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Mangáteca Comunitária Dicria: Conheça o projeto do Anime DICRIA que levou os mangás para o Morro do Fallet, no Rio de Janeiro

Por Flávia Pedro

No último sábado (09), aconteceu no Morro do Fallet, no Rio de Janeiro, a inauguração da Mangáteca Comunitária Dicria. Sabendo do poder transformador da leitura, o projeto quer despertar o gosto das crianças de regiões periféricas da cidade facilitando o consumo das histórias mais populares da cultura japonesa. O movimento que começou na página do Instagram, o Anime Dicria, ganhou vida nas favelas do Rio. Conheça tudo sobre esse projeto e inauguração do espaço físico!

Fotografia feita no evento de inauguração da Mangáteca Comunitária Dicria

Infelizmente o hábito de leitura não é algo tão comum em nosso país. Mas esta realidade é ainda mais alarmante quando fazemos recortes sociais e direcionamos o debate para as periferias.

Se os livros tradicionais sofrem para ganhar espaço nas comunidades, mangás e histórias em quadrinhos são ainda mais escassos. E fica difícil encontrar um único vilão, pois muitos fatores atravessam essa discussão — a falta de conhecimento dos conteúdos, dificuldade de acesso a cultura, valores elevados e etc.

Se você é um consumidor de mangás no Brasil, sabe como ter sua coleção não é uma tarefa fácil. Principalmente em relação aos custos, que em 2022 sofreram aumentos drásticos pelas principais editoras brasileiras. Esse fator restringe o acesso e dificulta cada vez mais que pessoas da periferia tenham acesso a essa opção de lazer.

Artes retiradas do Instagram @animedicria

Assim, muitas histórias de perseverança, de heróis improváveis e amizade poderosas deixam de alcançar um público que só teria a ganhar ao conhecer estes universos fantásticos. Mais que escapismo, as histórias dos mangás podem inspirar pessoas a persistirem na luta. Enxergando esse potencial, que surgiu a página no Instagram chamada Anime Dicria.

O que é o Anime Dicria?

Artes retiradas do Instagram @animedicria

O Anime Dicria começou como uma página no Instagram criada pelo fotógrafo Edson Cura, morador do Morro do Fallet, na intenção de fazer daquela rede uma válvula de escape criativa em meio ao turbilhão da pandemia e de questões pessoais. Assim, Edson recorreu ao Photoshop para criar artes que introduziam personagens de animes a cenas dos centros urbanos cariocas.

Com o tempo, a página começou a chamar a atenção do público periférico de todos os cantos, especialmente aqueles que gostam de animes e mangás. Finalmente havia um espaço que realmente nos representava, a começar pelo nome, “Dicria“, que é uma alusão a uma expressão super popular das comunidades cariocas.

Aos poucos o Ed começou a formar uma equipe com o auxílio de outras pessoas que estavam dispostas a ajudar o projeto. Hoje em dia,o grupo conta com mais de 15 apoiadores diretos, incluindo esta que vos fala.

Artes retiradas do Instagram @animedicria

Atualmente o Anime Dicria nas redes sociais é uma página com mais de 27 mil seguidores, onde além de as montagens iniciais, também compartilham vídeos com curiosidades sobre animes, resenhas de mangás e informações úteis aos cariocas visualmente interessantes por meio do Jornal Dicria.

Mas Ed ainda queria que seu alcance fosse usado para causar uma mudança mais palpável a sua comunidade. Era preciso dar o próximo passo e, com incentivo dos colaboradores, a ideia de uma Mangáteca começou a germinar.

O que é a Mangáteca?

O projeto da Mangáteca foi oficialmente divulgado no dia 29 de julho de 2021, pela própria página do Anime Dicria. É um espaço físico no Morro do Fallet que disponibiliza mangás, histórias em quadrinhos e gibis para que crianças e adolescente possam ir até o local e ler o que quiserem sem precisar pagar nada por isso.

A inauguração, além da concretização do sonho, também trouxe um espaço que agradou não só as crianças, mas os pais que as acompanharam. Dentro da Mangáteca havia material para que elas desenhassem e depois alguns desses desenhos foram expostos, junto à galeria de artistas que havia sido convidada para expor também.

Essa galeria foi formada por artistas periféricos de dentro e fora do Morro do Fallet, dando espaço para que eles também mostrassem sua arte ao público. Muitas crianças ficaram encantadas ao ver tantas telas de artistas, como você pode ver a seguir:

Fotografia feita no evento de inauguração da Mangáteca Comunitária Dicria

Dentro da Mangáteca, além do desenho, as crianças podiam ler os mangás de acordo com sua faixa etária, jogar em computadores da equipe que ficaram disponíveis para os pequenos, além de interagir com a equipe que se dividiu para atender todas as demandas delas.

