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Não, não adianta criar um personagem novo

Por Leo Gravena

Alguns dias atrás foi revelado que a atriz e cantora Zendaya pode interpretar a Princesa Ariel em um filme em live action da Disney. A reação na internet só não foi tão ruim quanto quando foi dito que a atriz também poderia interpretar Mary Jane em Homem-Aranha: De Volta ao Lar. Além dos comentários ofensivos, racistas ou simplesmente estúpidos que podem ser vistos em qualquer publicação que deu a notícia, tivemos o clássico “por que não criam um personagem novo?”.

O argumento vêm sendo utilizado cada vez mais pelos fãs de filmes, séries e quadrinhos quando algum personagem clássico recebe uma nova característica da qual eles não concordam. Mas, até que ele faz sentido, não é? Afinal, qual o sentido de pegar um personagem já estabelecido de certa maneira e mudar ele para que sua etnia, gênero ou identidade sexual sejam diferentes da original se o escritor ou roteirista não pode, simplesmente, criar um personagem novo?

Bem, aqui vai uma pequena história: em 2012 o escritor Brian Michael Bendis, que na época escrevia os quadrinhos dos X-Men, criou um personagem gay chamado Benjamin Deeds, que possui a habilidade de alterar sua aparência e liberar feromônios que fazem com que as pessoas gostem e confiem nele, o personagem até que se tornou popular, mas logo acabou caindo no esquecimento em meio a tantos personagens que estavam surgindo, retornando e ganhando mais espaço.Em novembro de 2015, Bendis, após algum tempo desenvolvendo a trama, trouxe uma grande mudança para o Homem de Gelo e, ao fazer o personagem se assumir homossexual, tornou ele o super-herói gay mais conhecido de todo o mundo.

Enquanto Deeds caiu no limbo editorial, Bobby Drake, o mutante original com poderes de gelo, ganhou uma nova revista solo, está sempre nas principais revistas da equipe e participa ativamente de várias tramas importantes dos mutantes.

Homem de Gelo se assumindo gay em Fabulosos X-Men #600

Boa parte dos grandes personagens das histórias em quadrinhos foram criados entre os anos 60 e 70 (alguns nos anos 80, mas a partir daí as coisas começam a ficar mais estreitas) e, querendo ou não, o padrão para a criação de personagens fictícios nessa época era bem definida: personagens brancos, loiros ou ruivos, esbeltos e com porte atlético, todos heterossexuais. Isso não significa que pessoas negras, asiáticas, gordas, gays, lésbicas, bissexuais ou trans não existissem, apenas que os escritores, desenhistas e editores estavam reproduzindo sua visão de mundo e coisas as quais conheciam nas histórias em quadrinhos.

Em setembro de 2016, Stan Lee falou sobre a possibilidade de Zendaya interpretar Mary Jane Watson, ao falar sobre o assunto ele disse: “Gostaria de ter pensado nisso”, referindo-se à etnia da personagem. Em 1965, quando a personagem foi criada, existiam pouquíssimas personagens negras nos quadrinhos (a heroína Misty Knight, por exemplo, foi criada apenas dez anos depois) e menos ainda quando se falava de interesses românticos negros. Ao fazer de Mary Jane Watson uma moça ruiva, Stan Lee estava apenas seguindo os padrões utilizados na época. Padrões estes que mudaram hoje.

Os valores, histórias e características dos mais diversos personagens não continuam os mesmos desde 1965, por que a etnia, gênero e sexualidade deles também deveria?

Nick Fury interpretado por David Hasselhoff e por Samuel L. Jackson

 

As mudanças propostas para estes personagens, na maior parte das vezes, servem para atualizar e trazê-los para mais próximo do público atual. O Nick Fury de Samuel L. Jackson é muito mais relacionável e adorado nos cinemas do que o de David Hasselhoff jamais sonhou em ser e, mesmo tendo precedentes de um Nick Fury negro nos quadrinhos Ultimate (e logo após também no universo 616 da Marvel), ainda assim, várias pessoas pediram – algumas ainda pedem – pelo “verdadeiro Nick Fury” nos filmes. Elas não estão pedindo o Nick Fury que é um louco egocêntrico e sacana, mas sim o Fury que é branco.

Criar um novo raramente vai fazê-lo atingir o sucesso ou sequer apareça em mais de três histórias antes de ir para o “limbo editorial” dos heróis e vilões fracassados e esquecíveis – salvo raras exceções, como a Ms. Marvel Kamala Khan. Os heróis clássicos e antigos vão continuar tendo mais destaque, fama, importância e, principalmente, um nome reconhecível.

Mas mesmo quando novos personagens são criados, as “boas pessoas” que leem quadrinhos e gostam de seus heróis da forma que eles eram nos anos 60 ainda vão reclamar.

Pouco tempo atrás tivemos “passagens de manto” nas quais os personagens originais não sofreram nenhuma mudança, apenas deram espaço para novos nomes: Riri Williams (a Ironheart), Tanya Spears (a nova Poderosa) e Jane Foster (a Poderosa Thor), ainda assim,  diversos leitores reclamaram do espaço dado à diversidade. Novos personagens foram criados, os outros ainda estavam lá e existiam.

Zendaya como Ariel, em arte do Bosslogic

A verdade é que boa parte dessas pessoas não querem absolutamente nenhum tipo de mudança. Se as histórias continuassem as mesmas de 1965, elas estariam felizes. Os motivos para isso… Bem, deixo isso para que elas tentem se defender, ou que você leitor, tente adivinhar.

Mas no fim, temos que lembrar, eles não estão ganhando. São apenas crianças gritando o mais alto que podem para que tudo continue o mesmo. Preconceito, racismo, homofobia e todos os outros sentimentos que andam juntos, nesse caso, vêm do medo de que este “porto seguro” – que são as histórias clássicas dos heróis – mudem. Mas para eles, eu digo: elas ainda estão lá, mas agora é a outro momento, outra hora… Já estava na hora de diversificar.

Algum tempo atrás, o site Preta, Nerd e Burning Hell fez um breve texto dizendo como a escolha de Candice Patton para interpretar Iris West, uma personagem branca e ruiva nos quadrinhos, permitiu que pensássemos na possibilidade de uma Mary Jane negra, (e agora, uma Ariel). A escolha de Patton para interpretar a personagem definitivamente abriu portas e mesmo com o grande ódio que a personagem ainda recebe, a sua importância dentro da série é inegável, com a atriz se tornando uma representação tão icônica quanto o Flash de Grant Gustin.

Iris West foi criada nos quadrinhos em 1956 (nove anos antes de Mary Jane Watson) representando o padrão de personagens que eram criados na época. Assim como Nick Fury, Capitão América, Batman, Superman, Homem de Gelo, ela era apenas um reflexo das histórias populares deste momento específico.

E se hoje podemos parar e imaginar uma Mary Jane Watson, uma Princesa Ariel e outras personagens importantes como mulheres diversas, isso se deve muito à atriz e a sua escolha. Antes dela, os fãs sequer imaginavam a possibilidade de que Íris poderia ser interpretada por uma mulher negra, agora, além de Patton, Kiersey Clemons, também negra, dará vida à personagem nos cinemas.

Iris West nos quadrinhos no meio; Na esquerda, Kiersey Clemons; na direita, Candice Patton

Novamente, isso é um reflexo da sociedade na qual vivemos hoje. Se no filme do Doutor Estranho vimos a Anciã, ao invés de “o Ancião” como nos quadrinhos, é porque agora podemos imaginar uma mulher com grandes poderes místicos e treinamento em artes marciais, em 1963, quando o personagem foi criado, dificilmente você veria uma mulher nessa posição. O mesmo pode ser aplicado à Questão, criado em 1967 a figura, com suas características únicas, jamais seria imaginado como uma mulher, ainda assim, hoje temos Renee Montoya portando o manto do herói.

É muito fácil dizer que “deveriam criar um personagem novo”, mas é mais complicado parar e analisar porque essas mudanças estão sendo feitas nos clássicos.

A verdade, mais pura e simples é que: um personagem novo jamais vai conseguir ter o alcance que um herói clássico possui. Obviamente, heróis novos e diversos devem ser criados, porém, ao atualizar essas histórias, é importante lembrar que estamos em 2018, não 1960. Os costumes são diferentes e a maneira como vemos pessoas e culturas também mudou, dessa forma, esses personagens devem mudar também.

As histórias antigas sempre estarão lá para os saudosistas, mas as novas, elas pertencem ao agora. A diversidade sempre existiu, mas hoje temos a possibilidade de ver ela sempre representada em todos os locais e isso, definitivamente, é algo bom.

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