Crítica: O Menino e a Garça reflete com apatia e paixão sobre o legado do Studio Ghibli

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Crítica: O Menino e a Garça reflete com apatia e paixão sobre o legado do Studio Ghibli

Por Gabriel Mattos

Poucos estúdios de animação ao redor do mundo têm uma assinatura tão marcante quanto o japonês Studio Ghibli. Co-criado por Hayao Miyazaki, seus artistas trabalham quase como em um ateliê, esculpindo com calma e esmero uma obra de arte com um toque artesanal e características bem marcantes. Com o tempo, o público aprendeu o que esperar de um filme com a marca Ghibli. E O Menino e a Garça, novo filme do estúdio indicado ao Oscar de Melhor Animação, entrega exatamente isso — Ghibli em sua mais pura essência.

Ficha técnica

Título: O Menino e a Garça (Kimitachi wa Dō Ikiru ka)

 

Direção: Hayao Miyazaki

 

Roteiro: Hayao Miyazaki

 

Data de lançamento: 22 de fevereiro de 2024 (Brasil)

 

País de origem: Japão

 

Duração: 2h 4min

 

Sinopse: Um menino chamado Mahito, em luto pela perda de sua mão, se aventura em um mundo compartilhado entre os vivos e os mortos. Lá, a morte chega ao fim, e a vida encontra um novo início.

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O estilo Ghibli de fazer filmes

Bastam poucos minutos encarando verdadeiras pinturas em movimento no escuro do cinema para ser transportado para aquele estado de espírito leve e reflexivo tão único dos filmes do Studio Ghibli. Muitos tentam replicar o místico estilo de suas produções, mas falham em entender que o charme desses filmes está muito além da estética — tem mais a ver com a alma do projeto.

Em O Menino e a Garça, assim como As Memórias de Marnie e todas as animações que vieram antes, a primeira coisa que fisga é o visual quase artesanal, raro em projetos de grande orçamento da indústria moderna. Há um uso aqui e ali de animação tridimensional, mas apenas como um suporte para um traço mais autoral dos animadores. Essa estética, que praticamente congelou no tempo, resgata a atmosfera nostálgica dos animes produzidos nos anos 80 — década em que o estúdio debutou com O Castelo no Céu. Porém, o diretor não teria construído uma carreira tão celebrada se seus filmes se sustentassem apenas em um visual charmoso e não entregassem substância. O que realmente encanta é a genialidade de seu roteiro.

Seguindo o caminho oposto do que a animação ocidental prega, esses animes contemplativos se desprendem da obrigação de preencher cada segundo de tela com algum grande acontecimento. Uma espécie de espaço negativo narrativo, que permite que a interpretação do público se manifeste entre cenas. É enxergar beleza nas pequenas coisas e entender também os momentos em que o melhor a se fazer é deixar o público respirar, viver os seus sentimentos sem pressa, especialmente após uma sequência bastante provocativa. O que não é diferente em O Menino e a Garça. Como em outros filmes do autor, esta é mais uma história que se permitem mergulhar em temas incomuns e deixa o espectador marinar nas emoções de um protagonista introspectivo.

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A trama acompanha a dor e a solidão do menino Mahito, que viu sua mãe perecer em um ataque sofrido por Tóquio na Segunda Guerra Mundial. O jovem passa a morar com a sua tia, a nova esposa de seu pai, em uma comunidade rural afastada de sua vida antiga. E o longa, com todas as suas alegorias extravagantes, explora à exaustão os sentimentos inevitavelmente confusos dessa inocente vítima da guerra.

A história reflete um pouco da própria infância de Miyazaki, que precisou fugir algumas vezes de cidades condenadas por bombardeamentos antes mesmo de completar quatro anos. Sua mãe ficou muito doente quando estava ainda pequeno, o que ecoa com o sentimento de perda e solidão do protagonista. De muitas formas, Mahito é apenas um avatar que o diretor encontrou para falar de seus próprios sentimentos, frustrações e lembranças. E a linguagem escolhida foi o legado do Studio Ghibli.

Muitas cenas, enquadramentos e personagens remetem diretamente a trabalhos antigos do próprio diretor e de seus colegas de estúdio. Mais que meras referências, essas retomadas propõe uma certa intertextualidade entre os filmes, propondo uma reflexão conjunta em seus significados, como se um complementasse o sentido do outro. Meio o que a Disney tentou fazer em Wish: O Poder dos Desejos e falhou majestosamente.

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A sequência inicial do incêndio, por exemplo, tem fortes semelhanças com o início de Vidas ao Vento, outro filme de Miyazaki que comenta o peso da guerra. No mundo fantástico, a guerreira que acompanha Mahito lembra Princesa Mononoke, especialmente a sua relação com espíritos inocentes. A dama do fogo, Himi, captura o espírito revolucionário de O Castelo Animado. E a sociedade de periquitos antropomórficos espelha os felinos de O Mundo dos Gatos.

Reunir tantas imagens familiares acaba minando um pouco o senso de novidade da produção. Ultrapassa o sentimento de nostalgia e fica um estranho gosto de repetição. Estranho, mas não necessariamente ruim. Como o grande Hitchcock diz: “repetição com consciência é estilo”. E o que o diretor demonstra é uma plena maestria do estilo Ghibli para contar sobre a sua relação conflituosa com seu próprio legado e com o estúdio que ajudou a co-fundar.

Há um imagético que se repete bastante ao longo da trama de uma horda de dezenas de animais lentamente sobrepujando Mahito, sufocando o menino, e ele aceitando seu destino sem fazer nada até ser salvo por alguém. E é meio assim que o Miyazaki se sente com as expectativas não só do público, mas especialmente da indústria sobre a sua arte. Sempre precisando entregar o trabalho mais impressionante e autoral de sua carreira a cada nova produção, só que ao mesmo tempo precisando correr com prazos e uma rotina anticriativa.

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O mundo fantástico, desta vez, além da literal representação da terra dos mortos proposta pelo filme, funciona também como uma representação física do legado de Miyazaki – do próprio Studio Ghibli. Este universo em que criou com a ajuda de seus amigos, que estão representados no filme sob a figura da Garça, e que depositou todos os seus sonhos e esperanças ao longo do tempo. Um lugar em que conseguia expressar e ser vulnerável, mostrando partes do seu passado como em Meu Amigo Totoro, até ser corrompido pela ganância do corporativismo, resultando em filmes sem alma como no fracasso de crítica e público Aya e a Bruxa. O próprio desfecho indica que o diretor acredita que não encontrará um sucessor para suas ideias, o que converge com suas falas céticas em muitas entrevistas.

No documentário O Reino de Sonhos e da Loucura, de 2013, gravado durante a produção de Vidas ao Vento, o cineasta expõe a sua visão cínica da indústria de animação. Nas palavras do autor, o progresso amaldiçoa todos os sonhos e a produção de cinema não é uma exceção. Ele questiona até se ainda é possível fazer filmes que façam alguma diferença no mundo podre de hoje. E O Menino e a Garça sequer pretende mudar algo no mundo. O longa é um desabafo de um criador cansado de sua criatura. Da forma mais bonita possível, por mais contraditório que pareça.

Essa apatia está presente até na forma em que o protagonista encara os demais personagens. Mahito não cria uma relação muito emotiva com a maior parte do elenco, salvo poucas exceções. Parece até que falta emoção no filme. E de certa forma não deixa de faltar. Não por desleixo, mas intencionalmente. É uma forma de encarar e refletir sobre esses personagens, que tanto refletem seu legado, com uma certa distância. Tentar enxergá-los pelo que realmente são e aceitá-los por isso.

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O Menino e a Garça é um daqueles filmes que precisa ser visto repetidas vezes para entender todos os seus elementos. Existem muitas interpretações, muitas camadas, muito cuidado dedicado a cada sequência que torna essa história uma grande celebração de tudo que o Studio Ghibli fez até então. Para quem nunca acompanhou o trabalho do estúdio, é uma forma de conhecê-lo em sua mais pura essência. Para quem já era apaixonado pelo legado do ateliê japonês, esta é a carta final de amor e ódio deixada por Hayao Miyazaki.

Nota: 5/5

Nota: 5/5

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