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[Crítica] Mulher-Maravilha 1984 entrega sinceridade com uma profundidade inesperada

Por Gabriel Mattos

Existe um mito muito bem estabelecido de que a “América” é a terra das oportunidades — o Sonho Americano. Mulher Maravilha 1984 chega para nos lembrar que todo sonho tem um preço que, às vezes, é muito alto a se pagar.

Repetindo a dobradinha de Patty Jenkins na direção e Gal Gadot no papel titular, o novo filme da maior super-heroína de todos os tempos é uma obra bastante autoral que sabe dosar bem a ação para entregar uma mensagem política poderosa. Todo mundo está lutando uma batalha pessoal, e não seria diferente com a Mulher-Maravilha.

Ficha Técnica

Título: Mulher-Maravilha 1984

 

Direção: Patty Jenkins

 

Roteiro: Patty Jenkins, Geoff Johns e David Callaham

 

Ano: 2020

 

Data de lançamento: 17 de dezembro

 

Duração: 155 minutos

 

Sinopse: Mulher-Maravilha precisa enfrentar uma antiga divindade com o poder de destruir nossa civilização.

A trama se passa em Washington, capital estadunidense.

Império de sonhos

É impossível desassociar esse filme do período em que ele foi produzido: às vésperas da corrida presidencial americana onde Trump enfrentava Joe Biden. Em essência, MM84 foi pensado para mostrar o grande estrago que a política de Trump poderia causar.

A estratégia dele sempre foi se aproveitar da pós-verdade, isto é, enxergar o mundo do jeito que ele gostaria que fosse, não condizente com a realidade. Esse é o ponto de partida para o arco dramático dos três personagens principais que carregam o enredo do filme — além de Diana Prince, os vilões Mulher-Leopardo e Max Lord.

O filme explora como a ilusão pode enlouquecer o homem. Apesar de vermos isso em todos os personagens, inclusive na Diana, isso é muito presente na trama de Max Lord. Ele é um vigarista de televisão que vende a promessa de sucesso para pessoas desavisadas. No fundo, tudo que ele quer é dar uma vida melhor para seu filho e para isso ele pretende usar um artefato antigo — a Pedra dos Sonhos, que realiza qualquer desejo, mas cobra um preço.

Interpretado por Pedro Pascal, Max Lord carrega o enredo nas costas

A maneira que cada personagem é afetado por esse cristal místico serve como o motor da narrativa. Lord personifica esse conflito inserindo um necessário subtexto político. Ele serve como alegoria para a vida de milhares de imigrantes latinos — também conhecidos como Dreamers (“Sonhadores”) — que viam nos Estados Unidos a promessa de uma vida melhor, mas se depararam com a dura realidade de preconceito e subemprego. O roteiro costura essa ideia muito bem à mitologia da Mulher-Maravilha, explorada com sutileza ao longo da trama.

Os elementos mais delicados do personagem emergem da atuação brilhante de Pedro Pascal (The Mandalorian, Game of Thrones). Max poderia ter ficado caricato nas mãos de outro ator, mas Pascal soube entregar intensidade e sensibilidade com maestria. Chega a ser revigorante poder ver sua atuação expressiva sem a presença de um certo capacete mandaloriano.

Enfrentando os sentimentos

Seguindo cada passo da insanidade de Max, mas hesitante em encará-lo está Diana Prince. Ela ainda está em luto com a morte de Steve Trevor (Chris Pine) e sua trama explora com sensibilidade o árduo trabalho de aceitar a perda de uma pessoa querida. A melancolia de temas tão pesados nunca atrapalha o brilho abundante no filme, pelo contrário. O jeito que a personagem encara sua dor só ressalta os momentos mais alegres da narrativa.

Esse conflito interno permeia todas as cenas da Mulher-Maravilha. Na verdade, passamos mais tempo acompanhando os dramas da identidade civil da personagem que de fato as batalhas da super-heroína. Uma decisão muito acertada de Patty Jenkins, pois assim fica mais fácil empatizar com seus problemas bastante humanos.

A perda de Steve Trevor acompanha Diana por toda narrativa.

Quando a porradaria finalmente acontece é surreal. A heroína mostra um domínio muito maior de seus poderes, usando bem mais sua tiara e o Laço da Verdade. Os efeitos especiais do Laço por vezes são desengonçados, mas sua versatilidade em combate compensa ao tornar a ação muito mais dinâmica.

Essas cenas sempre fecham com um momento explosivo que te deixa na ponta da cadeira, vibrando por mais. Há um momento impactante em todas as cenas de ação, que apesar de escassas, compensam por sua qualidade inquestionável.

Garra feminina

Servindo de ponte entre as histórias de Diana e Max está a personagem de Kristen Wiig, a Mulher-Leopardo. O filme acompanha o seu desabrochar da charmosa cientista Barbara Minerva na temida predadora que conhecemos dos quadrinhos. Não só seus trejeitos mudam nesse processo, mas seu figurino é o que mais marca sua evolução.

O visual de Barbara Minerva evolui conforme ela se transforma na Mulher-Leopardo.

Ela começa usando roupas bem folgadas e confortáveis, mas vai adotando progressivamente um estilo mais selvagem e ousado. Só vemos a gloriosa transformação em Mulher-Leopardo durante a batalha final, mas felizmente o resultado é bem convincente. Espere algo mais sutil do que aquela galhofa que vimos no filme Cats.

O roteiro é muito competente em desenvolvê-la não como vilã, mas sim uma mulher saturada das agressões de uma sociedade machista que resolveu revidar. O assédio moral e sexual é retratado com bastante cautela, reacendendo uma discussão feminista mais presente no primeiro filme.

Sua relação com Diana mostra a importância de uma mulher na direção de um filme desse porte. Mesmo quando em lados opostos, elas demonstram respeito e sororidade. Barbara provoca mudanças reais em Diana, algo que todo bom vilão deveria alcançar.

As cenas de ação do filme são magnéticas

Nada além da verdade

No fim, toda complexidade do roteiro só funciona graças a um trabalho técnico bastante competente. A montagem do filme suaviza o impacto da exposição necessária para o enredo fluir, introduzindo elementos que serão revisitados ao longo da trama sem pressa.

A fotografia também merece elogios, transcrevendo bem os temas da narrativa para o aspecto visual. As cores têm um contraste muito maior quando a história fala sobre verdade, que vai se perdendo conforme o mundo se imerge no caos. Dá para traçar um paralelo com outros filmes de herói da DC — tão obcecados com um mundo cinzento a ponto de esquecer toda cor que existe lá fora.

Desde a cena de abertura, Mulher-Maravilha 1984 deixa bem clara a sua tese: “Você não pode ter tudo, só a verdade.” Na correria da vida, acabamos tão absortos em nossos próprios problemas que podemos nos convencer de que somos os únicos que sofremos. Mas essa não é a verdade.

No fundo, o vilão desse filme não é uma pessoa, nem mesmo uma ideia, mas um mundo hostil que nos massacra. Um mundo que faz a gente esquecer nossa própria humanidade.

Mulher-Maravilha 1984 nos convida a exercer empatia, a lembrar que somos melhores do que nosso lado mais ferido. Juntos temos a força para enfrentar esse mundo, causar uma mudança de verdade. “E a verdade é o bastante. A verdade é linda.”

Agora, conheça melhor os vilões da heroína:

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sobre o autor Gabriel Mattos

Redator que joga mais Switch do que deveria e já leu todo o novo cânone de Star Wars, até os livros ruins. • @gabeverse