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[Crítica] O Mundo Sombrio de Sabrina: 1º Temporada – Profanidade deliciosa!

Por Chris Rantin

Com a proposta de trazer uma história mais adulta, obscura e pesada, O Mundo Sombrio de Sabrina, que é a adaptação de The Chilling Adventures of Sabrina, as HQs mais recentes da feiticeira, deixou muitas pessoas curiosas para saber o que viria da nova série da Netflix.

E o que veio foi algo distorcido, satânico, sombrio e deliciosamente maravilhoso! Confira agora nossa crítica sem spoilers para a primeira temporada da série.

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Bem-vindos ao mundo Sombrio!

Encarei O Mundo Sombrio de Sabrina com um certo receio. Cresci vendo Sabrina, Aprendiz de Feiticeira então a notícia de que teríamos uma série mais sombria me deixou um tanto incomodado no início. Felizmente, no entanto, eu estava enganado e ainda que o começo da nova série traga um pouco de estranhamento, isso passa muito rápido.

Diferente do que eu temia, esse aspecto sombrio e o horror da série não são forçados ou colocados ali apenas para chocar e ser “diferentão”. A narrativa é muito bem construída nesse aspecto e tudo parece muito natural e orgânico.

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Sobrevivendo ao horror

Outro elemento da série que é muito bem trabalhado é o horror. Por causa do trailer, tive medo de que o seriado apostasse em Jump Scares, o recurso mais patético dos filmes de terror, justamente pela pegada mais satânica e demoníaca da série - que também era possível notar no trailer.

Mas por sorte, os produtores preferiram colocar o terror da série na narrativa, colocando figuras assustadoras, grotescas e situações verdadeiramente horrorosas, mas sem que isso fosse resumido em um bicho aparecendo gritando na tela. Dentro da proposta do seriado, o horror funciona justamente por não ser forçado ou gratuito, tudo tem uma explicação e serve para que a história avance.

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Justiça para Salem

Depois que o teaser mostrando o encontro de Sabrina com Salem eu realmente criei esperanças de que o gato mais icônico da ficção fosse falar e ganhar o destaque que ele merecia. O gato até chega a brilha nos primeiros episódios, mas depois é deixado de lado e basicamente se torna um figurante que aparece para indicar uma passagem de cena.

Salem merecia muito mais. Era possível fazer com que ele falasse - mesmo que fosse só com a Sabrina -, tendo uma personalidade forte e divertida, sem que isso destoasse do tom sombrio da série. Eu realmente espero que a série reveja as críticas dos fãs do felino e façam com que ele tenha destaque e serventia para a trama na segunda temporada.

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Humanidade em destaque!

Um ponto que merece ser elogiado é o desenvolvimento dos humanos, algo que na série antiga sempre foi meio que ignorado, com os personagens aparecendo sem muita história própria. Roz, Suzie e Harvey conseguiram brilhar muito em tramas que aconteciam sem a necessidade da presença de Sabrina - o que é muito bom.

E as tramas pessoais dos humanos foi muito boa, pois mostra como a magia afeta todo mundo, direta ou indiretamente. Mais do que isso, a série mostrou que o desenvolvimento deles não foi atoa, já que no fim das contas, foram eles que fizeram aquela conclusão de temporada ser possível. Eles fizeram a trama avançar.

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Os Spellmans

Os Spellmans também merecem elogios. A família de Sabrina pode começar um tanto quanto estranha - confesso que demorei pra gostar da Zelda, mas Hilda foi um cristalzinho fofo que eu amei logo de cara - porém ao longo dos episódios eles crescem em você e logo você passa a realmente se importar com todos eles.

Assim como os humanos, Ambrose, Hilda e Zelda também possuem tramas próprias que nem sempre estão relacionadas com Sabrina, e isso ajuda a construir o seu carinho pelos bruxos, quando você entende quem eles são e o quais são suas motivações. O quinto episódio da série ajuda a trazer bastante aprofundamento emocional para eles, inclusive. Assim, os Spellmans seguem por história próprias que funcionam muito bem, fazendo com que os personagens cresçam muito até o fim da temporada.

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Magia em Segundo Plano

Algumas pessoas podem ter sentido falta da magia mais “hollywoodiana” com luzes piscando, coisas voando ou talvez até mesmo um certo glitter. É bem verdade que ainda que a série seja pautada pela jornada mágica de Sabrina, a feiticeira não recorre aos seus dons com tanta frequência.

Em alguns momentos isso realmente irrita, já que boa parte dos problemas da garota poderiam ser resolvidos com magia, mas quando paramos para pensar que Sabrina ainda é uma aprendiz e que, mais do que isso, possui uma natureza dupla sendo humana e bruxa, até que faz sentido a sua demora para usar magia, já que ainda está dentro do contexto da narrativa. Na segunda temporada, no entanto, isso precisa ser mudado.

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Modernidade Crítica

Talvez a melhor coisa de Sabrina seja o seu aspecto mais atual e militante. A feiticeira realmente se importa com as injustiças do mundo - seja ele humano ou bruxo - e faz o que for necessário para mudar um sistema ultrapassado e opressor. Ela não tem medo de levantar a voz e dizer o que pensa, mesmo com todo mundo se esforçando para calar a jovem bruxa, e ela está disposta a ir até às últimas consequências pelo que ela acredita.

E é justamente por ir contra esse sistema e ser alguém tão forte que a trama da série avança, afinal é por isso que ela não assina seu nome no Livro da Besta (não é spoiler se tá no trailer). Ela quer poder e liberdade, e isso faz dela uma personagem relacionável e maravilhosa.

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Magia Prática

Não sou nenhum Gustavo Fiaux para trazer uma crítica detalhada dos aspectos técnicos da série. Mas é preciso elogiar a série por ter apostado em efeitos práticos, algo que melhora muito a experiência de quem assiste, justamente por trazer um realismo a mais na série. Quando efeitos visuais são necessários, no entanto, podemos notar que eles não são tão refinados assim, mas justamente por eles aparecerem tão pouco, isso não chega a ser um grande problema para a série.

O filtro utilizado na maioria das cenas - sombrio, um tanto quanto desfocado e envelhecido - ajuda a reforçar a ideia de que o que estamos vendo não faz parte do nosso mundo, funcionando muito bem com a proposta da série, sem que isso fique cansativo.

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Entre o bem e o mal?

Os vilões de O Mundo Sombrio de Sabrina são ardilosos, inteligentes, vingativos e cinzas. O Padre Blackwood e até mesmo a “Professora” Wardwell (que é maravilhosa do começo ao fim) mostram que são bem mais profundos e complexos, sendo bem mais do que apenas “mal”. Eles possuem medo, desejo e ambições, sendo personagens que às vezes agem como "aliados" de Sabrina e às vezes aparecendo como os inimigos da bruxa, sem que isso pareça errado ou incoerente.

As Irmãs Sinistras, no entanto, precisam ganhar um pouco mais de profundidade - e Dorcas e Agatha precisam ganhar falas e personalidade. Mas como um todo, é um tanto difícil de acreditar que Sabrina realmente seria amiga das garotas que ficam tentando matá-la ou torturá-la sem nenhum motivo.

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Nota: 4/5

Em resumo, O Mundo Sombrio de Sabrina consegue se distanciar da série dos anos 90 com maestria, sem parecer muito forçada por querer ser uma história mais sombria. O desenvolvimento dos personagens é algo incrível e é impossível não se importar com pelo menos alguns deles. A narrativa é bem construída e a trama é muito interessante e moderna, trazendo críticas importantes para a sociedade atual.

Existe espaço para melhorar, no entanto. A relação entre alguns personagens precisa de mais coerência, a série precisa aprofundar no seu lado mágico e, é claro, Salem precisa começar a falar e ter o destaque que todos gostaríamos. Assim sendo, O Mundo sombrio de Sabrina leva 4 pentagramas de 5.

E que venha a segunda temporada!

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Chris Rantin

Jornalista • Editor • Mestrando em Comunicação pela UEL • Instagram e Twitter: @Chris_Rantin • "Eu sou o fogo e a vida encarnados. Agora e para sempre eu sou a Fênix!"