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[CRÍTICA] Bird Box – Era melhor ter visto vendado!

Por Gus Fiaux

Com um elenco estelar, com nomes como Sandra Bullock, Sarah Paulson John Malkovich, o suspense Bird Box, adaptação do best-seller Caixa de Pássaros, era uma das maiores apostas do ano para a Netflix. Infelizmente, o longa original da plataforma de streaming promete muito, mas cumpre bem pouco…

Créditos: Netflix

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Ficha Técnica

Título: Bird Box

Ano: 2018

Data de lançamento: 21 de dezembro de 2018 (Brasil)

Direção: Susanne Bier

Classificação: 16 anos

Duração: 124 minutos

Sinopse: Cinco anos depois que uma presença maligna leva metade da sociedade ao suicídio, uma mãe e seus dois filhos fazem uma aposta desesperada para procurar abrigo.

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Bird Box - Era melhor ter visto vendado!

A produção de filmes da Netflix tem crescido em níveis significativos. Nos últimos anos, a plataforma de streaming tem apostado não apenas em longas documentais ou animações, mas se voltou em grande parte para a produção de ficções, produzindo filmes como Okja, Beasts of No Nation e o recente - e premiadíssimo - Roma.

Ainda assim, é seguro dizer que a maior aposta da empresa para o ano, nesse quesito, era Bird Box, filme que adapta a obra homônima de Josh Malerman. No entanto, o que prometia ser uma produção colossal, com um elenco de primeira linha, acabou se tornando uma grande demonstração do quão frustrante é termos tanto potencial desperdiçado.

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No longa, protagonizado por Sandra Bullock, vemos uma mulher chamada Malorie, vivendo em uma época pós-apocalíptica, onde o mundo foi dominado por criaturas misteriosas. Se qualquer pessoa olhar para eles, imediatamente vem o desejo do suicídio. Apenas algumas pessoas são imunes, mas elas se tornam zumbis que querem fazer o mundo inteiro ver.

A partir daí, a trama traça duas linhas cronológicas diferentes: de um lado, temos os flashbacks que contam o início dessa catástrofe mundial - que em momento algum é explicada ou aprofundada -, e em paralelo, vemos a história cinco anos depois, quando Malorie precisa fazer uma arriscada travessia em um rio com seus dois filhos.

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O grande problema de Bird Box está na sua direção. Mesmo filmes ruins muitas vezes conseguem se destacar por escolhas inteligentes do diretor. Aqui, a já experiente Susanne Bier não faz nada remotamente digno de atenção. Em vez disso, temos um filme que consegue não demonstrar nenhum estilo próprio, o tempo inteiro.

Não há cuidado com a fotografia, com o design de som - algo, aliás, que seria imprescindível, uma vez que as criaturas só se manifestam através de ruídos - e muito menos com a ambientação. O trabalho de direção de arte é imaturo, estabelecendo cores primárias a cada personagem, como um substituto para o desenvolvimento dos personagens.

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Por falar nisso, é aqui que se concentra a maior dose de potencial desperdiçado. Tudo bem que Sandra Bullock nunca foi uma atriz com uma gama muito variada de expressões e emoções, mas ela sempre conseguiu passar, através do olhar, um sentimento bruto - vide Gravidade. Aqui, parece que a atriz sequer tenta.

E ela não é a única. Outros nomes do elenco não são nem um pouco desenvolvidos. John Malkovich possui todo um background interessante, mas mal trabalhado. Já Trevante Rhodes até se destaca, mas o roteiro não faz muito com ele. Por outro lado, Sarah Paulson faz quase uma cameo de luxo, de tão mal-utilizada que ela é.

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Isso é uma falha significativa do roteiro, escrito por Eric Heisserer. O texto, em momento algum, nos permite ter simpatia pelos personagens. E quando ele tenta fazer isso, é através de diálogos expositivos descarados, que servem para contar histórias do passado dos protagonistas ou para explicar algumas de suas atitudes.

Isso tira o peso dramático de qualquer momento do filme. E é justamente essa falha de construção que acaba fazendo com que momentos realmente intensos - como quando Malorie se vê diante da "escolha de Sofia" - soem apenas piegas. Nesse sentido, Bird Box pode até tentar, mas não funciona como drama familiar.

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Porém, as outras investidas também acabam indo longe. Justamente pela falta de ambientação e de uma construção de mundo mais intrigante, o filme também sequer consegue apelar para o horror. As cenas onde a ameaça das criaturas se faz presente são, sobretudo, repetitivas - quase sempre envolvem alguém abrindo uma porta.

Eu diria que, em um ano em que tivemos Um Lugar Silencioso - um filme com diferente proposta, mas com uma concepção de mundo similar (e um orçamento igualmente limitado) -, assistir a Bird Box é uma decadência ímpar. O filme realmente não consegue sair de sua zona de conforto, e não faz nada além do que se espera dele. Na verdade, ele faz até menos que isso.

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A previsibilidade ataca com força em todos os momentos. Não há uma decisão tomada aqui que não possa ser prenunciada há quilômetros de distância. Isso acaba fazendo com que o longa funcione sob um sistema de engrenagens - a cada vez que um personagem ou elemento novo é apresentado, sabemos exatamente qual será o seu propósito.

E com isso, o filme ainda tenta fazer algumas reviravoltas, mas todas acabam sendo ou previsíveis ou puramente absurdas. Se, na obra de Malerman, todas as peças se encaixam com suavidade, em sua adaptação, tudo funciona de modo muito abrupto. As peças são encaixadas à força, e o público consegue perceber isso.

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Aliás, é justamente aqui que entra o debate a respeito da fidelidade nas adaptações, especialmente quando analisamos conteúdo cinematográfico que deriva de obras literárias. O filme segue à risca a história de Caixa de Pássaros, e por mais que ela funcione como livro, falta dramaticidade e emoção para tornar o filme mais interessante.

Isso em momento algum conta como demérito à obra de Josh Malerman. Na verdade, sequer prova que o livro é inadaptável, apesar da natureza de seu "antagonista". O problema, por sua vez, está no roteiro de Eric Heisserer e na direção de Susanne Bier, que acabam se mostrando incapazes até mesmo de cumprir o básico.

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Em suma, Bird Box acaba saindo como uma verdadeira decepção. O filme até pode ter algum valor de entretenimento - embora particularmente não tenha sentido isso -, mas como obra, é realmente desapontador ver tantos atores incríveis atuando em uma história boa, mas mal conduzida pelos seus principais maestros.

No fim das contas, o filme não convence como horror, não convence como drama e muito menos como suspense. Em todas as suas tentativas, ele consegue ser aquém do esperado, se provando uma obra não apenas desinteressante, como também desnecessária. De fato, era melhor ter visto vendado.

NOTA: 1/5

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Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Demon to some... angel to others (ele/dele) || @gus_fiaux