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[CRÍTICA] Cobra Kai: 1ª Temporada – Nostalgia do jeito certo!

Por Felipe Vinha

De forma inesperada, Karatê Kid retornou com tudo no ano de 2018. Mas, assim, inesperada mesmo. Nunca imaginaríamos que fosse existir um seriado sobre os filmes e melhor ainda: que fosse uma continuação direta, com os astros originais!

Assim nasceu Cobra Kai, série lançada pelo YouTube, com Ralph Macchio de volta ao papel de Daniel LaRusso e William Zabka como Johnny Lawrence, reacendendo uma rivalidade que pensávamos ter sido apagada.

E que experiência foi essa!

Leia nossa crítica a seguir, com spoilers bem leves, que não vão estragar sua experiência.

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Como citamos, Cobra Kai é uma série que dá continuidade a Karatê Kid. Melhor ainda: ele não se foca nos outros filmes da saga, apesar de ter pequenas referências, e segue a história a partir daquele final, 34 anos depois que Daniel-San venceu Johnny na final do torneio local de Karatê.

Mas há uma diferença crucial: Johnny é o protagonista desta nova saga. Cobra Kai, como o nome diz, dá espaço para que o rival brilhe, mas não exatamente da forma que você espera – ao menos no caso de você esperar um Johnny Lawrence reformado.

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Cobra Kai faz uso muito bom de seu próprio universo. A série foi feita com os fãs clássicos em mente. Tanto é que já começa diretamente no final do primeiro Karatê Kid, quando Daniel-san usa seu golpe clássico para vencer o rival – que havia acertado sua perna de maneira desleal, pouco tempo antes.

Mas, ao mesmo tempo, o seriado tenta agregar um público novo, apresentando todo um elenco inédito, composto por jovens da escola mais próxima, envolvendo ainda os filhos, filhas e discípulos dos nossos heróis.

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Mas, acima de tudo, Cobra Kai é uma série sobre perdedores. Toda a narrativa que reapresenta Johnny Lawrence no primeiro episódio estabelece-o como um grande fracassado. Um verdadeiro boçal, vivendo em um mundo que não é mais dele.

Porém, o programa surpreende o espectador, ao revelar que absolutamente todos os personagens centrais são perdedores, mesmo Daniel LaRusso, que aparentemente agora é um homem de sucesso, com um promissor negócio de venda de automóveis. Ao longo de cada capítulo, vemos as derrotas pessoais de cada uma das figuras centrais da trama e Cobra usa isso com inteligência.

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Entenda bem: um dos lemas do dojô Cobra Kai de Karatê é não ter piedade, ser durão na vida, atacar primeiro. Ao mesmo tempo, os personagens que repetem estes motes são hipócritas, pois são os mais fracassados de todos, que nunca agem primeiro e que sempre sofrem com a falta de piedade do mundo.

Assim, o seriado molda-os de acordo com esse novo mundo, que não depende apenas da sua atitude, mas também da sociedade que te envolve. Não importa se você for o cara mais durão do universo, se tem que pagar um aluguel caríssimo da sua academia, com o risco de ser dispensado, tendo que alugar parte do local para delicadas aulas de Yoga.

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É nessa “quebra” dos personagens que Cobra Kai se revela. Ele mostra que seus personagens são humanos e tratam de um tema que o Karatê Kid original também trabalhou: o coração das pessoas e de seus heróis. Todos são falhos, sem exceções, e todos têm de aprender a conviver com isso, engolir o choro e tentar tocar a vida.

No fim, dá uma volta completa: o lema do Cobra Kai ainda se aplica, mas de maneira retorcida e reveladora. Não tenha piedade… De si mesmo. Estamos nessa para sofrer e ninguém vai ter pena de você.

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Além desse grande mote, Cobra Kai é surpreendentemente boa em termos técnicos. A narrativa padrão de seriados americanos ainda se aplica, mas o claríssimo baixo orçamento não afeta boa parte do elenco e as cenas – que são quase todas ao ar livre, com poucas exceções para o dojô de Lawrence ou a casa de LaRusso.

O ponto fraco, claro, fica por conta do elenco adolescente. Mary Mouser, que faz a filha de Daniel, Samantha, está incrivelmente bem e te passa verdadeira impressão de ver uma adolescente real. Mas o restante carece um pouco mais de experiência – plenamente perdoável.

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Outro destaque do elenco fica por conta de Courtney Henggeler, que vive Amanda LaRusso, esposa de Daniel (pois é, ele não fica com Ali). Uma mulher muito centrada e que serve de “voz da razão” em diversos momentos do enredo. É engraçado pois todos os homens repetem o lema do Cobra Kai ou replicam o mantra em outro formato (ser durão, não dar mole), mas a atitude que mais está ligada com este tipo de posição vem de uma personagem que sequer treina Karatê.

Ah, e claro que não temos Sr. Miyagi – Pat Morita faleceu em 2005 – mas há claríssimos momentos de homenagens, referências e uso de cenas originais de Karatê Kid, que farão o fã nostálgico gritar por dentro.

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Mas nem tudo é perfeito. Cobra Kai se perde um pouco na narrativa ali pelo meio. Entendo que trata-se de uma interpretação mais emocional dos personagens e de seus panos de fundo, mas de uma hora para a outra, ela resolve se focar apenas nos dramas adolescentes e o Karatê é deixado de lado em tempo integral, apenas para voltar do nada, nos capítulos finais.

O grande centro da série é um torneio de karatê que está para acontecer, como em todo Karatê Kid, mas chega uma hora que você imagina que ele pode nem mesmo rolar, por conta da “enrolada” que o programa dá. Nos enganamos, mas a transição não é tão boa.

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Mas, se serve de consolo, a conclusão de Cobra Kai é magnífica. Ela beira a poesia, quando comparamos com o final de Karatê Kid, graças a rimas visuais e diálogos diretos com o filme antigo, que as sequências de ação e relacionamento estabelecem.

Inclusive, o seriado deixa um excelente gancho para sua segunda temporada – que já está confirmada, graças aos deuses das artes marciais.

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Conclusão

Cobra Kai é simplesmente fantástico. Por mais que dê umas engasgadas ao longo de seus episódios “do meio”, a série presta homenagens, passa lições, volta com astros originais e apresenta um novo elenco de maneira natural.

Nostalgia é sempre uma arma perigosa: ela pode te deixar confortável na hora de produzir determinado conteúdo, pensando que os fãs antigos vão “comprar a ideia” apenas por lembrar da infância.

Porém, Cobra Kai mostra que, sim, nostalgia pode ser usada de maneira correta, se bem dosada e com qualidade técnica.

Nota: 4 de 5

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Felipe Vinha

Já tentei salvar o mundo de uma invasão alienígena, mas hoje me contento em ser jornalista. Gosto de quadrinhos e suas adaptações na TV ou cinema, animes, tokusatsu, games (de luta principalmente) e tecnologia. Vamos trocar uma ideia no Twitter @felipevinha