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[CRÍTICA] Halloween – Você tem medo do Bicho-Papão?

Por Gus Fiaux

Quarenta anos após o lançamento de um dos maiores clássicos do terror slasherMichael Myers está voltando para seu conflito final com Laurie Strode, no novo Halloween. O filme é uma continuação direta da obra original de John Carpenter… mas será que ele está à altura do personagem e da história?

Créditos: Universal Pictures

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Ficha Técnica

Título: Halloween

Ano: 2018

Data de lançamento: 25 de outubro (Brasil)

Direção: David Gordon Green

Classificação: 16 anos

Duração: 106 minutos

Sinopse: Laurie Strode participa de seu confronto final com Michael Myers, a figura mascarada que a assombra desde que ela fugiu da morte no Dia das Bruxas, há quarenta anos.

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Halloween - Você tem medo do Bicho-Papão?

Um dos maiores problemas que o horror enfrentou nos cinemas, desde os anos 80, foi a expansão das franquias. O que antes eram obras excelentes e intocáveis, como o primeiro A Hora do Pesadelo, O Exorcista e Poltergeist, logo se transformaram em séries contínuas, com filmes cada vez mais decadentes e desinteressantes.

Por sorte, o novo Halloween sabe cortar o mal pela raiz: aqui, temos uma espécie de "retcon" da série de filmes, o que significa que qualquer coisa feita após o filme original de 1978, sejam as sequências ou os reboots, é sumariamente ignorado. E essa é a melhor decisão possível, pois o longa de 2018 é o melhor sucessor já feito ao filme de John Carpenter.

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A história do longa é simples: após seu frenesi assassino, em uma noite de Dia das Bruxas há quarenta anos, Michael Myers finalmente se livra da prisão. E então, ele sente a necessidade de ir atrás da única sobrevivente de seu ataque: Laurie Strode. Felizmente, ela está mais preparada do que nunca para enfrentar esse psicopata diabólico.

O novo Halloween é um slasher clássico, em sua essência. Acompanhamos o assassino à solta, enquanto suas vítimas vão sendo reveladas aos poucos, todas com mortes brutais e violentas. No entanto, o que torna ele diferente de zilhões de filmes do mesmo subgênero é a construção de tensão e atmosfera, que nunca esteve tão sufocante.

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Aqui, temos o retorno de Michael Myers à melhor maneira possível. Enquanto o ator James Jude Courtney oferece uma fisicalidade impressionante ao papel, é justamente Nick Castle - que interpretou o personagem no longa de 1978 - que traz vida a Myers, já que "dubla" a respiração pesada do vilão. E pode parecer besteira, mas faz uma grande diferença.

No entanto, quem está brilhando mais do que nunca é Jamie Lee Curtis no papel de Laurie Strode, a vítima original. A atriz entrega uma performance séria e que retrata todos os traumas deixados na sobrevivente. É possivelmente um dos melhores papéis em sua carreira, principalmente porque, dessa vez, ela também parte para a ação bruta.

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Aliás, há toda uma construção muito interessante no que diz respeito aos paralelos entre os dois. De certa forma, ambos foram marcados pelos eventos retratados no primeiro filme. E enquanto Michael Myers se tornou uma criatura desesperada para reencontrar a "que escapou", Laurie também se tornou uma máquina de matar - embora não pratique isso prazerosamente.

É justamente essa dicotomia que torna os dois os arqui-inimigos mais impressionantes dentro de uma franquia de horror. O longa faz você sentir na pele o ódio e a repulsa que um sente pelo outro, enquanto os dois vão se tornando mais parecidos. Destaque para a "batalha final", que, apesar de curta, faz você sentir cada segundo da tensão.

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Claro que os dois não são os únicos a ter espaço. Judy Greer está excelente, interpretando a filha de Laurie Strode. A atriz, geralmente conhecida pela comédia, entrega aqui um papel mais sério - e consegue trazer à vida uma mulher torturada pela sua infância, mas que cresceu preparada para o pior.

Além dela, temos destaque para Andy Matichak, que interpreta a neta de Laurie; Will Patton, no papel do Policial Hawkins; Rhian Rees, que vive uma jornalista e participa de uma das cenas mais tensas do longa. No geral, o filme é uma ode às scream queens (ou "rainhas do grito"), título que Lee Curtis assumiu com prazer. A diferença é que, aqui, as mulheres fazem bem mais do que gritar: elas também sabem se defender.

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A direção de David Gordon Green é, em maior parte, excelente. O cineasta tem uma visão bem interessante e sua cadência da obra lembra muito a de John Carpenter no filme original, embora ele também demonstre sua identidade autoral aqui. Destaque para a fotografia de Michael Simmonds, com direito a um plano-sequência de cair o queixo.

No entanto, nem tudo são flores. E com isso, falo do roteiro. O texto foi escrito pelo diretor, em conjunto com Danny McBride (sim, ele mesmo) e Jeff Fradley. É, basicamente, um poço de exposição e frases de efeito baratas. Só nos primeiros trinta minutos de filme, a história do longa original já foi contada e recontada pelo menos umas três vezes.

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Esse é um problema severo, que faz com que alguns personagens percam força. Por exemplo, mais de uma vez, vemos Jamie Lee Curtis falando frases altamente mecânicas, mas carregadas de várias frases de efeito genéricas. Em outra cena, temos Judy Greer contando para sua filha de como foi sua infância, de uma forma bizarramente inorgânica.

Ainda assim, você pode relevar pela construção de atmosfera - que realmente é genial. O maior elogio precisa ir para o brilhante uso de som contrastado com silêncio. Mais de uma vez, você vai se encontrar na beira da cadeira, esperando pelo pior - que você sabe que virá. E a trilha sonora, composta por John Carpenter, é um dos pontos altos. Além de atualizar o tema clássico, ela fica na cabeça por um bom tempo.

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Em termos de narrativa, há também uma reviravolta que acontece antes do início do terceiro ato. É um plot twist simplório, bem previsível, e que não soa muito bem - mas logo se corrige quando Michael Myers volta a ter destaque. Não é nada muito abrupto, mas faz com que o filme perca o gás momentaneamente.

Ainda assim, a fluidez da história é essencial - e se mostra presente em boa parte do filme. Com 106 minutos de duração, e ação ao máximo, o filme passa num estalar de dedos, se mostrando uma experiência bem divertida e agradável. Mas não se engane, há um terror evidente aqui - e, mais uma vez, você vai acreditar que Myers é o bicho-papão.

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Halloween voltou com tudo. E embora já existam discussões a respeito de uma possível continuação, o longa serve como uma conclusão muito satisfatória para o conflito entre Michael Myers e Laurie Strode. É uma história de ódio, vingança e medo, mas acima de tudo, é um slasher de primeira, que vai agradar os fãs do gênero.

Apesar de algumas falhas no roteiro e na construção da narrativa, o filme com certeza vai conquistar os amantes do clássico de John Carpenter, ao mesmo tempo que prepara o terreno para uma nova legião de fãs. David Gordon Green conseguiu: ele fez a primeira continuação decente de Halloween, e lembraremos dela por um bom tempo.

Nota: 4/5

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Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Demon to some... angel to others (ele/dele) || @gus_fiaux