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Deuses Americanos 1.08 – Jesus Cristos!

Por Lucas Rafael

Atenção: Alerta de Spoilers!

Eu acredito em café. Preto, sem açúcar, feito em cafeteiras simples com um pouco mais de pó do que deveria, fazendo com que você o sinta enquanto bebe e que ele acumule no fundo da xícara. Acredito no tempo, porque ele passa e eu sinto, queria que ele não passasse tão rápido e fosse mais devagar, tenho medo dos ponteiros do relógio e dos números no canto inferior direito da tela do meu computador. Eu acredito na internet, louvo minha conexão wi-fi, sem ela fico impossibilitado de trabalhar, interagir socialmente, consumir conteúdo, sou dependente dela e aprecio quando ela funciona.

Quando o gole de café quente me desperta e sacode o torpor da sonolência eu fecho os olhos em agradecimento. Quando eu faço muita coisa e só se passam 15 minutos eu dou um sorriso, quando a internet baixa as coisas rapidamente se mantendo estável eu comemoro. Em algum lugar deve existir o deus da cafeína agradecendo minha satisfação silenciosa, alguma entidade internética saltita de felicidade quando minha oferenda é feita na forma de um boleto pago pelo meu celular e o deus do tempo volta a acelerar as coisas para que eu implore para frear tudo de novo. Deuses Americanos botou esse tipo de coisa na minha cabeça.

Deuses são reais se acredita neles.

Foi uma grande viagem assistir essa primeira temporada do seriado da Starz baseado na obra de Neil Gaiman, mas mesmo agora com esse último episódio, não tenho a sensação que tivemos um desfecho, que algo foi concluído, pelo contrário, “Come to Jesus” representa mais um começo do que um fim; um pontapé inicial do que um grande final.

O episódio tem início com o excelente Sr. Nancy (Orlando Jones) contando a trajetória de Bilquis (Yetide Badaki). Se no livro de Gaiman a deusa do amor era um fiapo narrativo chocante, na série sua trama é expandida para propósitos maiores, como a maioria dos personagens do livro. A adaptação remixa conceitos da obra e os dá um lugar maior no esquema das coisas, respeitando a essência do material original. Os fãs agradecem, o público recém-chegado é cativado, missão cumprida, parabéns aos envolvidos. Ao final da história de Nancy, Shadow e Wednesday vão procurar sua rainha.

É Páscoa nesse último episódio de Deuses Americanos, e assim conhecemos Ostara, deusa da festa pagã que ocorria na mesma data que o renascimento de Jesus Cristo, este que acabou deturpando a data pagã e ganhando as preces para ele. Ostara ainda ganha um pouco de poder graças ao nome da data, no entanto. Mas vamos falar sobre Jesus.

Tem Jesus pra mais de metro nesse episódio. Já vimos um Jesus hispânico em uma das aberturas da série, mas aqui a coisa escala, diversas representações da figura cristã inundam a festa da Páscoa, alguns adornados de elementos religiosos típicos de certas religiões, outros mais familiares e alguns, nem tanto, e por algum motivo, segundo Ostara, um deles tem um bebê Dinossauro. Quando isso é mencionado no episódio lembrei daquela imagem que circula na internet de Jesus e um Velociraptor. Perguntei-me se aquilo foi uma referência à essa imagem. Crianças acharam ela navegando por aí e construíram na cabeça um versão meme de Jesus que virou realidade, da pra imaginar até uma abertura da série assim. Deuses Americanos opera sobre essas regras interpretativas, já falei disso na análise do sexto episódio.

Mene criado a partir da obra The Lost Lamb, de Del Parson

A Easter (Páscoa) de Kristen Chenoweth também é fantástica, cativando graças à sua meiguice, mas mostrando-se firme o suficiente de suas convicções para trilhar o caminho que quiser. A personagem se vê dividida entre a aliança proposta pelo ardiloso Wednesday (McShane, fantástico como sempre) seguido pelo seu fiel Shadow (Ricky Whittle) e seu pacto com os Deuses Modernos, onde a personagem se sente mal representada pela Mídia de Gillian Anderson (sempre que ela aparece eu me divirto tentando descobrir que personagem ela emula).

Tivemos muitas entidades sendo introduzidas ao longo dessa temporada, e elas culminam nesse episódio, com uma grande quantia de personagens se reunindo, frente a frente para resolverem as coisas. Wednesday se revela como Odin, finalmente, eletrocutando os capangas dos deuses modernos em um sacrifício a Ostara. Prontamente, a deusa drena a beleza da primavera. As pessoas vão ter que orar por isso, essa é a moeda da troca, uma barganha simples como o próprio Wednesday explica. Dê um pouco, receba um pouco. Foi aí que me ocorreu o pensamento da gente estar a mercê dessas coisas. O planeta é um lugar gigante, será que é tudo regido mesmo pela ciência? Santo Odin, Jesus morreu mesmo na Cruz?

Deuses Americanos ofereceu uma viagem visualmente estonteante pelo poder da crença, com pitadas ácidas de críticas socais e atuações incríveis. Tem muita gente falando por aí que é a nova Game of Thrones, mas a gente não precisa disso. Game of Thrones já existe, deixa ela lá. Acredite em Deuses Americanos.

O episódio termina com os personagens se confrontando num pátio, onde Laura finalmente reencontra Shadow e topa com Wednesday ao lado de Mad Sweeney (Pablo Schreiber). Quando o primeiro arrepio subiu minha espinha, a série cortou para a conclusão de Bilquis, junto de algumas referências do livro indicativas de onde a segunda temporada vai e, sem mais nem menos, os créditos subiram. Questionei minhas crenças. Eu acredito que Deuses Americanos é uma baita série e, Shadow finalmente acredita em Deuses. O conflito finalmente está instalado e agora é guerra. Que dizer, ano que vem vai ser guerra, quando a série voltar. Rezem pro tempo passar rápido.

São 2:50 da manhã enquanto eu dou mais um gole no café. Se passaram 40 minutos desde que eu comecei a escrever esse texto, achei que tinham sido mais. Consegui subir ele na LH sem problemas já que minha wi-fi colaborou. Amém e até ano que vem.

Confira nossa galeria da série:

O oitavo episódio de Deuses Americanos está disponível para stream pela Amazon Prime.

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sobre o autor Lucas Rafael

Redator. Entusiasta de coisas demais