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Watchmen: 1×01 – Tique-taque, tique-taque…

Por Gus Fiaux

Watchmen é uma obra intocável. Nas HQs, é definitivamente um marco cultural que definiu não apenas um universo complexo e rico, mas também nos fez observar como os super-heróis e vigilantes seriam vistos em um contexto “realista”. Há quem acredite que a graphic novel de Alan Moore Dave Gibbons não deveria ser adaptada nem transposta para qualquer outra mídia.

Ainda assim, a DC Comics não cansa de trazer adaptações dessa história. Em 2009, tivemos um filme extremamente fiel dirigido por Zack Snyder, e dez anos depois cá estamos com uma série da HBO, criada e produzida por Damon Lindelof, que serve como uma espécie de continuação da graphic novel. E em ambos os casos, os fãs podem se alegrar com o tratamento dado à história.

Como eu disse, Watchmen da HBO não é uma nova adaptação da franquia. É uma história completamente original, que se passa cerca de trinta anos após os eventos da HQ. Tudo aqui é canônico, desde a existência dos Minutemen à grande catástrofe genocida arquitetada pelo Ozymandias para impedir uma guerra nuclear. Nesse sentido, é uma obra muito mais próxima aos quadrinhos que à adaptação de Snyder.

Contudo, somos apresentados a um universo ainda mais distópico. O ano é 2019 e os Estados Unidos estão em uma grande crise com o surgimento da Sétima Kavalaria, um grupo supremacista branco que usa, como símbolo, a máscara do Rorschach. Eles surgem para pregar um ideal de limpeza higienista, não muito diferente do que a Ku Klux Klan fez no mundo real.

E no centro disso tudo, seguimos a vida de uma policial de Oklahoma. A detetive Angela Abar (codinome Irmã Noite) é uma mulher negra que perdeu muita coisa graças à ascensão desse grupo racista. Ainda assim, ela continua servindo à força policial, especialmente após um decreto que exige que os oficiais tenham codinomes e ajam com máscaras, como vigilantes modernos.

Ela se vê no meio do retorno da Sétima Kavalaria, e precisa unir forças com seus colegas de trabalho para impedir a nova ascensão desse grupo, que promete um atentado terrorista em larga escala como jamais antes visto. E é assim que começa a trama da temporada, que deve ter apenas nove episódios – e, por enquanto, sem chance de renovação para um segundo ano.

É preciso deixar avisado de antemão: essa nova roupagem de Watchmen não é para os fracos de coração, especialmente aqueles que interpretam de forma errônea a graphic novel de Moore e Gibbons. Desde o anúncio da série e a divulgação dos primeiros detalhes do roteiro, a internet entrou em polvorosa com a ideia de Rorschach sendo um símbolo da supremacia racial. 

Agora, boicotes estão sendo promovidos, incluindo um avanço massivo de reviews negativas em sites como o Rotten Tomatoes e o IMDb. Entretanto, a série de Damon Lindelof em momento algum demoniza a figura do vigilante. Na verdade, a série se propõe justamente a fazer uma crítica sobre algo que está cada vez mais presente no cotidiano político: a distorção de discursos de terceiros para se encaixar em uma narrativa ideológica.

Além do mais, o próprio Moore sempre demonizou Rorschach. Quando criou o personagem, o autor jamais esperou que ele se transformaria num grande ícone, já que sua intenção sempre foi trazer uma visão crítica para uma pessoa com diversos distúrbios psicológicos que usava trajes de vigilante e fazia justiça com as próprias mãos indiscriminadamente. Essa visão se mantém, de forma crítica aqui.

Porém, a forma é outra. A série busca explorar a forma como o Diário de Rorschach se transforma em uma espécie de manifesto pelas visões de outrem. E a forma mais clara que isso é representada se dá no vídeo em que a Sétima Kavalaria faz seu discurso, usando frases clássicas do personagem, totalmente distorcidas para se encaixar em sua própria narrativa.

Além disso, vale lembrar como Watchmen, a HQ, sempre foi um produto de seu tempo. Lançada no ápice da Guerra Fria, a HQ era uma espécie de relato de um mundo ainda mais caótico, onde as bombas estavam a um ponto de explodirem. Ao mesmo tempo, também era um mundo habitado por vigilantes e por uma entidade super-poderosa na forma do Dr. Manhattan. 

Na série, por outro lado, Lindelof se usa de história especulativa para imaginar como seria o mundo em 2019, no mesmo universo da graphic novel. Um mundo onde Robert Redford é presidente, onde os vigilantes continuam sendo importantes, onde as lulas do Ozymandias ainda pairam ameaçadoramente. Um mundo cruel e perverso, ameaçado por problemas tão atuais quanto o ressurgimento de neonazistas e grupos supremacistas.

