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[CRÍTICA] Morto Não Fala – Confissões no necrotério!

Por Gus Fiaux

Outubro é o mês das bruxas – o que significa que os cinemas logo vão ficar cheios de filmes de terror. E para começar essa época tão querida pelos fãs de horror, Morto Não Fala acaba de entrar em cartaz em salas selecionadas no Brasil.

O longa é uma história de terror 100% nacional, escrita e dirigida por Dennison Ramalho – um cineasta que já trabalhou em filmes como Encarnação do Demônio e O ABC da Morte 2. Nós conferimos o filme, e aqui você pode conferir nossa crítica!

Ficha Técnica

Título: Morto Não Fala

Direção: Dennison Ramalho

Roteiro: Cláudia Jovin e Dennison Ramalho

Ano: 2019

Data de lançamento: 10 de outubro (Brasil)

Duração: 110 minutos

Sinopse: Stênio, que trabalha no turno da noite em um necrotério, tem a capacidade de se comunicar com cadáveres que são levados a ele todas as noites.

O cinema nacional está passando por uma época de efervescência e metamorfose, isso é inegável. Filmes como Bacurau vieram para trazer uma nova luz para as produções brasileiras, e mostrar que o cinema nacional tem qualidade e, mais do que isso, variedade para todos os gêneros e gostos. Ainda assim, um gênero que ainda encontra algumas dificuldades para se estabelecer no Brasil é o horror.

Morto Não Fala não deixa a desejar. Trata-se  da nova produção de Dennison Ramalho, cineasta que já está na ativa há um bom tempo, e é responsável por curtas-metragens primorosos como Ninjas Amor Só de Mãe, que lidam com o profano e o grotesco em uma medida cheia de sangue, gore e violência.

Ramalho já se provou um grande mestre do horror moderno, tendo inclusive trabalhado com o icônico Zé do Caixão no encerramento da trilogia do personagem, Encarnação do Demônio. E no novo filme, ele busca se reinventar com uma trama mais “pé no chão”, que ainda assim não perde o interesse no fantástico e no horrendo.

A história do filme gira em torno de Stênio (Daniel de Oliveira), que trabalha em um necrotério. Já de início, assim que somos apresentados ao personagem, sabemos que ele conta com uma habilidade mais do que especial: ele é capaz de se comunicar com cadáveres, fornecendo a última conexão com a vida antes do mistério indomável do além.

Porém, sua vida é um completo caos. Apesar de seu dom especial com os mortos, a convivência em casa é difícil, principalmente com sua esposa Odete (Fabiula Nascimento), que o trai e está sempre irritada com seus modos e costumes. A relação com seus filhos é distante e, nos poucos momentos onde pode demonstrar seu afeto, é constantemente humilhado por Odete.

Tudo isso acaba gerando um ambiente extremamente desconfortável, e os atores mandam muito bem na construção de seus respectivos personagens. Daniel de Oliveira se sobressai com um personagem maduro, introspectivo e cheio de demônios internos – não muito diferente de seu papel no drama Aos Teus Olhos -, e acaba fazendo um ótimo trabalho ao se tornar um “anti-herói” de sua própria história. Já Fabiula Nascimento convence, desde a primeira cena, ser uma pessoa odiosa que, ainda assim, é refém de uma vida infeliz e miserável.

É difícil mergulhar mais adiante na trama de Morto Não Fala, especialmente porque as várias reviravoltas podem ser lidas como um spoiler. O que eu posso dizer, sem entregar muita coisa do roteiro, é que Stênio começa a ser assombrado pelo “fantasma” de uma pessoa que ele, voluntariamente, foi responsável pela morte. E a partir daí, as coisas tomam um rumo sinistro e violento.

Em suas várias camadas, o filme abraça vários subgêneros do horror. Há, é claro, a ideia de um filme de zumbis, presente em todas as cenas em que o protagonista conversa com os mortos. Por outro lado, há também uma nítida influência de histórias de fantasmas/casas mal-assombradas durante seu segundo ato. E conforme essa assombração se torna mais presente e passa a influenciar diretamente a vida de Stênio e dos outros à sua volta, podemos reconhecer claramente uma trama de possessão demoníaca, ainda que não ao pé da letra.

É justamente essa variedade de subgêneros – e a facilidade pela qual o filme transita entre eles – que torna Dennison Ramalho um diretor conhecedor do horror, que sabe a melhor hora de assustar ou simplesmente perturbar o público. Nas mãos de um cineasta menos experiente ou versado no gênero, o longa poderia parecer uma bagunça.

E por mais que esses gêneros sejam muito mais confluentes no cinema estrangeiro, nota-se uma incrível brasilidade na forma como o filme se desenvolve – e isso é visível em vários núcleos, seja nos diálogos do roteiro ou até mesmo em cenas que lidam com temas perturbadoramente nacionais, como o tráfico de drogas e as guerras de facções criminosas.

A parte técnica é quase impecável. O trabalho de maquiagem é sensacional, e o filme realmente alcança o melhor quando está operando com efeitos mais práticos – aliás, as cenas de gore se destacam por uma brutalidade inerente e por um senso de grotesco que está sempre pairando, direta ou indiretamente.

Por outro lado, quando o filme tenta usar efeitos visuais, as coisas desandam um pouco. Há um uso recorrente deles nas cenas em que Stênio conversa com os mortos. Embora crie um charme trash, característico de franquias como Evil Dead, é um efeito que, por conta de sua super-utilização, acaba tirando o público do filme, toda vez que o necropsista está dialogando com cadáveres.

Isso, evidentemente, é aliviado pelo roteiro, que trata a “habilidade” sinistra de Stênio com total naturalidade. Nunca nos questionamos o porquê dele se comunicar com o além, e isso tampouco é explicado ao longo do filme, o que cria um enigma instigante e já quebra as normas da naturalidade de uma forma surpreendentemente natural.

Todo o desenrolar do filme é poderoso e ágil. Não há como negar, no entanto, que há uma pequena barriga entre um grande ponto de virada – a morte provocada por Stênio – e o começo das aparições sobrenaturais. O filme até tenta usar disso para abordar mais a tensão familiar, mas acaba falhando um pouco e gerando momentos um pouco arrastados.

Por outro lado, todo o restante é brutal e, além de entregar uma excepcional história de horror, também aprsenta um estudo de personagem louvável, especialmente em um gênero onde o desenvolvimento é deixado de lado em detrimento aos sustos baratos. Aliás, diga-se de passagem, o filme evita ao máximo o uso do jump scare, o que torna os poucos que existem excepcionalmente potentes.

No geral, é um filme realmente surpreendente no que se propõe, provando que Dennison Ramalho é um cineasta muito competente em seu trabalho. E por mais que o longa esteja passando um pouco despercebido no Brasil, por conta da divulgação (ou melhor, pela ausência desta), o filme está sendo bem recebido na gringa, sendo inclusive lançado exclusivamente pelo serviço de streaming norte-americano Shudder, especializado em produções de horror e suspense.

É a prova de que, por mais que não receba muito valor dentro de sua própria casa, o cinema de horror nacional conquista quem o assiste lá fora, um sinal de que o preconceito cultural que nos abala é mais um dos vários sintomas da síndrome de vira-lata que afeta o país.

E no caso de Morto Não Fala, podemos notar vários paralelos com o cinema de Zé do Caixão – que também encontrou mais reconhecimento lá fora do que aqui dentro -, especialmente suas primeiras obras, como À Meia-Noite Levarei Sua Alma e Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver. Uma comparação desse nível, com o maior mestre do horror brasileiro, é o maior elogio que posso tecer ao filme.

Na lista a seguir, veja mais 10 ótimos filmes de terror nacional:

Morto Não Fala está em cartaz nos cinemas.

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux