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[CRÍTICA] A Freira – O Sangue de Jesus tem poder!

Por Gus Fiaux

Após sua primeira e tenebrosa participação em Invocação do Mal 2, ela acaba de ganhar seu próprio filme derivado. A Freira está chegando aos cinemas nesta quinta-feira, e você já pode se preparar para voltar para esse universo sombrio e assustador. Mas talvez, deva ir com as expectativas um pouco mais baixas, pois o filme nem é tão aterrorizante assim…

Créditos: Warner Bros.

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Ficha Técnica

Título: A Freira (The Nun)

Ano: 2018

Data de lançamento: 6 de setembro (Brasil)

Direção: Corin Hardy

Classificação: 14 anos

Duração: 96 minutos

Sinopse: Um padre com um passado assombrado e uma noviça prestes a fazer seus votos finais são enviados pelo Vaticano para investigar um caso de suicídio em um convento na Romênia, e acabam confrontando uma força maligna que toma a forma de uma freira demoníaca.

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A Freira - O Sangue de Jesus tem poder!

Entre a leva estremecedora de universos compartilhados que está rolando em Hollywood atualmente, precisamos dar os parabéns para a franquia Invocação do Mal, originalmente concebida por James Wan. Isso porque eles foram pioneiros em estabelecer esse tipo de universo compartilhado no que diz respeito ao gênero do horror.

Com assombrações que definem o gênero de uma forma tão marcante quanto Freddy Krueger e Jason Voorhees fizeram no passado, esse universo - que possui uma franquia principal e três filmes spin-off, com mais por vir - veio para criar um parâmetro nos filmes de terror - pelo menos no que diz respeito ao cinema mais mainstream. E agora, temos A Freira.

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Vendido em sua campanha de marketing como "o filme mais sombrio da franquia", o longa acompanha a história de uma noviça chamada Irene (Taissa Farmiga) e o Padre Burke (Demián Bichir). Juntos, eles são enviados para investigar o arrasador suicídio de uma freira em um convento na Romênia - onde unem forças com Frenchie (Jonas Bloquet), o homem que descobriu o cadáver da mulher.

Chegando ao local, eles se deparam com um castelo antigo e assombroso, odiado por todos do vilarejo mais próximo. Porém, conforme a investigação se intensifica, acontecimentos sobrenaturais e demoníacos podem ameaçar a vida de inocentes, enquanto o Valak espreita nas sombras.

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Antes de mais nada, é necessário dar os parabéns para a ambientação e o estilo do filme. Poucas coisas conseguem ser mais assustadoras que um convento localizado em um vilarejo longínquo da Romênia, e A Freira sabe muito bem disso. Cada plano explora com curiosidade e medo a extensão sombria do castelo, com uma fotografia belíssima, ainda que bem escura.

Nesse sentido, o longa consegue contar sua história até melhor do que através de seus personagens. O departamento de direção de arte faz o seu melhor para compor um cenário de gelar a espinha, e isso é bem reforçado nos planos mais abertos, onde podemos ver a maior parte do castelo mal-cuidado. Já nos primeiros minutos, somos tomados pela sensação de profanidade e terror.

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Por outro lado, no que diz respeito às construções individuais, A Freira é um filme que tem potencial, mas que não percorre todo o caminho. Quem toma as rédeas da história é a Irmã Irene, que possui um background bem interessante, mas que aos poucos vai perdendo seu ar desafiador e se torna apenas uma mocinha qualquer, ainda que tenha "dons" especiais.

Já o Padre Burke tinha tudo para ser um dos personagens mais carismáticos da história, fazendo até um paralelo com o Padre Karras de O Exorcista. No entanto, ele é pouco utilizado e sua história só é dada em um contexto expositivo, não trazendo nada de novo para as telas. Já Frenchie traz um humor forçado e só serve por uma cena específica ao fim.

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Quanto à Freira em si e às assombrações que permeiam o filme, há um senso de decepção no ar. O demônio Valak aparece relativamente pouco, e para piorar, sua presença é diluída graças a outras manifestações desse poder maligno no convento - que, individualmente, não funcionam muito bem. Não há nada muito intrigante sobre o fantasma de um menino possuído ou freiras-zumbi.

Para piorar, o filme é altamente movido à base dos jump scares. E se isso poderia até ser algo utilizado a favor da produção, acaba soando como um recurso fácil quando, em menos de meia hora de filme, já tivemos pelo menos dez sustos baratos, em vez de desenvolvimento atmosférico.

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Mas o pior talvez seja a forma como o filme acaba estabelecendo suas raízes, meio que para contar "a história de origem" da Freira - que para ser sincero, nem é tão "de origem" assim. Dentro da trama começam a surgir zilhões de elementos banais, que de início parecem inofensivos e logo passam a soar ridículos - toda a história do castelo, por exemplo, poderia ser interessante, mas acaba ficando risível.

E isso só fica ainda mais atropelado quando consideramos os recursos narrativos facilitados. Há uma subtrama envolvendo o sangue de Jesus Cristo que é, no mínimo, entediante. Ou seja, no quesito "terror", A Freira só realmente ganha do primeiro longa da Annabelle, na franquia.

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Ainda assim, há um esforço nítido do diretor Corin Hardy. Ele tem uma grande preocupação em manter-se fiel ao estilo visual de James Wan - que é incomparável. E por mais que o filme não consiga entregar o básico - ou seja, o medo e sustos genuínos -, ele esbanja personalidade, principalmente no quesito visual.

A trilha sonora é outra coisa merecedora de aplausos. Abel Korzneniowski, que já havia surpreendido anteriormente ao compor a trilha de Penny Dreadful, volta aqui com corais profanos e uma melodia claustrofóbica, que a cada badalar parece mais intimidadora para o público. Só isso já compensa pelos sustos gratuitos e pela ausência da "protagonista" titular.

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Assim sendo, o saldo geral é inconstante, mas pende para o positivo - principalmente porque nota-se um verdadeiro esforço aqui, em vez de apenas uma investida comercial, como é o caso do primeiro longa de Annabelle. Talvez, assim como a boneca maldita, a freira endemoniada consiga uma continuação que de fato conte sua origem e redima sua personagem.

Além disso, vale destacar o quão bem amarrada a franquia Invocação do Mal está se mostrando, com pistas aqui e ali que podem deixar os fãs satisfeitos com a construção completa deste universo. Ainda assim, é triste perceber que uma personagem tão ameaçadora quanto a Freira não é tão bem trabalhada quanto em seu longa de estreia.

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No geral, A Freira é um horror morno, que pode ser aproveitado pelo público e pelos fãs dessa saga herética. O que falta de participação do próprio Valak é imediatamente compensado na atmosfera e nas escolhas estéticas do diretor Corin Hardy, que consegue carregar com dignidade o legado de James Wan nos cinemas.

Ainda assim, em um ano com filmes como Hereditário, Um Lugar Silencioso e Aniquilação, o longa acaba se tornando um dos menos memoráveis, um acaso infeliz considerando a popularidade de Invocação do Mal dentro do terror blockbuster atual. Agora, nos resta esperar pela terceira história de Annabelle e pelo filme solo do Homem-Torto.

Nota: 3/5

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Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Demon to some... angel to others (ele/dele) || @gus_fiaux