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[CRÍTICA] O Doutrinador – Não são as pessoas que deveriam temer o governo!

Por Gus Fiaux

E as HQs nacionais finalmente ganham seu espaço no cinema! Chegando às salas de todo o Brasil nesta quinta-feira, temos a adaptação cinematográfica de O Doutrinador, um anti-herói que caça políticos corruptos – bem a tempo. Nós já conferimos o filme, e aqui você pode ver a nossa opinião sobre a obra!

Créditos: Divulgação

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Ficha Técnica

Título: O Doutrinador

Ano: 2018

Data de lançamento: 1º de novembro

Direção: Gustavo Bonafé

Classificação: 16 anos

Duração: 108 minutos

Sinopse: Uma tragédia pessoal leva um agente federal treinado a uma cruzada contra a corrupção virulenta na política brasileira, e tudo converge no meio das eleições presidenciais.

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O Doutrinador - Não são as pessoas que deveriam temer o governo!

Na era dos super-heróis nos cinemas, estava demorando para que algum personagem nacional fosse adaptado nas telonas. Mesmo que tenhamos tido figuras como o Mancha Solar já representados no cinema, ainda não tínhamos um grande super-herói nacional, vivendo e combatendo a criminalidade no Brasil.

Claro que isso muda completamente com a estreia de O Doutrinador, filme que adapta os quadrinhos de Luciano Cunha. Com isso, temos a primeira iniciativa do Universo Guará - uma franquia compartilhada de heróis que exploram a realidade do país. E, para um primeiro passo dentro desse "cinema de gênero", estamos indo bem.

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O filme conta a história de Miguel, um agente federal que sofre uma perda irreparável em sua família. Revoltado com a participação da política brasileira nesse evento trágico, ele se transforma no Doutrinador, um herói que se torna juiz, júri e executor de políticos corruptos, sem medo de apelar para a extrema violência.

O longa chega aos cinemas em um momento delicado, principalmente após as eleições presidenciais - que também possuem uma participação importante na história. Mas um dos maiores méritos - ou defeitos, dependendo do seu ponto de vista - de O Doutrinador é que o filme não escolhe um "lado" - ele atira para todos os lugares.

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Em nenhum momento, temos a sensação de que o longa está puxando sardinha para algum partido ou condenando outro. Em vez disso, temos políticos "genéricos", sem grande posição definida, que só mostram a podridão desse cenário. Não há sequer um viés ideológico entre direita e esquerda - ainda mais com o anti-herói lutando ao lado da classe média e das minorias igualmente.

Isso torna a história mais universal, mas ao mesmo tempo, carece da profundidade política que é proposta na premissa. Nunca temos discussões e debates desse cunho, o que acaba deixando o filme raso nesse aspecto - ainda que ele compense na ação e na pancadaria, que é o foco.

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Em termos de atuação, temos altos e baixos. Kiko Pissolato está muito bem no papel do anti-herói. Ele consegue incorporar a vida dupla do personagem, e também possui uma "expressão silenciosa" que casa muito bem com seu papel na trama. Outra que merece destaque é Tainá Medina, no papel da ativista hacker Nina, que serve como "assistente" para o Doutrinador.

Por outro lado, há baixas no elenco. Carlos Betão nos fornece um Antero Gomes (o "vilão" principal) muito caricato. E ele não é o único. Todos os que interpretam papéis de políticos não possuem sequer histórias próprias. Eles estão sempre fazendo versões nada convincentes de "gargalhadas malignas" de super-vilões de quadrinhos.

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Além disso, o filme também desperdiça alguns nomes que podiam ter mais potencial. Eduardo Moscovis convence como Sandro Correa, o primeiro inimigo do Doutrinador - e o mesmo vale para Marília Gabriela, no papel da Ministra Marta Regina. Uma pena que ambos aparecem tão pouco ao longo do longa.

A direção de Gustavo Bonafé é bem competente, na maior parte das vezes. Ele sabe aproveitar a fotografia para fazer planos bem inquietantes, que às vezes se espelham na estética do cinema noir. Por outro lado, o diretor não consegue lidar muito bem com as transições temporais e espaciais, que são sempre muito bruscas.

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Por exemplo, mais de uma vez, você se pega pensando: "Como o Doutrinador conseguiu escapar daí?", já que todas as soluções são realizadas por simplórios jump-cuts, mesmo quando não faz sentido. A montagem também é problemática ao mostrar o "nascimento" do Doutrinador, que é entremeado por flashbacks melodramáticos e cenas de ação muito bruscas.

Porém, se formos analisar o maior demérito do filme, de fato, é a sua falta de originalidade. Para um personagem nacional, O Doutrinador nada mais é do que o Justiceiro, inserido na trama de V de Vingança e com uma estética própria dos filmes de Zack Snyder. O longa parece querer se "americanizar" demais, e isso pode acabar distanciando o sentimento nacional.

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Mais de uma vez, temos a sensação de que o filme flerta com outros longas de super-heróis, mas em vez de tentar homenageá-los ou subvertê-los, ele parece querer emulá-los. Um exemplo claro disso se dá na cena em que vemos o anti-herói no topo de um prédio, encarando a cidade como se fosse o Batman. Considerando que ele é um humano normal que caça políticos, qual é a necessidade desse plano?

É justamente por isso que o filme não consegue se provar como um evento inovador. Por mais que seja um herói brasileiro enfrentando o crime nas terras tupiniquins, ele acaba ficando muito mais parecido como uma figura estrangeira, que já vimos trocentas outras vezes em filmes e séries da Marvel e da DC.

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No entanto, isso ainda não tira os méritos do filme. A ação é bem coreografada, e para quem gosta de algo mais brutal, resta dizer que o sangue não é poupado. Além disso, há um trabalho interessante no que diz respeito ao som do filme, que foge à precariedade e nos apresenta um design interessante.

Uma última reclamação diz respeito à trilha sonora. Por mais que o rock em inglês renda bons momentos - ainda que o som às vezes seja muito mais alto do que o necessário -, seria interessante explorar mais o nosso próprio idioma, como no rap inicial versado por Karol Conka, ou no beat eletrônico "Ostentação à Pobreza", de Rincon Sapiência, que toca ao longo dos créditos.

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O Doutrinador é, antes de mais nada, um filme bom. E considerando que é a primeira grande iniciativa heroica nacional nos cinemas, é um feito glorioso. No entanto, a ausência de elementos marcantes e o constante sentimento de que o filme tenta demais emular um cinema americanizado faz com que ele perca a força e o impulso.

Ainda assim, fica o destaque para a atuação de Kiko Pissolato e o clima noir que permeia toda a história - por mais que o roteiro e a montagem prejudiquem em alguns momentos. Agora, nos resta a esperança pela série televisiva, que provavelmente se aprofundará mais em questões intrínsecas ao país e ao governo - e, quem sabe, trará mais originalidade.

NOTA: 3/5

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Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Demon to some... angel to others (ele/dele) || @gus_fiaux