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[CRÍTICA] Esquadrão 6 é Michael Bay solto da coleira 

Por Lucas Rafael

Michael Bay é o diretor favorito do meu pai, embora ele não saiba, já que ele não se interessa por cinema em geral. O filme favorito dele (meu pai) é o primeiro Transformers, mas ele curte todos os outros longas da franquia. Ontem (14), botei Esquadrão 6, novo filme de Bay para a Netflix e assisti junto dele. Ele amou. 

Em uma noite qualquer, eu passei pela sala e meu pai estava sentado com um potão de sorvete assistindo TV. Ele olhou pra mim com olhos arregalados e disse que desde o último Transformers não via um filme tão bom. Olhei para a TV e ele assistia 13 Horas: Os Soldados Secretos de Benghazi, outro longa de Michael Bay.  

Curiosamente, o tom de Esquadrão 6 é o casamento entre o absurdismo de Transformers e o militarismo heroico de 13 Horas

Meu pai é o tipo de pessoa para a qual as franquias Transformers e Velozes & Furiosos foram feitas. Ele dormiu assistindo Ultimato na sala de cinema e não entende Harry Potter. Não é por ignorância, longe disso. Meu pai simplesmente não se interessa por essas coisas de magia ou super-heróis. 

Meu pai gosta de carros, algo pelo qual eu nunca nutri muito interesse. Então, quando Esquadrão 6 abre com um Alfa Romeo verde fazendo curvas fechadas nas praças de Florença, na Itália, o filme tem a atenção imediata dele.  

Ele odeia cinema de arte, meu pai. É o tipo de pessoa que considera tortura ter de assistir O Irlandês sem tirar uma cochiladinha a cada 15 minutos. Se for pra ver gente branca velha falando de política ele vai pro bingo da igreja local. Ele não quer filmes elegíacos sobre culpa ou a inevitabilidade da morte. Cinema para ele precisa ser espetáculo

Os filmes de Michael Bay, e Esquadrão 6 não é exceção, são projetos de uma edição-visual frenética, com muito metal retorcido e carros caros sofrendo danos severos (situação que sempre faz meu pai soltar sonoros “nuss, bateram um Gallardo/Alfa Romeo/insira marca de carro de grife” enquanto assiste ao filme).  Cada frame é estilizado e serve como anzol para os sentidos, e a coisa toda acaba lembrando mais um videoclipe do que um filme em si.

 

Um dia comum nos bastidores de Esquadrão 6

 

Os filmes do diretor também não sabem tratar direito suas personagens femininas e possuem um tom ufanista ingênuo e preocupante. Eu gostaria muito mais dos filmes de Bay não fosse a constante exaltação à bandeira americana e à figura do militar. Meu pai não liga para preocupações modernas. Ele cresceu vendo Rambo e filmes do Chuck Norris. É por isso que Esquadrão 6 dialoga tão intimamente com ele. 

Esquadrão 6 mostra o diretor Michael Bay livre leve e solto. Aqui, a narrativa e personagens servem como mera desculpa para estraçalhar veículos, gente ser empalada por metal, sangue jorrar e pessoas fazerem parkour ao som de dubstep. 

Existem femme fatales em Esquadrão 6, mulheres lindas que parecem transformar o ato de apertar o gatilho de armas com coronhas peroladas em um manifesto sexual. 

O vilão é um ditador maligno que quer explodir escolas e hospitais. Os heróis são americanos se metendo em política internacional, movidos por uma bússola moral duvidosa regulada pelo maniqueísmo impresso no roteiro do filme. É uma versão +18 de um desenho animado no estilo de Comandos Em Ação.

A trama mostra o personagem de Ryan Reynolds, conhecido como Número 1, sendo um bilionário que finge a própria morte para então fingir a morte de outras pessoas com habilidades específicas para que, juntos, eles possam tomar o rumo do mundo nas mãos, eliminando tudo e todos que julgarem de caráter vil. 

É tão ingênuo que chega a ser bonitinha, essa trama, não fosse rasa feito um pires. Os heróis americanos tomando as dores do mundo. Elon Musk fingindo a própria morte para matar ditadores do Oriente Médio. 

Agora, o que Esquadrão 6 tem de estúpido ele tem de insano. Soltaram o Michael Bay da coleira. Deram milhões na mão do cara e falaram faz aí o que tu faz de melhor.  O resultado é um dos filmes mais malucos do cineasta em termos de ação prática desde Bad Boys II. O resultado é uma perseguição insana de 18 minutos que abre o filme. O resultado é uma obra na qual cada frame foi projetado para prender sua atenção, um longa que quer se sujar de todas as maneiras possíveis na proposta do próprio caos.

É o primeiro filme em tempos que assisto no qual os figurantes se dão muito mal. Sério, é tanta gente inocente morrendo por estar na hora errada e no lugar errado. Cada morte que o filme mostra vem acompanhada de um plano-detalhe que quer esfregar na sua cara um cadáver desmantelado pelo impacto com carros, explosões, balas, vidro ou seja lá o que Michael Bay tenha explodido dentro do set naquele momento.

 

 

Eu não consigo dizer que Bay é um diretor ruim, como ditam muitos críticos de cinema por aí. Esquadrão 6 é a prova de que ele sabe muito, muito bem o que está fazendo. Quando o ato final do filme chega e o cineasta emprega um efeito especial que visa torturar o máximo de figurantes malignos possíveis, dá pra imaginar ele comandando o set com um sorriso de orelha-a-orelha estampado na cara. 

Olha, o que eu quero dizer é que Esquadrão 6 é ideologicamente estúpido e ingênuo e, dependendo da sua sensibilidade, até mesmo ofensivo. Ao mesmo tempo é absurdamente divertido. É um filme feito para o meu pai e para pessoas que em pleno 2019 acham complicado ter de sentar no sofá e prestar atenção em uma tela por mais de uma hora. É o futuro do cinema: espetáculo puro que usa trama, diálogo e personagens apenas como bonecos de plástico numa maquete programada para explodir. É o cinema cuja semente James Cameron plantou lá atrás no segundo Exterminador do Futuro. É o puro caos cartunizado com cheiro de cordite. Michael Bay é o diretor do futuro, para o bem ou para o mal. 

Que esse filme tenha acabado indo diretamente para a Netflix é algo que me confunde. É o tipo de besteira límpida, alta, caótica e vistosa que merecia uma tela Imax. 

Talvez o filme seja longo demais e abuse da sua paciência como espectador em suas duas horas de duração. Esquadrão 6 é o tipo de coisa que jamais deveria ser assistida por pessoas que sofrem de enxaqueca ou epilepsia. De 15 em 15 minutos algo frenético acontece. Quando sobem os créditos, você se sente fatigado por tanto dubstep, explosão, corpos desmantelados e metal retorcido. O que sobra são os fatos: ame ou odeie, ninguém faz o que Michael Bay faz igual ele próprio.

A nota de Esquadrão 6 é 3,5 explosões de 5.

Ficha Técnica

Título: Esquadrão 6 (6 Underground)

 

Direção: Michael Bay

 

Roteiro: Rhett Reese, Paul Wernick

 

Ano: 2019

 

Data de lançamento: 13 de dezembro (mundial)

 

Duração: 02 horas e 07 minutos

 

E já que Esquadrão 6 é um filme Netflix, fique com nossa lista:

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sobre o autor Lucas Rafael

Redator. Entusiasta de coisas demais