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Watchmen: 1×02 – O que aconteceu com o sonho americano?

Por Gus Fiaux

Watchmen já chegou com tudo, se provando mais um acerto para a DC em 2019, em um ano que já nos presenteou com Shazam!, Coringa, Patrulha do Destino e Monstro do Pântano, entre outros. O primeiro episódio já mostrou todo o potencial que a série pode ter, com muitos elementos inseridos no universo já construído por Alan Moore e Dave Gibbons.

No segundo episódio, exibido no último domingo (27) e intitulado “Martial Feats of Comanche Horsemanship”, a trama finalmente traz novos detalhes, apresentando mais de Will, que logo descobrimos ser o menino apresentado no começo do capítulo anterior.

O episódio mostra as consequências da morte de Judd Crawford. Após testemunhar o fim de seu chefe e amigo, Angela Abar/Irmã Noite finalmente prende Will e começa a investigar sobre seu passado, por fim descobrindo que ele é ninguém menos que seu avó, e um dos sobreviventes do massacre de Tulsa.

Ao mesmo tempo, ela e Will estabelecem uma relação peculiar. Embora Angela não confie no idoso, já que ele afirma ter matado Judd, ela parece ter se afeiçoado, já que ao fim do episódio ela nutre até uma cena mais “afetiva” com o personagem.

E isso, é óbvio, é só o pano de fundo do episódio. Watchmen já chegou construindo uma mitologia própria e que se encaixa com facilidade no universo da graphic novel. Contudo, desde o início estamos testemunhando uma história original, apesar do retorno de alguns personagens clássicos.

Todo o plot envolve a ascensão da Sétima Kavalaria, e a investigação que busca impedi-los de alcançar seus planos nefastos. Nisso, desde o primeiro episódio a série tem se mostrado muito efetiva ao explorar a distorção dos discursos, e como uma narrativa pode ser adulterada para se encaixar uma ideologia.

Isso, é claro, tem a ver com o Rorschach. Seu diário foi transformado em um manifesto e é usado por supremacistas raciais para abordar o caos nos Estados Unidos – o que incorpora, ao mesmo tempo, vários problemas de ordem atual, como teorias da conspiração, o ressurgimento do neonazismo e a intolerância contra minorias.

Por outro lado, Watchmen sabe que o mundo não é preto e branco, como Angela Abar costuma falar. Por conta disso, os personagens são cheios de tons de cinza – e a própria Irmã Noite é um exemplo disso. Embora seja muito satisfatório vê-la descarregando sua raiva nesse episódio, fica bem claro que ela não é lá uma heroína tradicional, respeitando o legado dos Minutemen e dos personagens centrais da HQ de Moore e Gibbons.

Nesse episódio, entendemos um pouco mais de sua origem e como o mundo se transformou num caos completo, quando policiais sofreram um cerco e precisaram se tornar vigilantes mascarados para protegerem suas próprias vidas civis. Isso ajuda a entender um pouco mais das motivações da Irmã Noite e de seus colegas.

Falando neles, o episódio expande um pouco mais a participação de certos coadjuvantes. O claro exemplo disso é o Espelho (vivido por Tim Blake Nelson), que por sua vez tem um quê de Rorschach, mas de uma forma mais consciente.

No episódio, o personagem tem mais falas e conseguimos perceber toda a dor que ele sente, mesmo que sua máscara espelhada não deixe isso transparecer. É um personagem complexo, que esconde muito mais sob sua superfície do que podemos imaginar.

Além disso, mesmo que não apareça no episódio (exceto em flashbacks), podemos conhecer um pouco mais de Judd Crawford. E a julgar pela descoberta de alguns esqueletos em seu armário – no caso, um uniforme da Ku Klux Klan – o personagem terá um papel similar ao do Comediante na saga original, sendo o ponto focal de toda a investigação da trama.

E isso porque a série está só em seu segundo episódio, mas já está apresentando vários detalhes que vão ser importantes no futuro.

Por outro lado, temos também toda a trama do Ozymandias, que também esconde algum elemento crucial. Já está mais do que nítido que Adrian Veidt está tentando recriar o Doutor Manhattan, embora ainda não façamos ideia do motivo pelo qual isso possa estar acontecendo.

Dessa forma, Watchmen finalmente começou a nos dar as respostas. A questão é que essas respostas vieram acompanhadas de dezenas de perguntas, o que torna o futuro da série bem imprevisível. Afinal de contas, quem é Will, e quem teria o resgatado? Há quem acredite que ele possa ser o Justiça Encapuzada, que inclusive ganhou espaço nesse episódio.

O personagem é destaque de uma “série dentro da série”, que explora os dias de glória dos Minutemen. É um segmento bem impactante, com a melhor sequência de ação do episódio – e que, aliás, conta com uma óbvia referência ao estilo de Zack Snyder, quer essa referência tenha sido intencional ou não.

(Na verdade, parece bem intencional. É quase como se Damon Lindelof quisesse justamente zoar o estilo do “visionário”.)

O que nos leva à parte técnica. A série tem se provado uma superprodução televisiva, com técnica quase cinematográfica. A fotografia continua espetacular, mas é na montagem e na edição que a magia é feita, com vários cortes quase imperceptíveis que criam um valor simbólico, não muito diferente dos paineis de Gibbons na graphic novel.

Em suma, o segundo episódio trouxe bons destaques, e embora a série já tenha chegado com tudo, ainda é cedo para dizer o que será dessa história. De qualquer forma, a trama já captou nossa atenção ao provar que o universo da história pode ser expandido de formas bem criativas. E nos resta ver onde isso vai…

Na galeria abaixo, fique com imagens da série:

Watchmen vai ao ar aos domingos, na HBO.

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux