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Mulher-Maravilha não é um filme apenas para garotinhas!

Por Cristiano Rantin

Mulher-Maravilha é um ícone atemporal e não tem como discutirmos isso. A personagem que surgiu em 1941, e passou por diversas versões, é hoje uma das maiores heroínas de todos os tempos, compondo, inclusive, a trindade de personagens mais poderosos e populares da DC Comics.

Com a chegada do filme dirigido por Patty Jenkins e estrelado por Gal Gadot, a maioria das pessoas conseguiu ver o poder e capacidade de Diana. Sendo o primeiro filme solo com uma heroína como protagonista desta nova era de filmes de super-heróis, e o primeiro filme do gênero a ser dirigido por uma mulher, Mulher-Maravilha foi aclamada pela crítica e chegou a quebrar recordes de bilheteria.

Mas polêmicas também cercaram o filme, especialmente por causa da sessão feita só para mulheres que aconteceu na semana passada. Ainda que isso não seja o foco deste texto, é importante dizer algumas coisas:

Mulher-Maravilha é um símbolo de empoderamento feminino (e sim, eu sei que a maioria de você não gosta de ouvir essa palavra) e sua chegada nos cinemas é por si só um marco importante as mulheres.

Ele chega trazendo um ícone feminino forte que não é sexualizada em excesso ou ofuscada pelos homens nas cenas de luta. Pelo contrário, Diana é a heroína do filme e mostra que é tão capaz de salvar o dia quanto qualquer outro herói.

A personagem chega como uma boa referência de representatividade para que garotas de todas as idades possam crescer vendo o poder e capacidade de uma mulher nos cinemas, sem ser reduzida ao papel de donzela indefesa ou simplesmente par romântico do herói.

Mas ainda que seja importante para que jovens mulheres, Mulher-Maravilha não é um filme apenas para elas. Pelo contrário, toda uma geração de mulheres podem se identificar e aproveitar do filme – os homens também, é claro.

Vamos utilizar minha mãe como exemplo. Desde que nos aproximamos da data de estreia do filme, eu não parava de falar sobre Diana e todas as últimas notícias que saiam sobre a produção.

Foi nessas conversas que ela me contou que achava muito interessante o fato de que eu estava empolgado para assistir esse filme – e que tinha tanto carinho pela personagem – uma vez que ela cresceu assistindo a série da Mulher-Maravilha.

Ela se referia, é claro ao clássico seriado da heroína, estrelada por Lynda Carter e que foi ao ar de 1975 até 1979. Além de ser uma boa série para a época, ela foi a responsável por perpetuar diversas referências no imaginário coletivo quando falamos de Diana Prince, como o rodopio da atriz para “invocar” o seu uniforme e se transformar na heroína.

Depois de tanta espera, o filme finalmente chegou e decidi levar meus pais para assisti-lo no fim de semana – para que eles também pudessem contemplar essa maravilha.

Aqui é importante dar um contexto rápido. Sempre que possível vamos para o cinema juntos. Em diversas ocasiões já tentei arrastar os dois para ver filmes de super-heróis como Vingadores, Guardiões da Galáxia ou X-Men, mas nunca tive sucesso. Na maioria das vezes ficamos com algum outro filme de ação ou comédia que nunca gera uma reação muito acalorada ou animada nos dois.

Com Mulher-Maravilha as coisas foram diferentes.

Pra começar, esse era um filme que minha mãe realmente queria assistir – o que podia ser visto pela maneira como ela, literalmente, nos arrastou para que entrássemos logo na sala em busca de nossas poltronas.

Ao longo de todo o filme eu ficava virando para o lado para “ler” a reação dela sobre o filme e sempre a encontrava sorrindo, tensa ou emocionada com as cenas que se desenrolavam na nossa frente.

Vez ou outra, especialmente quando vemos mais detalhes da ilha de Temiscira e suas amazonas, ela se inclinava para sussurrar ao meu ouvido que tudo estava lindo e como a paisagem era de tirar o fôlego. A melhor reação dela veio durante as cenas na Terra de Ninguém.

Como o Léo Gravena ou o Márcio Jangarélli podem confirmar, eu tenho a mania de apertar ou dar tapinhas no braço de quem está sentado do meu lado quando eu fico MUITO empolgado com alguma coisa no filme. Até o último domingo eu não sabia que isso era um traço hereditário.