E é por isso que o foco estar na personagem de Regina King – que aliás, está impecável como a Irmã Noite, cheia de vigor e, ainda assim, com muitas falhas humanizantes – torna a série tão impactante. De muitas formas, ela pode ser uma personagem original, mas representa muito bem o legado de Watchmen, seja em sua cruzada cotidiana ou na forma como seu mundo é completamente virado de cabeça para baixo com a iminência da guerra final.

E, ainda assim, Lindelof fez questão de trazer de volta alguns personagens clássicos da graphic novel. Adrian Veidt pode ter sido dado como morto, mas continua vivo e está planejando algo ainda mais insidioso. Se ele já conseguiu parar uma guerra, ao fazer a humanidade se unir em prol da sobrevivência e de um “inimigo maior”, ele agora começa a pensar em formas de acabar com todas as misérias da humanidade.

Nesse sentido, Jeremy Irons cai como uma luva para o papel do Ozymandias. Ele é excêntrico e parece ser muito mais inteligente que todos ao seu redor, mas de uma forma enigmática e misteriosa. E se podemos analisar algo de seus atos no primeiro episódio e na prévia do segundo – como, por exemplo, o título da peça que está escrevendo – é bem provável que ele esteja querendo recriar um certo super-ser.

E essas não são as únicas referências da graphic novel. Temos uma visão clara do que parece ser uma nova versão do Arquimedes, a nave do Coruja II. Na verdade, todas as cenas do episódio carregam, em si, alguma referência visual ou textual à HQ de Moore e Gibbons – há até mesmo uma nova versão do pin do Comediante com uma mancha de sangue – algo que já abre a possibilidade para muitas tramas a serem exploradas.

Mas mais interessante do que isso, o que cativa em Watchmen é sua construção de universo. Por mais que existam eventos reais referenciados aqui – toda a cena de abertura, que é uma recriação do Massacre de Tulsa, em 1921, é um soco no estômago -, a série se propõe a criar um universo novo e completamente distópico, mesmo se passando em 2019.

Isso é o que faz com que a trama seja tão engajante e envolvente. Ainda não sabemos muito bem como funciona a logística desse universo – já que somos jogados aqui dentro, sem grandes explicações, e temos que entender o funcionamento político e social dessa realidade através do contexto que nos é sugerido. Porém, isso está longe de ser um problema, já que a própria história é assim.

Na realidade, a série veio já quebrando uma tradição recorrente em adaptações televisivas de super-heróis para a TV. Se, nos últimos anos, os quadrinhos invadiram as telinhas em diversas frontes, seja nas televisões ou nos serviços de streaming, estávamos acostumados a ver um primeiro episódio e já ter uma ideia de quais rumos a série poderia tomar. Com Watchmen, o futuro é uma grande interrogação – e isso é muito mais empolgante.

Na parte técnica, a produção da HBO também não decepciona. Embora existam efeitos especiais muito bem empregados, a parte prática da série é o que mais chama a atenção. Podemos notar um cuidado redobrado na hora de criar esse universo a partir do design de produção, onde até pequenos detalhes que normalmente não fariam sentido no nosso mundo são imprescindíveis para essa realidade fictícia.

Os trajes e uniformes dos vigilantes são outro ponto alto. A série usa seu figurino de uma maneira um pouco mais realista que, digamos, o filme de Zack Snyder, criando visuais marcantes que, ainda assim, parecem ser realmente feitos por seres humanos, e não peças impecáveis que saíram diretamente dos quadrinhos. De muitas formas, isso confere veracidade à trama – destaque, aliás, para o traje da Irmã Noite e os uniformes policiais.

E isso não é tudo. A fotografia é espetacular. A série se pauta em muitos planos próximos e cada quadro parece ter alguma simbologia oculta – especialmente remetendo a relógios, algo que é bem importante na HQ original. O trabalho sonoro é outro que merece destaque – com uma trilha sonora que vai desde o rap ao folk de uma maneira muito bem empregada.

Em suma, Watchmen começou de uma maneira bem promissora. A série se propõe a fazer não apenas um estudo sobre os vigilantes (novamente), como também inseri-los no contexto de problemas atuais, como intolerância e a ascensão de grupos de ódio. Ainda não sabemos o que pode surgir a partir disso, mas é um começo excelente que prova que a HQ ainda pode servir como base para a construção de um mundo muito mais rico.

Não fazemos ideia de onde essa história vai, e qual será seu propósito, mas certamente é um começo cheio de potencial que pode abordar muito bem temas cada vez mais urgentes, com uma roupagem que só Watchmen consegue ter. E enquanto isso, o relógio do juízo final se aproxima da meia-noite. Consegue ouvir seu barulho? Tique-taque, tique-taque, tique-taque…

Na galeria abaixo, veja imagens da série:

Watchmen vai ao ar aos domingos, na HBO.

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux