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10 Motivos pelos quais a Marvel precisa evoluir nas HQs!

Por Gus Fiaux

Atualmente, lá fora, está rolando as Guerras Secretas. Trata-se de um mega-evento precedido pelo aparente fim do multiverso da Marvel, especialmente a Terra-616 – onde se concentra a maior parte de todas as histórias da Marvel desde sua criação – e o Universo Ultimate – uma terra paralela criada nos anos 2000 para poder guiar uma abordagem mais realista e influenciada pelos primeiros filmes de super-heróis do novo milênio. Contudo, achamos que no final do evento, seria necessário uma completa reformulação atrás das temáticas e da forma como ela se desenvolve pela Marvel.

Necessariamente, o que queremos dizer com toda essa matéria, do modo mais simplificado possível, é que a Marvel precisa evoluir e seus personagens devem nascer, crescer e morrer. A partir disso, listamos alguns motivos que podem explicitar a mudança dessa virada radical nas HQs.

Além disso, gostaria de ressaltar algo: muitas das ideias e sugestões aqui presentes também valem para outras editoras, em especial, a DC Comics. A única razão dela não ser diretamente mencionada ao longo da lista se dá pelo fato de seu universo ter “se encontrado” ao longo dos diversos reboots. Isso permite à editora um melhor manejo da forma com a qual seus heróis são tratados.

E apenas para lembrar-lhes: isso não é uma crítica ou uma reclamação com a fase atual da Marvel nas HQs. É apenas um lembrete de que o mercado evolui, e assim sendo, a empresa deve evoluir junto.

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Novos Ícones

O Universo Marvel como conhecemos foi criado nos anos 60, com o surgimento do Quarteto Fantástico. Stan Lee, Jack Kirby e Steve Ditko, encabeçadores do projeto na época, aproveitaram para incorporar aspectos do universo criado pela Timely Comics (como era chamada a Marvel antes disso tudo), e a partir daí, tivemos a inclusão de personagens como o Capitão América, Namor e o Tocha Humana Original.

Assim sendo, não basta olhar longe para perceber que grande parte dos personagens atuais são criações que datam de 1940-1970. E isso é ótimo, sem dúvidas. Mostra o quanto uma franquia pode permanecer de pé e durar através do tempo. Contudo, apresenta um problema subsequente:

Como outros personagens, criados depois, podem tomar espaço e destaque, num mundo povoado por estrelas centrais?

Óbvio que personagens mais recentes, quando amados pelo público, sobem no conceito da editora e passam a adotar papéis mais centrais - e aqui mencionamos alguns como o Deadpool, Justiceiro, Miles Morales, Miss Marvel e Gambit -, porém, eles são constantemente ofuscados pelo brilho de personagens anteriores.

A Marvel precisa tratar disso, de modo que heróis recém-criados possam ter espaço para brilhar, ter seu destaque, seu declínio e depois, dar espaço a outras criações. Assim, teríamos novos ícones para a editora a cada geração, representado uma constante evolução interna.

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Esgotamento de boas ideias

Em determinado momento, fica difícil contar uma boa história sobre um personagem ou um grupo específico. E isso acontece porque o artista, ao olhar mais profundamente para a história da equipe ou do personagem, nota que cada vez mais coisas já foram feitas ali, e repeti-las de novo seria pouco inovador. Isso sem contar quando os próprios roteiristas abraçam a ideia e nos presenteiam com histórias que já não fazem mais sentido para essa geração, e assim, temos novamente o Homem-Aranha no colegial (Spidey!), apenas para exemplificar.

Dessa forma, tornou-se comum duas práticas que os fãs começaram a abominar recentemente: as constantes mortes-e-ressurreições e o uso cada vez mais frequente das mega-sagas, que por sua vez optam por jogar uma enorme quantidade de personagens dentro de alguma salada que, se fosse desenvolvida anteriormente em um herói ou em uma equipe, correria o risco de se parecer demasiadamente com algo que já foi feito.

Para isso, uma solução viável seria uma constante safra nova de personagens no Universo Marvel, de modo que eles pudessem ser explorados por cada um de seus escritores, passando por situações novas e terminasse sua vida, como uma pessoa normal, sem ter de lidar com os problemas da constante repetição e falta de ideias.

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Pano de fundo para os cinemas

A Marvel Studios fez um estrondoso sucesso ao construir seu próprio universo cinematográfico, de modo que ele pudesse agir em consonância com os quadrinhos, recebendo histórias de lá ao mesmo tempo que passava algumas ideias que poderiam ser postas no papel. Contudo, para se manter um universo coeso e fechado, certas decisões precisam ser tomadas.

Se com James Bond é natural a troca de atores, de modo que o personagem sempre flua através de seus diferentes intérpretes, já não se pode prever o mesmo sobre um Universo Cinematográfico cheio de personagens diferentes e cada um com suas características específicas. Tampouco faria sentido ver o Homem de Ferro constantemente mudando de ator e estagnando em uma idade enquanto o tempo passa.

Se os quadrinhos pudessem abraçar esse envelhecimento dos personagens, o cinema poderia embarcar nessa ideia junto, de modo que uma das maiores questões referentes a isso poderia ser resolvida facilmente: Não se faz muitas HQs de personagens desconhecidos pelo medo da falta de lucro. Se os cinemas pudessem adaptá-los, o público poderia comprar a ideia, garantindo assim, um público fiel aos quadrinhos. Funcionou com Guardiões da Galáxia...

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Variedade

Isso serviria também para explorar uma das maiores questões atuais. Por que temos que ver, em todas as listas de solicitação, cerca de 5 revistas estreladas pelo Homem-Aranha, 5 com participação do Wolverine, 4 dos Vingadores e bem... nenhuma da Harpia?

Com esse crescimento, seria mais fácil trazer uma grande leva de personagens variados, que pudessem ser explorados em poucos títulos, cada qual com uma qualidade constante - afinal de contas, você nunca percebeu o quanto, nessas várias revistas de um personagem só, sempre há um ou dois títulos bons e o resto repleto de histórias intragáveis?

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Diversidade

A maior desculpa dada por alguns "fãs" quando a etnia (ou sexualidade, ou gênero) de um personagem é trocada nos quadrinhos e no cinema é a seguinte: "Ai, se foi pra fazer um personagem negro/gay/mulher, que faça outro, e não mude personagens clássicos."

O problema é... de que modo pode haver uma representação correta e que atinja a todos os públicos se personagens novos e menores não vingam e são sempre ofuscados por personagens mais antigos, criados em uma época onde o negro era mal visto, o gay era um pervertido sexual e a mulher só servia como donzela em perigo?

É mais do que simples, da mesma forma que 1+1 é igual a 2. Peter Parker sempre será mais reconhecido que Miles Morales, e isso fica claro na escolha dele para ser o Homem-Aranha principal do novo reboot. E tudo isso se deve à construção de Parker nas HQs, que foi longa e deixou rastros na sua geração e nas subsequentes.

Com o avanço das novas gerações, seria interessante dar poder a personagens cada vez mais diversificados. E exemplos recentes já provaram que isso é abraçado pelo público - basta ver os números de vendas das edições da nova Miss Marvel, uma menina muçulmana!

Mas fique tranquilo, homem branco, cis e hétero da classe média. Ainda temos lugar pra você. Não queremos dominar o mundo e excluir a diversidade. Ao contrário, só queremos aumentá-la!

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Crescimento e desenvolvimento de personagens

"Um dia a mais" foi um evento triste na vida do Homem-Aranha. Ele já estava casado com Mary Jane Watson, e todos o viam como um herói crescido, diferente do adolescente que surgiu em 1962. Porém, a Marvel não o via assim, e queria transformá-lo novamente num personagem que pudesse ser relacionável com a juventude - mesmo que ele não funcione mais assim. Resultado: um pacto com o diabo e ele está solteiro, longe da Mary Jane, e de volta a sua vidinha de sempre.

O fato dos personagens não evoluírem e não demonstrarem receptividade aos eventos ao seu redor afeta o desenvolvimento deles próprios. Há anos a mídia e os próprios quadrinhos tratam o Capitão América como "um homem fora de seu tempo". Da mesma forma que os X-Men sempre serão perseguidos e odiados. Com a evolução, seria uma forma de deixá-los apropriados para o público, de modo a trazer sempre heróis novos que correspondam as expectativas de uma faixa etária específica ou um grupo de leitores, ao mesmo tempo que os heróis podem evoluir com seus fãs.

Imagine-se lendo um Homem-Aranha adolescente enquanto você mesmo é assim. E quando você estiver entrando na vida adulta, sofrendo com a luta por um emprego e as responsabilidades da vida, ver que seu herói está passando pelos mesmos problemas. Isso seria fantástico.

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Legado

Querendo ou não, precisamos ser realistas. O Homem-Aranha jamais vai morrer, porque sua marca vende. Assim como a marca do Homem de Ferro e dos Vingadores. Então, basta centrar em uma ideia específica: passagem de manto e construção de legados.

Assim que Tony Stark estiver velho demais para usar uma armadura, deixe ele passar isso para alguém de confiança. Ou então deixe a marca em suspensão por algum tempo, e anos depois, faça um personagem específico descobrir os segredos do Homem de Ferro e passar a ser um novo Vingador Dourado.

Dessa forma, a empresa poderia permanecer apegada às suas marcas e franquias, porém, sem fechar a cara pro novo e inovador.

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Domínio do artista

É engraçado como os fãs de HQs esquecem, comumente, de peças centrais para a trama: os artistas. Muitos fãs adoram tal fase dos Vingadores logo após A Queda, e se esquecem que a mente por trás dela é a de Brian Michael Bendis. Ou então adoram a mais recente leva de revistas do Demolidor, sem se dar conta que foi Mark Waid que fez o título ter tanto sucesso.

Com essa ideia de amadurecimento dos heróis e vilões, poderíamos ter um reconhecimento maior dos artistas, tendo em vista que eles seriam responsáveis por todo um período da vida de determinado personagem, e não apenas "mais uma fase".

Os autores - e desenhistas, afinal, não devemos esquecer deles - teriam inclusive uma maior liberdade para criar em cima dos seus heróis, levando-os para situações distintas - lembre-se que, com a adoção dessa veia criativa, seria muito mais fácil criar algo que fosse novo e não tivesse sido explorado antes.

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Resolvendo a questão temporal

Por mais que você tente, e faça esquemas, cálculos, organizadores de pensamento, é virtualmente IMPOSSÍVEL encontrar lógica e sentido na linha temporal das HQs da Marvel. Estamos em pleno 2015 e atualmente, temos personagens criados em 1962 - e com 15 anos na época - com míseros 28 anos.

Isso sem contar os inúmeros retcons que precisam ser feitos para que algumas origens de personagens façam sentido - Homem de Ferro e a Guerra do Vietn... Afeganistão. Fazer heróis e vilões envelhecerem com o público resolveria imediatamente essa questão, de modo que eles seriam automaticamente influenciados por acontecimentos do mundo real, sem a interferência de anos de delay cronológico.

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Evolução pela evolução

Se tudo isso levantado aqui individualmente não faz sentido, então, tente analisar tudo em conjunto. E levantemos mais uma consideração final: o mundo evolui. Em cinquenta anos, ninguém ainda se cansou dos heróis como o são nas HQs. Mas quase aconteceu, em meados dos anos 90, quando a Marvel ia perdendo cada vez mais leitores.

O boom do cinema, de certa forma, cooperou para que ainda tivéssemos leitores fiéis e que conseguissem sugar o máximo dos quadrinhos atuais. Porém, o cinema é um veículo midiático de fases, de modo que, assim como o western e o filme noir caíram no esquecimento, o "gênero" de super-heróis um dia também irá cair. E o que restará para os quadrinhos?

Se a Marvel (e não apenas ela) não começar a investir forte em histórias boas e cada vez mais diferentes, o público atual irá continuar se desinteressando, e as gerações seguintes, com o tempo, acabarão deixando de lado a leitura de quadrinhos da editora, e os riscos da falência dessa vez serão ainda maiores, tendo em vista que até mesmo o cinema não será o suficiente para prover uma âncora financeira digna.

Precisamos de (r)evolução, e precisamos já!

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Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Demon to some... angel to others (ele/dele) || @gus_fiaux