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Quadrinhos e política: Duas coisas que precisam se misturar!

Por Gus Fiaux

2019 é o ano em que a polarização mundial cresceu a níveis consideráveis. Se já estávamos vendo uma divisão ideológica no mundo desde sempre, esse foi o ano em que a tensão atingiu novos ares, seja na política e até mesmo no entretenimento.

No meio de tudo isso, temos a ascensão de um grupo muito peculiar que rejeita a mera participação da política nas artes, seja através do cinema, dos quadrinhos ou de outras mídias sonoras, visuais e audiovisuais. Para muitos apolíticos, o entretenimento não devia se meter em problemas do mundo real.

No Brasil, isso culminou no lançamento da campanha “Quadrinhos sem política”, pedindo pela ausência de discussões de cunho político na nona arte. Mas vale lembrar que não são só os quadrinhos que estão passando por isso, já que o cinema, as séries de TV e outros velículos culturais também possuem críticos nesse sentido.

Entretanto, é impossível separar quadrinhos (ou a arte, de modo geral) da política.

Capitão América, um herói que literalmente veste a bandeira dos Estados Unidos.

Esse entendimento se dá por uma série de questões, mas a mais óbvia delas se dá no âmbito antropológico. HQs, assim como outras manifestações artísticas e culturais são criadas por seres humanos. E os seres humanos estão diretamente envolvidos com a política.

E antes de você começar a defender o papo de “direita e esquerda”, vale lembrar que política não é só isso. Dando uma olhada em qualquer dicionário, você vai ver que política, em seu sentido mais básico, é descrita como “a arte ou ciência de governar”. Mas vai muito além disso.

A política é um conjunto de noções e “regras” que envolvem o ser humano em seu cotidiano. O posicionamento político, por sua vez, pode partir de qualquer que seja a ideologia do sujeito que o representa. Se, por um lado, direita, esquerda e centro são os aspectos mais encontrados atualmente, não podemos nos esquecer da anarquia, do radicalismo e de diversas outras posturas de posicionamento.

Na verdade, mesmo que alguns não saibam, até mesmo a resistência à política não deixa de ser um posicionamento político.

Com isso claro em nossas cabeças, é nítido que a política exerce um domínio central das nossas relações humanas e nossos envolvimentos com diversos aspectos do universo, seja a ciência, a religião e até mesmo a arte.

Não existe arte apolítica. Não é porque as histórias de seu herói favorito não apresentam luta de classes, governos ou ideologias políticas que elas não contribuam, de fora direta ou indireta, para o posicionamento político de quem está por trás delas ou de quem as lê.

Nas HQs, isso é visto em diversos personagens que são mais “escancarados” em relação ao seu posicionamento. O Capitão América literalmente veste a bandeira dos Estados Unidos, propagando os ideais da nação e socando nazistas eventualmente. A Mulher-Maravilha é um ícone da luta pelos direitos igualitários das mulheres. Até mesmo o Homem-Aranha lida com mafiosos no poder – como o Rei do Crime – e participa de campanhas contra o bullying.

Campanha anti-bullying do Superman.

E isso se estende bastante para a ideologia de cada autor ou até mesmo de cada versão de um mesmo personagem – e vamos usar de novo o Capitão América como exemplo. Se suas histórias na Terra-616 são mais puxadas para um aspecto pacífico e liberal, a versão do herói no Universo Ultimate é muito mais conservadora e “de direita”.

E isso não quer dizer que um autor “de direita” não pode escrever personagens e histórias “de esquerda” e vice-versa. Basta pegar, por exemplo, Frank Miller, que já incorporou diversas ideologias em seus quadrinhos, mesmo sendo um autor “de direita”.

Outro ator que sempre polemiza na política é Alan Moore, e seus quadrinhos são mais que ricos em aspectos dessa natureza. Se em Watchmen vemos personagens conservadores como o Comediante e o Rorschach, a mesma HQ abre espaço para alguém que está pouco se lixando para as dinâmicas políticas da Terra – o Dr. Manhattan (o que, como dissemos anteriormente, não deixa de ser um posicionamento de cunho político).

Em sua longa obra, Moore já pôde expor vários pontos de vista sobre o mundo. Em V de Vingança, ele cria um personagem muito mais próximo de sua própria personalidade e posicionamento. V é um anarquista que enfrenta um governo totalitário de direita – algo que foi inspirado inclusive pelo avanço político do neoliberalismo propagado por Margaret Thatcher no Reino Unido.