No momento em nos preparamos para ver pela primeira vez o uniforme completo da Mulher-Maravilha, minha mãe agarrou meu braço, toda animada e com um sorriso que ia de orelha a orelha. Ouvi ela dizendo “é agora”, falando mais consigo mesma do que comigo. E então, do começo daquela sequência bombástica até o fim, minha mãe ficou me dando pequenos apertões no braço, finalizando com um sussurro: “Ela é incrível!”.

Quando o filme acabou, meus pais estavam extasiados com o que tinham visto. Minha mãe foi a primeira a declarar que aquele era o melhor filme do ano, na opinião dela – algo que ela reiterou no facebook horas depois – enquanto meu pai ficou apaixonado pela pureza e força da heroína.

Assisti por vários instantes os dois conversando sobre o filme, comparando com a série de Lynda Carter e comentando sobre quais cenas eles mais haviam gostado. Algum tempo depois, quando fiquei sozinho com minha mãe, ela continuou a falar sobre Mulher-Maravilha, me perguntando sobre sua versão nos quadrinhos, o futuro da personagem nos filmes e como tinha sido a recepção pela crítica.

Foi ali que eu vi que mesmo sendo um gênero mais associado ao público jovem, os filmes de super-herói conseguem se relacionar muito bem com outras gerações. Meus pais cresceram vendo a série com Lynda Carter e minha mãe sempre teve Diana como sua heroína favorita. E eu só posso imaginar como foi incrível para ela ver a nova versão, mais moderna, mais cara e melhor produzida da personagem que ela assistiu na TV quando jovem.

Assim, ainda que Mulher-Maravilha seja de extrema importância para as novas gerações, é impossível reduzir seu impacto apenas para uma faixa etária. Mesmo que minha mãe não esteja em um “período de formação” de opiniões e personalidade, ter um filme como o da Amazona é importante para ela.

Importante por fazer com que ela se sinta representada nessa heroína incrível que é bem desenvolvida e que tem destaque na trama – diferente de boa parte dos papéis dedicados para as mulheres nas grandes produções, pois ainda que tenhamos mulheres incríveis nos filmes de herói e que mais recentemente elas conseguiram ganhar mais destaque e importância na trama, ainda vemos elas sendo reduzidas apenas ao par romântico do herói.

Importante para mostrar que existem mulheres fortes que salvam o dia – algo que ela já sabia, ainda mais quando se leva em conta sua própria vida como base de “mulher forte”, mas que é sempre bom lembrar.

Importante por não ter uma representação hiper-sexualizada da heroína no filme, sem filmagens duvidosas que só servem para mostrar o corpo da atriz, sem fazer sentido com o restante da cena. Algo inclusive que ela chegou a elogiar quando saíamos do cinema.

Importante por mostrar mulheres de todos os tipos físicos e idades na ilha paraíso, sem escolher um grupo de modelos com a beleza típica que vemos nos filmes para viver guerreiras que, como retratado em Mulher-Maravilha, podem ser altas, baixas, mais novas, mais velhas, magras, fortes…

Importante por mostrar um relacionamento saudável entre um par romântico, de um jeito que é incrivelmente raro de se ver nos cinemas. Com Steve Trevor e Diana se respeitando, reconhecendo as habilidades e opiniões um do outro e trabalhando em total sintonia e parceria sem que ele – a parte mais vulnerável do “casal”, fosse o donzelo indefeso que precisa de cuidado constante.

Minha mãe talvez soubesse de tudo isso antes, mas não dá pra negar o quão belo é vermos isso nas telonas e nos sentimos representados de uma forma ou de outra com os personagens dos filmes.

Portanto, ela também precisa desses ícones e mais do que isso, ela realmente gostou do que foi mostrado ali. Logo, talvez seja a hora de pararmos de achar que os heróis e heroínas que tanto amamos não terão impacto algum para as pessoas de uma geração mais velha.

Talvez seja a hora de levarmos nossas mães – e toda nossa família – para ver Mulher-Maravilha e receber a mensagem positiva de tudo que Diana representa.

Veja também a nossa crítica do filme, escrita pelo Gustavo Fiaux e a nossa galeria com as últimas imagens divulgadas de Mulher-Maravilha: 

Mulher-Maravilha está em cartaz nos cinemas.

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sobre o autor Cristiano Rantin

Jornalista • Mestrando em Comunicação Social pela UEL • Bruxo • Twitter: @ChrisRantin • "Eu sou o fogo e a vida encarnados. Agora e para sempre eu sou a Fênix!"