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Stranger of Paradise: Final Fantasy Origin conquista com carisma e muito caos

Por Melissa de Viveiros

Stranger of Paradise: Final Fantasy Origin chegou com uma proposta diferente: trazer um tom mais “sombrio” para a franquia da Square Enix. A atmosfera dark e o protagonista sério, no entanto, não impediram o game de cair na boca do público mais pelo meme do que pela seriedade.

E, no fim, esse é precisamente o tom que faz Stranger of Paradise se destacar. Ainda que tenha seus problemas (e alguns são consideráveis), o jogo proporciona horas de puro entretenimento para quem se deixar levar pela jornada.

Ficha Técnica

Título: Stranger of Paradise: Final Fantasy Origin

Desenvolvedora: Team Ninja

Distribuidora: Square Enix

Plataforma: Xbox One, Xbox Series X|S, PlayStation 4, PlayStation 5 e PC (Windows)

Lançamento: 18 de março de 2022

Gênero: RPG de Ação

Tradução para o Português: Não

Modos: Single-player, multiplayer (online)

Jack, o protagonista de Stranger of Paradise.

A história de um homem bravo

Antes mesmo de sua estreia, Stranger of Paradise se tornou um título comentado não por celebrar os 35 anos da franquia Final Fantasy, ou mesmo pela expectativa gerada. A conversa ao redor do game resultou principalmente dos memes, seja pela repetição de Chaos dita nos trailers, pelo clima que parecia tentar demais ser sério, ou mesmo os comentários de Tetsuya Nomura sobre essa ser “a história de um homem bravo”.

Finalmente lançado em março, a experiência completa do jogo mais se beneficia dessa ideia do que é prejudicada por ela. Pode parecer uma crítica dizer que um jogo que tenta se levar tão a sério é legitimamente engraçado, mas definitivamente não é. Sem querer, o título consegue arrancar risadas e proporcionar horas de diversão farofa.

A trama tem como personagem principal o dito homem bravo, chamado simplesmente de Jack. Aparecendo no reino de Cornelia sem memória de seu passado, tudo que ele sabe é que seu propósito e motivo de viver é nada menos que matar o Caos. Para completar essa missão, ele logo se une a dois outros supostos Guerreiros da Luz, Jed e Ash. Se provando para o rei, eles partem em uma missão para purificar os cristais que regem a ordem natural do mundo e restaurar o equilíbrio, acabando com as trevas. Em meio a isso, eles acabam trabalhando com outros personagens, como Neon, Sophia, a Princesa Sarah e Astos.

Astos, um dos personagens do game, deve ser um nome conhecido para os fãs de Final Fantasy I.

Os fãs de longa-data da franquia, em particular do primeiro Final Fantasy, devem ter notado vários nomes familiares. De fato, a premissa de Stranger of Paradise é, de certa forma, ser uma releitura do título original. E esse é um dos pontos mais fortes do game, que revisita essa história com uma nova perspectiva e a leva para um caminho que, apesar de não ser surpreendente, te deixa curioso a cada passo antes de terminar de modo bem satisfatório.

Com diálogos longe da profundidade, o game conta com momentos marcantes (alguns vistos nos trailers), como quando seu protagonista, Jack, deixa uma cena dizendo apenas “Bullshit.” antes de colocar Limp Bizkit para tocar em seu telefone. São cenas hilárias pelo absurdo, ainda mais colocadas nesse contexto supostamente sério, o que torna tudo ainda melhor.

Todo mundo só quer matar Chaos.

De certa forma, a melhor comparação para o tom do jogo não parece ser encontrada no mundo dos video games. O que é feito aqui é o mesmo que Venom, da Sony, fez nos cinemas: é uma trama que parece se levar a sério, parece querer ser sombria, mas sem querer ultrapassa isso para se tornar entretenimento puro e simples

É isso que faz com que reviravoltas previsíveis, diálogos risíveis e uma trama longe de profunda sejam incríveis apesar de destoarem da suposta seriedade do game. As conversas bobinhas do grupo, as reações mal-humoradas de Jack, ou mesmo as escolhas idiotas de alguns personagens acabam proporcionando uma jornada extremamente divertida, que passa rápido conforme você explora mais desse universo.

Uma celebração de Final Fantasy

Como mencionado, o game foi lançado em comemoração ao aniversário de 35 anos da franquia. Mas, além disso ser refletido na releitura do primeiro Final Fantasy, isso acaba sendo refletido de outros modos, como a inclusão de mapas retirados de cada um dos 15 jogos lançados até agora.

Algumas das escolhas nesse sentido são meio questionáveis, a exemplo da escolha de Sastasha para representar Final Fantasy XIV. Outras, porém, são extremamente certeiras, como a Crystal Tower sendo o cenário retirado do terceiro game da franquia. No fim, todos foram adaptados para a visão de Stranger of Paradise, mas fica claro um carinho pela série, e a tentativa de homenageá-la.

Crystal Tower foi um dos vários cenários recriados para homenagear a franquia no game.

Outro elemento notável nesse sentido vem na parte mecânica, com a disponibilização de várias classes icônicas da série e a possibilidade de trocar entre elas ao longo do game. O jogo não só encoraja o jogador a constantemente mudar de job, como consegue fazer com que você queira melhorá-las até desbloquear todas.

Uma pena que a recompensa em si não seja tão notável quanto o sistema. As classes “finais”, que exigem que várias outras sejam upadas, são progressões decepcionantes do que se tem no começo. As mudanças são poucas, pequenas, e não justificam a dificuldade de chegar a esses jobs.

Isso, porém, não muda que o processo para atingir esse objetivo em si é bem feito. Não é difícil liberar todas as classes, sendo possível liberar todas jogando uma única vez. E jogar em si é muito divertido, seja na dificuldade casual ou no modo Chaos. Os jobs permitem variedade por meio de suas habilidades, com o ritmo acelerado deixando tudo mais dinâmico e valorizando a capacidade do jogador de acordo com a dificuldade. 

Os probleminhas técnicos

Neon estava precisando de um colírio, mas passa bem.

Apesar de suas qualidades, Stranger of Paradise também conta com um bom número de problemas. Quem espera gráficos espetaculares certamente ficará decepcionado, e mesmo no PS4, o jogo não é tão bonito quanto poderia ser. Além disso, não é difícil encontrar problemas de performance, bugs, ou mesmo que o jogo pare de funcionar completamente.

Contando com duas opções, é possível jogar no Modo Performance ou no Modo Resolução. O primeiro favorece o funcionamento do jogo, mas deixa seus visuais horrendos, com bordas serrilhadas e a definição muito mais baixa.

Resolução baixa deixa jogo com visual “embaçado” no Modo Performance.

Já o Modo Resolução, mesmo não sendo tão ruim visualmente, apresenta quedas de FPS a todo momento. Seja em combate ou diálogos, é frequentemente perceptível a dificuldade do jogo de funcionar sem “engasgar”.

Cena no Modo Resolução.

Vez ou outra, é possível se deparar com problemas como inimigos presos em paredes, ou crashes, quando o jogo encontra um erro e é finalizado inesperadamente. No meu caso em particular, também tive problemas com uma habilidade específica de White Mage, que fazia com que o jogo fechasse ao tentar equipá-la. 

Em aspectos menos técnicos, uma escolha questionável são as recompensas do jogo. Qualquer coisa resulta em inúmeras peças de equipamento sendo recebidas como recompensa – o que logo deixa o inventário excessivamente cheio. 

Além de impedir que o jogador avalie o que acha melhor sem perder um tempo enorme, é preciso jogar fora equipamento a todo tempo. O problema claramente não passou despercebido pelos desenvolvedores, que incluíram uma opção de “desfazer” o equipamento automaticamente. Infelizmente, a opção fica escondida no menu, e mesmo após descobrir que a função existe é preciso atualizar o nível do equipamento a ser destruído constantemente para que isso seja útil.

Opção de atualizar o equipamento automaticamente facilita as coisas, mas ressalta problema da quantidade excessiva de itens.

As missões secundárias também não apresentam nada demais, se resumindo a enfrentar chefes ou refazer fases de modos diferentes. Para quem gostou muito da jogabilidade, pode ser um meio interessante de passar o tempo. Mesmo assim, é algo que logo se torna repetitivo e cansativo, apresentando uma falta de inspiração que não é tão evidente em outros elementos do game.

No fim, esses problemas estão longe de tornar o título “injogável”. Ainda assim, são problemas que não passam batido, e podem incomodar aos mais exigentes.

Nota: 8/10.

Stranger of Paradise: Final Fantasy Origin é uma experiência divertida, que consegue equilibrar a nostalgia e celebração da franquia da qual faz parte sem depender somente disso, podendo ser aproveitado por fãs de longa-data tanto quanto por novatos. Apesar de problemas de performance e escolhas questionáveis em alguns pontos, o game conta com jogabilidade divertida e uma história que traz o melhor do entretenimento farofa. Mesmo que as peças que compõem o todo não sejam as mais refinadas, o resultado final do conjunto é surpreendentemente bom, tornando o título apropriadamente caótico do melhor modo possível.

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sobre o autor Melissa de Viveiros

Editora. Graduanda em Letras na UFMG. Elfa noturna em Azeroth, Au'Ra em Eorzea, apoiadora da Casa Martell em Westeros, LoLzeira noxiana e grisha etherealki. Fã de coisas demais e sempre hiperfocada em algo diferente. || @windrunning_