Muitas vezes, um autor usa desses artifícios para criticar ou mesmo para “se por no lugar do outro”, enquanto desenvolve histórias que surgem incontestavelmente da base de suas próprias vivências e ideais – motivo pelo qual, por exemplo, Moore sempre escreveu o Rorschach de forma crítica, por mais que ele tenha se tornado o personagem mais popular e aclamado de Watchmen.

E é claro que esses elementos são dispostos em adaptações dos personagens para outras mídias, mesmo que passem por mudanças para se adequarem à narrativa (tanto fictícia quanto política) de seus autores. Se pensarmos, por exemplo, na adaptação de Zack Snyder para Watchmen, vemos que o diretor optou por um caminho diferente, mesmo que o filme copie diretamente quase todos os painéis da graphic novel.

V de Vingança: A prova de como até mesmo adaptações são sujeitas ao posicionamento político de seus criadores.

Se Moore é um crítico de super-heróis, Snyder os adora – e isso também é uma discussão política válida: “afinal, vigilantes são ou não aceitáveis em uma sociedade civilizada?” O mesmo vale, por exemplo, para V de Vingança e sua adaptação cinematográfica. Se a graphic novel era uma crítica à política do Reino Unido nos anos 80, o filme mira suas armas no governo norte-americano de George W. Bush no começo da década passada.

As próprias editoras sabem que seus personagens são de um apelo que vai além do entretenimento. Não é à toa que figuras como o Superman, o Pantera Negra, o Homem-Aranha e até mesmo o Hulk sejam usados em campanhas – algumas oficiais da Marvel e da DC em prol de questões sociopolíticas.

No caso da Marvel, podemos ver as coisas com ainda mais nitidez. A maior parte de seus personagens mais populares foi criada na década de 60, quando o mundo estava passando pela sombra da Guerra Fria. Na época, era comum ver personagens que enfrentavam os “russos malvados” e que lutavam em prol do “bom governo norte-americano”. Basta pegar o Homem de Ferro por exemplo – que por sua vez, ainda tem outra camada política em suas histórias por conta da questão do mercado armamentista e seu uso na sociedade.

Os X-Men merecem uma menção à parte. Os heróis não apenas foram criados no meio da Guerra Fria, mas também durante o período mais árduo da luta pela igualdade racial nos Estados Unidos. Stan Lee e Jack Kirby, criadores da equipe, assumidamente se inspiraram em grandes líderes do movimento negro, Martin Luther King e Malcolm X, para criar os grandes líderes do movimento mutante, Professor X e Magneto.

X-Men, o símbolo-mor da luta pela igualdade e pelo movimento pró-minorias.

E não parou por aí. Até hoje, os mutantes representam a luta por uma sociedade igualitária – motivo pelo qual eles foram tão abraçados por causas minoritárias, como feministas, o movimento LGBTQIA+ e até mesmo imigrantes.

Claro que isso são apenas aspectos de uma estrutura maior. No fundo, os quadrinhos não vivem apenas pela política – e tampouco são todos que abraçam seu lado politizado. No entanto, suas histórias são entremeadas por isso, seja pela mão do escritor ou pelos olhos de quem as lê.

Você até pode dizer que muitas questões – como feminismo, luta por minorias e etc. – são questões sociais, e não de ordem política. No entanto, a sociedade é governada por um conjunto de regras, e até mesmo esses elementos acabam esbarrando diretamente na política.

Não tem como produzir arte sem política. Essa palavra tão temida por muitos tem uma parte essencial nas relações humanas, no modo como pensamos o mundo ao nosso redor e o vivemos. É uma parte intrínseca de nós, mesmo quando não damos o braço a torcer para ela.

A ideia de que HQs podem ser produzidas dentro de uma “bolha” é simplória e não dá conta da nossa realidade, que é muito mais complexa. Podemos até nos desligar e nos alienar para sua presença, mas ela está lá, em elementos que você sequer imagina que possam ser ligados à política.

As HQs e política não apenas precisam se misturar, elas já fazem isso há anos. E até que tenhamos robôs completamente despidos de ideologias e noções acerca de sociedade que possuem tanto talento para escrever histórias quanto nós, reles humanos, é melhor você se acostumar com isso…

Na lista abaixo, relembre 10 vezes que as histórias em quadrinhos se envolveram com política:

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux