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Review: Shin Megami Tensei V faz 80 horas (ou mais) passarem voando

Por Márcio Jangarélli

Shin Megami Tensei é uma dessas franquias sensacionais de JRPG que são apagadas no ocidente. Desenvolvida pela Atlus, SMT é a saga-mãe de Persona e mais alguns games derivados que não chegaram ao mercado americano. Todos esses jogos compartilham uma temática psicológica-mítica, trabalhando conceitos profundos como crença, poder, escolha e mudanças, além de dividirem estilos similares e a mesma galeria de “demônios”.

Nos últimos anos, SMT ganhou mais notoriedade por aqui, especialmente pelo impacto que Persona 5 teve no mercado ocidental. Assim, só em 2021, dois games da saga original foram lançados: o remaster do clássico Shin Megami Tensei III: Nocturne e o mais novo capítulo da franquia, Shin Megami Tensei V. Isso sem contar a estreia de Persona 5 Strikers, mais no início do ano.

Enquanto o remaster de III: Nocturne chegou bem morno, Shin Megami Tensei V trouxe tudo de melhor que esse universo arrepiante pode oferecer. Demoramos um pouco para analisar o game, afinal foram cerca de 80 horas+ para finalizar, mas chegou o momento de entendermos o que torna esse título tão bom e, de acordo com a opinião deste redator, o melhor JRPG/RPG de 2021.

FICHA TÉCNICA

Título: Shin Megami Tensei V

 

Desenvolvedora: Atlus

 

Plataformas: Nintendo Switch

 

Lançamento: 11 de Novembro de 2021

 

Gênero: RPG

 

Linguagem: Inglês e Japonês

 

Tradução para o Português: Não

 

Modos: Single player

O intrigante conto do Nahobino

No Submundo, o Herói Sem Nome se torna um Nahobino, um ser praticamente divino, ao se fundir com um demônio

Poucas franquias na indústria dos jogos carregam uma identidade tão original e cativante quanto Shin Megami Tensei. Até quando diluída em algo mais pop e divertido – como em Persona – SMT possui essa aura meio macabra, meio cômica, inteligente e absurdamente épica que você não encontra em outro lugar. 

Shin Megami Tensei V, o novo capítulo da saga original, foi lançado no final de 2021 e pegou muita gente de surpresa. Isso porque muitos fãs não esperavam que o game do Nahobino seria o melhor da franquia principal até então. Ele traz o auge de SMT em jogabilidade, roteiro, construção e exploração de mundo, progressão e deve agradar novatos e veteranos desse universo.

Veja bem: o último game da saga SMT, Shin Megami Tensei IV: Apocalypse, foi lançado para Nintendo 3DS, em 2016, e, mesmo muito bem recebido, era considerado uma queda para a franquia, saindo dos consoles para se tornar portátil. Felizmente, o novo título funcionou como um retorno triunfal de SMT, se tornando o maior jogo da franquia depois de 30 anos.

Atlus e Gustav estão sentados no ouro depois de SMT V

E se você dá uma chance para o game, é fácil entender o que fez dele esse sucesso. SMT V é descrito como uma mistura do III: Nocturne e do IV: Apocalypse, mas é também o resultado do aprendizado da Atlus com Persona 5. Esse é um jogo mais “acessível” para o público, onde todas as temáticas, peso e dificuldades dos anteriores foram diluídas de forma que ele não perde, mas enriquece os núcleos da franquia, os tornando mais palatáveis.

Para entender isso melhor, é preciso saber que SMT é uma saga grandiosa, mas difícil. Se você vai jogar o III: Nocturne achando que é algo como Persona 5, o game vai te fazer chorar sangue. São sistemas de escolha e estratégia dificílimos, uma história densa, complexa, muito interna e temáticas extremamente polêmicas para o ocidente, especialmente quando falamos sobre crença. É quase como se você jogasse na abertura do anime de Death Note, mas elevado a 10ª potência.

Dessa forma, dizer que, até então, Shin Megami Tensei não era pra todo mundo, mesmo dentro do nicho JRPG, não era um exagero. E o grande acerto de SMT V é exatamente tornar esse universo simpático para um público amplo, sem perder a essência da série.

Aogami é o seu companheiro demônio no game

A história aqui segue o Protagonista Sem Nome que se vê, misteriosamente, em um universo apocalíptico povoado por demônios e anjos. Coisas estranhas estavam acontecendo em Tóquio e possivelmente uma delas levou ele e alguns de seus colegas colegiais para o “Netherworld” (Submundo), que parece uma versão devastada da cidade original.

Ali, o protagonista é atacado por monstros logo de cara e é salvo por Aogami, um demônio da raça Proto-Fiend, que se funde ao rapaz, transformando os dois em um ser chamado Nahobino. Com os poderes e a ajuda do novo aliado, o herói segue explorando as ruínas para entender onde está – ou quando. 

A questão é que a nova narrativa é tão cativante, profunda e detalhada quanto as anteriores, mas traz um ritmo diferente e um conteúdo mais detalhado. Eu diria até que é mais bem-sucedida que as passadas, quando o Nahobino é menos vazio que seus antepassados graças à consciência do Aogami. Dessa forma, suas escolhas ao longo do game se tornam mais simples, confiantes e você se interessa mais pelo conflito em andamento.

Isso não significa que o game se podou ou que não tem nada para os fãs de longa data. Existem referências, mistérios, personagens e momentos que ganham mais peso se você já conhece a saga, que levantam dúvidas e teorias sobre conexões entre o V e os jogos anteriores. Mas nada disso prejudica quem chegou agora.

SMT V fala sobre a busca por “completude” dos demônios do Submundo

Também, a coragem do roteiro permanece, trabalhando crença e poder de uma forma até mais explícita, em certos casos. As voltas e reviravoltas do jogo são violentas, os caminhos são intrigantes e por mais que seu destino final esteja definido desde sempre, você vai querer saber como chegar lá e o que vem depois.

É importante notar que esse não é só o maior sucesso da franquia até então, mas o maior game em si. O universo de SMT V é imenso, curioso e divertidíssimo de se explorar. O jogo te dá boas justificativas para se aventurar pela Tóquio pós-apocalíptica em um mundo que não é “aberto”, mas dividido por regiões. Isso ajuda a guiar o jogador de uma maneira mais eficiente, sem restringi-lo ao clássico mapa linear.

Outro aspecto importante dessa “abertura” de SMT são as mudanças no combate. Ainda não é a batalha mais simples que você vai encontrar em um JRPG, mas ela nem precisa ser. A progressão do game te ensina de forma muito tranquila a evoluir suas habilidades, te incentiva a trocar seus demônios e te faz sempre prestar atenção em fraquezas e vantagens. O jogo não elimina nenhum de seus traços clássicos para facilitar as coisas, mas gera uma evolução muito mais confortável e eficiente para os jogadores.

Os cenários de SMT V são um espetáculo, mostrando uma versão desolada de Tóquio

Se isso não for o suficiente, SMT V é um game absurdamente bonito. Claro, estamos falando de um exclusivo de Switch, criado pela Atlus. Isso significa que gráficos definitivamente não são o ponto mais alto da obra. No entanto, dentro das possibilidades, a direção artística do jogo é belíssima e te faz ficar apaixonado por vários cenários, criaturas e personagens. 

É um visual imersivo, épico, muito característico dos jogos anteriores, mas com sabor de evolução. Ele traz aquela assinatura da Atlus, mais anime e de texturas lisas, mas é impressionante o que a desenvolvedora fez, especialmente pelo tamanho digital do game e a plataforma escolhida.

Falando em assinaturas, outro acerto é a trilha sonora. Longe do jazz de Persona, e adicionando batidas eletrônicas ao gótico dramático de III: Nocturne, SMT V é mais sociável aqui: o game traz uma trilha moderna, eletrizante e facilmente reconhecível, mas faz isso sem perder todo o tom teatral e operesco de seus anteriores. Ainda é um som violento e grandioso, mas é melhor dosado, essencial para a imersão e ritmo do jogo.

Essa “simplificação” do game vem em grande parte pelo Aogami, que serve de guia para o jogador e está sempre na sua cabeça

O único problema de Shin Megami Tensei V  é uma mistura de título e plataforma. Não é segredo que o Switch limita a capacidade de alguns games, ainda que seja excelente para outros tipos. Dessa forma, às vezes parece que SMT V estava exigindo demais do console, às vezes era notável que quedas de frame e alguns problemas de animação vinham do próprio jogo. 

Não é nada que atrapalhe na experiência final, mas você encontra tantas coisas legais enquanto joga que fica aquele sentimento de “queria ver isso na melhor qualidade possível”. Quem sabe no Shin Megami Tensei VI, né?

Nota: 9,5/10

2021 foi excelente no mercado dos JRPGs e a chave de ouro foi finalizar o ano com Shin Megami Tensei V. Ele possui tudo de melhor que o gênero pode oferecer e mais. É divertido, viciante, curioso, épico e original. Audacioso, mesmo com 30 anos de franquia e a tentativa de apelar para um novo público.

Difícil não avaliar bem, né? Para a Legião, Shin Megami Tensei V leva nota 9,5 de 10, por abrir as portas de uma franquia tão interessante para um novo público e melhorar todos os aspectos dos jogos anteriores.

E aí, já conhece a franquia Shin Megami Tensei? Qual seu game favorito? Não esqueça de comentar!

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sobre o autor Márcio Jangarélli

Assessor, redator e jornalista. Madonna de Jakku.