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[Crítica] Polar – Nem Mads Mikkelsen Salva!

Por Lucas Rafael

Mads Mikkelsen estreia em Polar, mais um filme sobre um assassino que deseja largar a profissão mas acaba sendo arrastado de volta aos horrores sórdidos de seu ofício por pessoas que não querem deixá-lo em paz.

Entre tantas bombas e filmes de qualidade sendo oferecidos no menu da Netflix, qual o gosto de Polar? Descubra lendo a crítica!

Spoiler: o gosto é frio. Entenderam? Frio, Polar, comida fria geralmente é ruim. A não ser que sejam sobremesas. Polar não é bem um sorvete ou algo do tipo. Pense em ter de comer um prato de feijão gelado. É por aí.

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Ficha Técnica

Título: Polar

Ano: 2019

Data de lançamento: 25 de janeiro

Direção: Jonas Akerlund

Duração: 119 minutos

Sinopse: Um assassino profissional (Mads Mikkelsen) tenta se aposentar em um recôndito idílico, mas a natureza violenta de sua profissão não vai deixar.

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Cerca de 15 minutos Polar adentro, o filme apresenta todas suas facetas. A introdução, com fotografia saturada e gritante para denunciar os excessos da obra, mostra um personagem vivido pelo ex-JackAss Johnny Knoxville ingerindo viagra enquanto se prepara para transar com uma garota em roupas curtíssimas. Ele é brutalmente assassinado e deixado para sangrar enquanto uma ereção desponta no meio de seu shorts. É com esse tipo de humor e tonalidade que estamos lidando em Polar.

Se o humor vulgar das obras de Michael Bay apela para você, fico feliz em afirmar que Polar é possivelmente seu filme favorito de 2019.

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A trama mostra o assassino Duncan, conhecido como Kaiser Negro, tentando se aposentar para relaxar. Duncan é a graça salvadora de Polar justamente por ser um dos personagens mais relacionáveis do filme. Se você já iniciou uma jornada trabalhística na vida, sabe que eventualmente os anos começam a pesar e você passa a calcular sua aposentadoria em algum lugarzinho pacato, planejando sua vida em torno de dias preguiçosos, cafés quentes e um pôr do sol tranquilo. Esse tipo de cara é nosso Duncan, vivido por Mads Mikkelsen, o mesmo ator de Hannibal. Ele só quer que ninguém encha o saco dele, mas o mundo é um lugar chato por natureza.

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Esquemas monetários são revelados e eventualmente, nosso querido Duncan está sendo caçado pelo grupo de assassinos perfidiosos que conhecemos no início de Polar.

A comparação com John Wick vem facilmente. São dois filmes sobre assassinos fodões interpretados por atores carismáticos cujos personagens só querem ficar no cantinho deles. Mas, se tem uma coisa que pessoas em geral não deixam é alguém ficar quieto em seu cantinho. Os caras maus fazem algo muito provocativo aos nossos protagonistas, algo que os arrasta de volta ao jogo sanguinário do qual estão buscando fugir. Em John Wick mataram o cachorro do Keanu Reeves. Aqui (spoilers) eles sequestram Vanessa Hudgens, a garota do High School Musical.

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A comparação estética com John Wick também é válida, visto que a identidade visual de Polar busca emular aquela swag que temos na montagem de John Wick, falhando devidos aos seus exageros estilísticos.

Quem tá de parabéns mesmo são os responsáveis pelas locações. Polar é ambientado em alguns lugares muito bonitos. Pena que o que se passa nestes lugares bonitos não é lá muito empolgante.

Como um fã dos filmes de John Wick, eu torcia para termos uma cópia daquilo com Mads Mikkelsen tocando o espetáculo ao invés de Reeves. Não me importa o quão derivativo isso seria, eu teria ali um filme que apelaria para minhas sensibilidades pessoais em termos de cinema de ação, e ficaria feliz em escrever uma análise positiva sobre Polar. Mas o diretor Jonas Akerlund se esforçou em fazer um filme que, embora ecoe John Wick, não consegue acertar jamais os mesmos acordes catárticos. E o motivo disso é simples.

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Filmes de ação como Operação Invasão, John Wick e Kill Bill são como valsas sanguinárias do mais puro heavy metal. São performances artísticas ensaiadas e que requerem proeminência física ímpar para serem executadas e dialogarem com a câmera, que por sua vez registra aquelas ações de uma maneira cinética pra gente curtir enquanto tenta tirar o milho da pipoca preso entre os dentes usando a língua. Em outras palavras, as cenas de ação destes filmes são fodas.

Polar não está interessado, exatamente, na intensidade da ação, no espetáculo coreografado e na catarse que advém disso. A preocupação aqui está na violência, de uma maneira um tanto gratuita, o que torna as coisas não tão compensadoras.

John Wick é violento, mas muito mais performático. Polar é só... violento. Personagens são pregados à paredes, torturados brutalmente e assassinados em pleno ato sexual. Existe uma vulgaridade tingindo a narrativa de Polar que pode até ser engraçada dependendo do seu senso de humor. Eu só ri em uma cena na qual uma janela quebra depois do que deveria.

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Glorificando tanto a violência ao invés de cenas de ação realmente bem executadas, Polar ficou me devendo. As comparações com John Wick acabam aqui. Agora vamos falar sobre Mads Mikkelsen.

Mads Mikkelsen é um ser-humano adorável, as pessoas geralmente gostam dele. Ele é um bom ator, fez Hannibal, é amigo do Hideo Kojima e fica muito bem de tapa-olho em Polar. Qualquer cena remotamente interessante deste filme existe graças a ele. Tem uma na qual ele sai pelado no meio de uma nevasca para surpreender um sniper de tocaia e, bem, não é todo filme que tem dessas.

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A atuação de Vanessa Hudgens (a garota do High School Musical) também é legal. Você vai acreditando na relação entre a personagem dela e Duncan, até que um plot twist descarrilha as coisas no final do filme para deixar um gancho safado que grita Polar 2.

No mais, as atuações beiram caricaturas. Gostei do que fizeram com o vilão, no entanto. Ele vive passando um gel macilento nas mãos que sai de um tubo de maneira bastante... eu quero dizer "seborréico", mas não sei se essa palavra existe. É uma palavra feia, "seborréia", tenta pronunciar em voz alta aí. O vilão de Polar parece a personificação da palavra Seborréia quando dita por lábios ensebados de banha com resquícios esfarelados de Doritos. Em outras palavras, o vilão é detestável e você espera que Mads Mikkelsen mate ele logo pros créditos subirem duma vez.

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Polar não é um filme bom. Talvez você goste. Eu não gostei. Mas eu gosto do Mads Mikkelsen e acho que Hollywood utiliza ele muito mal. Deem uns filmes decentes para o nosso garoto Mads, executivos de Hollywood. Assim ele não vai ser a única coisa boa de obras ruins como Polar.

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Polar é que acontece quando você deixa alguém cínico dirigir John Wick. Ao invés de nos apresentar um espetáculo intenso de ação, o longa nos serve muita violência gratuita e um humor negro um tanto duvidoso. Pode até ser sua praia, mas não foi a de quem tece estas humildes palavras.

A minha nota para Polar é 2 de 5, por causa do Mads Mikkelsen. Qualquer filme com Mads Mikkelsen automaticamente ganha duas estrelas só por ele estar lá, segundo minhas regras pessoais de análise cinematográfica. O que significa que Polar ganharia um zero se você subtraísse o Mads dele.

Se você é fã do ator, vai provavelmente assistir essa bomba de qualquer maneira. Mas, se você não está nem aí, a dica é continuar nem aí e não perder o tempo.

TRÍVIA: Polar é dirigido pelo mesmo cara que dirige clipes da Beyoncé. Fui pesquisar sobre o diretor e achei isso inusitado. Fica aí a informação.

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Lucas Rafael

Redator. Entusiasta de coisas demais