no Oscar, o que é um crime com o trabalho de toda a equipe técnica do longa.

De muitas formas, o longa lembra bastante os filmes da Era do Cinema Mudo – e não é à toa que foi filmado com lentes da época, para passar uma impressão “vintage” e suja que cai muito bem com a história. Se tivesse cartelas de falas e intertítulos, poderia facilmente se passar por uma produção da década de 1920. Até mesmo os efeitos visuais (geralmente feitos com elementos práticos) lembram um pouco a filmografia de George Méliès.

Por conta disso e de muito mais, O Farol é outro acerto certeiro na carreira de Robert Eggers. O cineasta se provou um verdadeiro ícone do horror contemporâneo mais uma vez, apostando em uma pegada completamente independente e diferente das grandes produções lançadas por estúdios famosos.

O filme não apenas é um horror de ponta, com momentos bem angustiantes e tensos, como também migra para a comédia escrachada com uma grande suavidade, transformando a loucura de dois homens isolados no inferno um verdadeiro show, seja de horrores ou de humor.

Além disso, Robert Pattinson entrega uma das melhores atuações de sua carreira, provando que é um dos atores mais subestimados desta geração, enquanto Willem Dafoe, como sempre, impressiona por seu talento inigualável. O Farol, de muitas formas, é um delírio do qual você não vai querer acordar.

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux