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Watchmen: 1×03 – Eu ouvi uma piada uma vez…

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Por Gus Fiaux

É mais que satisfatório ver como uma série não tem limites para o que quer mostrar nas telas, especialmente quando se trata de uma adaptação. Isso mostra que os criadores estão dispostos a pegar o material original e transformá-lo, criando uma nova matéria bruta que precisa ser lapidada por eles e por nós, o público.

Felizmente, isso é algo que a série de Watchmen, da HBO, tem feito desde o início. Desde o primeiro episódio, essa produção faz questão de mostrar o quanto entende a proposta da graphic novel, e o quanto está disposta a fazer algo diferente com ela – não é à toa que a série é uma espécie de continuação.

Em seu terceiro episódio, “She Was Killed by Space Junk”, nós somos apresentados a uma nova personagem – ou melhor, uma personagem muito bem conhecida, que terá um papel bem grande a desempenhar no decorrer desta trama. Trata-se de Laurie Blake, que em um passado muito distante era conhecida como Espectral.

Aliás, é interessante notar como a série segue de perto a personalidade de seus personagens na HQ. Se a Laurie do filme de Zack Snyder era uma mulher com um passado atormentado, mas carismática e disposta a fazer o bem a qualquer custo, a da série – assim como a da graphic novel – é astuta, arrogante e com um profundo desprezo por aqueles ao seu redor.

Porém, alguns anos – cerca de 30 – se passaram desde os eventos da HQ. Agora, Laurie é uma mulher muito ressentida pelas experiências de seu passado – especialmente àquelas envolvendo o Dr. Manhattan. Ela ainda tenta se comunicar com ele, mas suas motivações parecem ter algo a ver com uma certa ave de rapina.

Além disso, ela passou por uma transformação total. Renunciou o nome de sua mãe e adotou o sobrenome de seu pai, Edward Blake. Não satisfeita com isso, ela também parece ter adotado sua postura anti-heroica, transformando-se em uma nova versão do Comediante.

Porém, em vez de ser vigilante, ela trabalha para uma divisão do FBI especializada em caçar vigilantes – o que, por si só, já prova como ela evoluiu e deixou de lado por completo seu passado. Mas algumas coisas nunca morrem…

Ela é colocada na história a pedido do Senador Joe Keene Jr., que a pede para investigar o caso do assassinato de Judd Crawford. Ela então vai até Tulsa, Oklahoma, e é quando descobrimos que a lei que protege os policiais, permitindo que eles usem máscaras, só está em vigor nesse estado.

O interessante do terceiro episódio é como ele muda a perspectiva e traz justamente a visão de Laurie Blake em destaque. Aliás, a personagem é mais do que brilhantemente interpretada por Jean Smart. A veterana de Legion consegue passar toda a astúcia e rispidez da personagem, ao mesmo tempo que transforma suas cenas mais tensas com uma quebra cômica certeira.

Por outro lado, temos a volta de Adrian Veidt – que, nesse episódio, se caracteriza com o traje clássico do Ozymandias, idêntico ao da graphic novel. O personagem continua suas maquinações silenciosas, mas a essa altura do campeonato já está óbvio que ele quer recriar o acidente do Dr. Manhattan.

E por mais que Jeremy Irons consiga transmitir seu papel com muita tranquilidade, as cenas do personagem já estão ficando repetitivas. Particularmente, acho que isso faz parte da narrativa, mostrando como Veidt está preso em um verdadeiro loop devido à insistência em seu próprio plano, mas já está sendo um pouco maçante e repetitivo vê-lo em todo episódio fazendo a mesma coisa.

Porém, ao final do episódio, o personagem mostra um pouco mais de como parece estar sendo controlado, o que pode render uma quebra interessante para os próximos capítulos. Só esperamos que ele tenha mais o que fazer em tela do que simplesmente ficar matando clones com planos malucos.

Angela Abar, a Irmã Noite, também tem uma cena de destaque nesse episódio, quando um membro da Sétima Kavalaria aparece para tentar sequestrar o Senador Keene. Ela prova sua força e inteligência ao salvar todos da morte certa, durante o enterro.

No entanto, o verdadeiro momento da personagem se dá logo no final, quando ela tem uma conversa mais reveladora com Laurie Blake. As duas são faces opostas da mesma moeda, e é bem provável que unam forças no futuro – mas por enquanto, não fazem questão de esconder seu desprezo uma pela outra.

A série ainda está seguindo um ritmo ágil e instigante, mesmo que demore para resolver seus próprios mistérios. Tudo isso faz com que fiquemos ainda mais interessados para saber aonde essa história vai chegar, por mais que a cada pergunta respondida, seis novas surjam no caminho.

Quanto à parte técnica, o episódio mantém o nível dos anteriores. A direção de Stephen Williams, responsável por episódios de Lost e Westworld, é bem à altura do que a série se propõe, especialmente na fotografia e na mixagem de som. O ruído de um relógio pode ser ouvido novamente, o que mais uma vez aponta para um mau presságio…

Em suma, o terceiro episódio de Watchmen consolida o papel que a série tem ao se propor como uma continuação da graphic novel de Moore e Gibbons. Além de mostrar respeito pelos personagens e sua construção, a série também mostra formas peculiares e inovadoras de trabalhá-los, de forma a fornecer uma continuação diferente do que imaginávamos para eles.

Ainda não sabemos exatamente qual será o papel de Laurie Blake nisso tudo, mas a julgar por sua participação apenas neste episódio, já sabemos que ela não veio para brincar, por mais que seja uma Comediante. Ainda assim, no frigir dos ovos, talvez ela seja a peça que falta para fazer esse relógio funcionar como o esperado…

Na galeria abaixo, fique com imagens da série:

Watchmen vai ao ar aos domingos, na HBO.

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux