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[CRÍTICA] O Retorno de Mary Poppins – O mundo precisa de mais babás mágicas!

Por Gus Fiaux

Uma das personagens mais clássicas da Disney, a babá encantada está de volta em O Retorno de Mary Poppins, filme protagonizado por Emily Blunt. Com doses de musical, fantasia e aventura, é um longa que não perde a magia de seu original – mas será que faz jus a ele?

Créditos: Walt Disney

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Ficha Técnica

Título: O Retorno de Mary Poppins (Mary Poppins Returns)

Ano: 2018

Data de lançamento: 20 de dezembro (Brasil)

Direção: Rob Marshall

Duração: 130 minutos

Sinopse: Décadas depois de sua visita original, a babá mágica retorna para ajudar os irmãos Banks e os filhos de Michael a passar por um período difícil em suas vidas.

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O Retorno de Mary Poppins - O mundo precisa de mais babás mágicas!

No auge das décadas de 50 a 70, Hollywood produziu diversos musicais que ficaram marcados na história por seu bom-humor e sua perspectiva otimista sobre o mundo. Um desses filmes foi Mary Poppins, uma das criações mais importantes de Walt Disney, baseado na obra literária de P.L. Travers.

Agora, mais de cinco décadas após o lançamento do original, nos reunimos novamente para a aguardada sequência, intitulada O Retorno de Mary Poppins. Aqui, vemos uma continuação direta do primeiro filme, com os mesmos personagens e uma trama que não poupa easter-eggs e conexões ao original.

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No centro de tudo isso, temos Emily Blunt interpretando o papel que pertenceu a Julie Andrews no original. E, por mais que ambas as interpretações sejam muito diferentes e incomparáveis, precisamos dizer que Blunt conseguiu carregar o legado com muita firmeza, criando uma Mary Poppins rígida, mas sobretudo bondosa.

Sem dúvidas, ela é o que realmente impulsiona o filme, tanto através de seus dons mágicos quanto graças ao seu sarcasmo sutil. Musicalmente falando, ela não deve em nada a Andrews. Outro ponto positivo está em sua caracterização visual, que nunca a deixa se tornar ordinária - e digo isso em um filme onde o figurino de todos é impecável!

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Já falando dos outros personagens, temos Ben Whishaw e Emily Mortimer no papel de Michael e Jane Banks, respectivamente. Eles conseguem trazer um senso de evolução aos irmãos travessos do original, ainda que se mostrem como figuras cujas vidas sofreram grandes amarguras, o que acabou fazendo com que eles esquecessem a magia de sua infância.

Eles estão bem no papel. Whishaw às vezes é muito teatral, mas isso não chega a atrapalhar o desenrolar da obra. No entanto, o destaque realmente vai para o trio dos filhos de Michael, interpretados por Pixie Davies, Nathaniel Saleh e Joel Dawson. Os três são excelentes atores-mirins, que conseguem passar suavidade, desconfiança e bom-humor sempre.

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Por outro lado, o filme ainda conta com diversos personagens secundários. Temos Julie Walters reprisando o papel da empregada Ellen, enquanto vemos Colin Firth como um bancário - e quem se lembra do original já sabe o que isso quer dizer -, Meryl Streep em uma ponta gloriosa, que só serve para nos mostrar o quanto a atriz ainda é fenomenal.

E, é claro, não podemos nos esquecer de Lin-Manuel Miranda, que interpreta um acendedor de postes, espelhando o papel que Dick Van Dyke interpreta no original - embora ambos sejam personagens diferentes. Aqui, Miranda consegue ser um personagem menos irritante e mais útil ao desenrolar da história.

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Em termos de direção, Rob Marshall manda bem. O diretor já havia investido em alguns musicais no passado - como Caminhos da Floresta -, mas aqui ele consegue trazer o melhor da linguagem cinematográfica para compor seu filme. Em momento algum sentimos como se estivéssemos assistindo a uma peça em vez de um filme.

Muito disso se dá pela brilhante composição das cenas, que sempre demanda de fortes técnicas, tanto de movimento de câmera quanto de deslocamento dos atores. Nesse sentido, apesar de abraçar todo o "irrealismo" do musical, o filme consegue ser mais firme em sua história. Até mesmo as caracterizações só apelam para o teatral em casos muito específicos.

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E é justamente esse encontro entre o fantástico e o real que torna O Retorno de Mary Poppins tão fiel ao seu longa original. Aliás, temos vários momentos em que a história envereda por caminhos similares ao do filme de 1964. De forma geral, a estrutura do roteiro é a mesma, com os mesmos tipos de evento acontecendo na mesma ordem.

Isso pode acabar soando como um problema para quem esperava mais originalidade. É impossível dizer que o filme não tenta se escorar demais no original para criar sua própria linguagem - desde, por exemplo, pequenas referências, como uma pipa remendada, a grandes momentos, como uma sequência animada e um show de dança por parte de alguns trabalhadores.

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E é justamente quando comparamos essa "fidelidade excessiva" que o filme perde um pouco de força. De certa forma, parece que o longa entrou para a escola de filmes como Star Wars: O Despertar da Força e Jurassic World, tentando ser uma continuação que, por nostalgia, "recria" o seu longa original.

No entanto, ainda há muita coisa aqui que pode ser levada em consideração e que torna O Retorno de Mary Poppins um filme extremamente satisfatório. O desenvolvimento dos personagens, por exemplo, é bem mais nítido e construído do que o do filme original. A pontualidade das sequências musicais também é outra coisa a se comemorar.

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Uma vez que o filme original esbanjava muitas canções - metade das quais eram repetitivas e sequer são lembradas -, a sequência sabe economizar. Não temos tantas músicas ou tantos números de dança, mas os que estão lá certamente são memoráveis e ajudam a contar a história. Nenhuma canção está sobrando, todas possuem seu próprio sentido narrativo.

E é assim que O Retorno de Mary Poppins consegue encantar. O visual está fantástico - em especial o trabalho de figurino, que merece ao menos a indicação ao Oscar -, as músicas também e há todo um charme britânico que condiz bastante com a história. Se você, por exemplo, gosta de filmes como Paddington, esse longa também pode te agradar.

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Somando todas essas qualidades e o problema da falta de originalidade, O Retorno de Mary Poppins ainda consegue se provar como uma obra bem divertida, sagaz e extraordinariamente bem-produzida. É provavelmente o ponto alto da carreira de Rob Marshall, e é um dos melhores live-action da Disney nos últimos anos.

Com magia de sobra e um esmero técnico incomparável - ainda que uma ou outra cena de CGI acabe não soando tão natural quanto poderia (a cena do banho que o diga) -, o filme sabe não apenas respeitar a magia do longa original, como também cria alguns momentos genuinamente encantadores. No fundo, o mundo precisa é de mais babás mágicas!

NOTA: 4/5

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Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Demon to some... angel to others (ele/dele) || @gus_fiaux