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[CRÍTICA] Alita: Anjo de Batalha – Hollywood aprendeu a fazer filmes de animes?

Por Gus Fiaux

Após meses de críticas e controvérsias, Alita: Anjo de Batalha, o mais novo filme de Robert Rodriguez acaba de chegar aos cinemas, adaptando o popular mangá Gunmoriginalmente criado por Yukito Kishiro.

Com efeitos especiais de tirar o fôlego e uma protagonista igualmente letal e carismática, será que o filme é a prova de que Hollywood finalmente conseguiu fazer um filme bom de animes, ou ainda falta muito para que isso aconteça?

Créditos: 20th Century Fox

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Ficha Técnica

Título: Alita: Anjo de Combate (Alita: Battle Angel)

Ano: 2019

Data de lançamento: 14 de fevereiro (Brasil)

Direção: Robert Rodriguez

Duração: 122 minutos

Sinopse: Uma ciborgue desativada é ressuscitada, mas não consegue lembrar de nada do seu passado e precisa partir em uma jornada para descobrir quem é.

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Alita: Anjo de Batalha - Hollywood aprendeu a fazer filmes de animes?

O mercado cinematográfico norte-americano é conhecido por muitas coisas - inclusive pegar obras estrangeiras e reapropriá-las à cultura ocidental (de língua inglesa, sobretudo). Quando falamos de animes, mangás e outros derivados da Ásia, não tivemos uma história muito boa nos últimos anos, por assim dizer.

Se filmes como Dragon Ball Evolution e Death Note mataram a esperança nas adaptações live-action de animes, outros como A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell até deram uma animada, mas mostraram que ainda faltava um longo caminho a ser percorrido para que esse tipo de narrativa fosse tratado com respeito. E isso nos leva a Alita.

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Baseada no mangá de Yukito Kishiro, originalmente chamado apenas de Gunm, a história de Alita: Anjo de Combate parte de uma premissa simples: uma ciborgue muito avançada é encontrada no lixão da cidade de Zalem - a última grande metrópole aérea deixada após a grande guerra conhecida apenas como "A Queda".

Encontrada pelo Dr. Dyson Ido na Cidade de Ferro, que reside abaixo de Zalem, Alita é costurada a um novo corpo, e desperta sem memórias de seu passado. Porém, com uma curiosidade incontrolável e uma bravura para desbravar o mundo, ela parte em aventuras ao lado de seus amigos enquanto descobre um esquema tenebroso movimentado pela cidade aérea.

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Para responder de vez à pergunta deixada no título dessa crítica, posso dizer que: sim, Hollywood finalmente parece ter entendido como funciona um anime. Mas isso não significa que ainda não haja espaço para melhoras. Basicamente, o filme se prova uma das obras mais divertidas da carreira de Robert Rodriguez, um diretor que sempre soube brincar com o lúdico.

Aqui, temos uma história que não cansa de entreter, e que sabe apostar muito bem em algo essencial para uma narrativa desse porte: o visual. Com produção de James Cameron, que já criou mundos gloriosos como o de Avatar, o filme traz uma construção de universo que, muitas vezes, acaba soando mais interessante do que a própria história do longa.

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O mundo de Alita é belíssimo e cheio de detalhes mínimos que fazem toda a diferença. As sequências que exploram a vida na cidade são excepcionais, assim como as que tratam do Motorball, um violento jogo praticado pelos habitantes da Cidade de Ferro, e que serve como uma das únicas formas de trazer pessoas para Zalem.

Na era das comparações, não poderia ignorar alguns filmes que serviram de referência - ou que ao menos são lembrados conforme Alita se desenrola na tela. No fim das contas, o filme remete ao Ghost in the Shell original e ao icônico Blade Runner 2049. Mas cinéfilos mais atentos também vão ver pitadas de Jogador Nº 1, Metrópolis e até mesmo Avatar.

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No entanto, o que o filme explora em termos de personagens é visivelmente inferior à ambientação. A única exceção para isso é a própria Alita, interpretada por Rosa Salazar. Mesmo com o intenso trabalho de CGI na ciborgue, a atriz consegue passar uma emoção vívida, tornando a protagonista cheia de virtudes e até mesmo alguns defeitos humanizáveis.

Por outro lado, os personagens secundários são, em sua maioria, subutilizados e mal desenvolvidos. O maior exemplo é Hugo, vivido por Keean Johnson. O menino - que também é par romântico da protagonista - acaba tendo uma participação maior do que deveria, e torna-se uma figura chata e inconveniente, estrela de um romance que não cativa e nem emociona.

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Por outro lado, os vilões desse longa - interpretados por Mahershala Ali e Jennifer Connelly -, sofrem pela falta de pulso. Ali ainda se entrega, mas seu papel não sai da superfície e força o ator a explorar um lado unidimensional e caricato. Já a personagem de Connelly, de início, parece que vai ser importante, mas desaparece e só retorna no ato final.

Por sorte, Christoph Waltz ainda consegue transmitir afeto e alento no papel de Dyson Ido. Ele parece um pai genuinamente preocupado com sua "filha" recém-encontrada, mas que também carrega um pesar de seu passado e um segredo bem interessante. O filme sairia muito mais beneficiado se a relação dele com Alita exercesse o papel central.

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O roteiro, escrito por Laeta Kalogridis e James Cameron, por sua vez, transita entre o empolgante e o insuportável. A história sabe conduzir-se no processo de causa/consequência, mas alonga-se além do necessário. A cada cena de ação épica, parece que estamos diante da "batalha final" do filme - apenas para descobrir que ainda faltam mais 5 dessas.

Isso faz com que o filme, apesar do tempo médio de 2 horas de duração, acabe soando muito mais longo e repetitivo. Outro elemento que também fere a narrativa são as dezenas de ganchos para uma continuação - inclusive a incorporação de um vilão importante do mangá original, que está ali apenas como "a ameaça do futuro", mas que acaba tomando muito espaço no longa.

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Ainda assim, o filme está longe de ser um desastre completo. Ao contrário, há muito aqui que pode ser aproveitado e aplaudido. Falando dos aspectos técnicos, a fotografia é simples, mas age com beleza, especialmente nas cenas de ação. Eu altamente recomendaria que você pudesse assistir ao longa em IMAX ou na maior tela possível.

A trilha sonora, composta por Junkie XL, também é certeira. Ela ajuda a expandir a atmosfera e criar um senso do épico. Por outro lado, o trabalho sonoro de resto é competente, mas só ganha destaque nas intensas sequências de Motorball - que são facilmente o ponto alto dentro da ação do longa.

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No final, Alita: Anjo de Combate é o filme mais fiel a um anime que já vimos em Hollywood. Está longe de ser um longa desprovido de defeitos - especialmente por conta de sua extensa gama de personagens e roteiro redundante. Mas, por outro lado, o longa compensa com um visual encantador e uma protagonista excepcional.

Assim sendo, o longa é um passo interessante. E por mais que as sequências que dão "pistas" para uma continuação irritem, ficamos na expectativa para que o segundo filme seja oficializado e possamos ver uma Alita mais madura, mais bem-treinada e mais intensa, enfrentando novos inimigos e provando que o anime veio para ficar em Hollywood.

NOTA: 3,5/5

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Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Demon to some... angel to others (ele/dele) || @gus_fiaux