Outras opções de lazer também foram disponibilizadas ao longo do evento, como pula-pula, um espaço kids para os menores e campeonatos de video-game com jogos de Naruto. A variedade de atividades lúdicas que ainda tinham uma tênue conexão com o universo dos mangás foi mais uma estratégia para associar leitura com algo prazeroso e divertido.

Fotografia feita no evento de inauguração da Mangáteca Comunitária Dicria

Em diversos momentos foi possível ouvir das crianças falas como:

“Eu vou vir aqui todo dia pra ler, tem as histórias que eu gosto e eu quero ser otaku.”

“Tia, posso arrumar esses mangás em cima da mesa?” Se referindo a alguém da equipe.

“Gostei muito daqui, vou voltar todo dia depois da escola!”

Fotografia feita no evento de inauguração da Mangáteca Comunitária Dicria

A identificação com o espaço, já no primeiro dia, foi tamanha que algumas crianças tomaram a iniciativa de organizar a coleção do seu jeitinho para ajudar as próximas crianças que viriam no futuro. O sentimento de pertencimento a esse mundo que antes só viam com certa distância era palpável. Ver o brilho nos olhos dos pequenos foi gratificante para todos que se voluntariaram na organização do evento.

O evento contou também com uma parceria com o Cozinheiro Lucas Abreu, que preparou alguns clássicos da culinária japonesa para as crianças. De hashi nas mãos, os pratos deliciosos trouxeram uma imersão ainda maior da cultura oriental para os jovens, que puderam se sentir dentro das páginas das suas obras favoritas por um dia. Veja a seguir alguns registros publicados no próprio perfil do Lucas:

As crianças realmente se sentiram à vontade e a Mangáteca não ficou vazia nem por 1 minuto sequer! Aproximadamente entre 50 e 60 crianças passaram pelo local durante às 10 horas de evento e podemos acompanhar todo o processo de curiosidade, atenção e descoberta.

Foi realmente um momento coletivo, onde toda a equipe do Anime Dicria se reuniu pela primeira vez e teve uma interação genuína com as crianças do Morro do Fallet.

Como ajudar

Desde seu primeiro anúncio até os dias de hoje, o projeto já arrecadou em doações mais de 3.000 exemplares entre mangás, livros, HQs e gibis. Isso através de doações dos próprios seguidores da página em grande maioria, que sempre apoiaram compartilhando as informações do projeto e mandando os volumes seja por correio, por ponto de encontro no próprio Rio de Janeiro ou entregando na Mangáteca.

Atualmente o projeto ainda recebe doações de livros dos seguidores da página e todas as informações podem ser encontradas da publicação a seguir:

Se você tiver interesse em doar mangás ou revistas em quadrinho, mas não é do Estado do Rio de Janeiro, basta entrar em contato com a equipe via Instagram que tirarão todas as suas dúvidas sobre onde e como enviar de um jeito simples.

Entretanto, além da campanha de arrecadação, o espaço físico também necessita de estrutura para seu funcionamento. Atualmente o projeto recebeu doações de prateleiras próprias para mangás da Evolukit, mas ainda lida com a ausência de ar-condicionado e acentos para as crianças.

Ainda não é perfeito, mas a determinação em fazer a diferença faz com que o projeto evolua a cada dia. A campanha no CATARSE, para arrecadar fundos para que mantém o projeto em atividade, continua. Com a ajuda dos doadores, aos poucos as dificuldades serão superadas. Todas as informações sobre como dar uma força você encontra a seguir:

Ainda assim, sabemos que para o melhor rendimento é necessário uma estrutura básica de acolhimento e permanência das crianças no local. O projeto está buscando ampliar esses pontos para dar uma melhor experiência ao público que frequentará a Mangáteca.

Futuro e próximos passos

A intenção do projeto a partir dessa inauguração é tornar a o espaço da Mangáteca mais confortável para as crianças, ampliando com mesa, ar-condicionado, cadeiras confortáveis e internet liberada para eles. Outro desejo dos organizadores é catalogar todas as doações para que assim, futuramente as crianças possam levar alguns exemplares para casa também, como um empréstimo de biblioteca.

Fotografia feita no evento de inauguração da Mangáteca Comunitária Dicria

Além disso, o desejo de ampliar o espaço também acontece, pois se trata de uma locação relativamente pequena, mas aos poucos melhorar que mais crianças tenham acesso e, por que não, levar a Mangáteca Dicria para outras comunidades e espaços ao redor do Rio de Janeiro?!

O principal foco do projeto criado através do Anime Dicria é levar acesso à leitura em todas as formas para as crianças que não tem condições de investir nesse tipo de conteúdo. Continuar a fazer isso e expandir é uma meta que a equipe inteira tem buscado incansavelmente e, depois da inauguração, foi possível ver no rosto de cada criança a importância desse projeto.

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sobre o autor Flávia Pedro

Historiadora formada pela UFF e apaixonada por cultura japonesa, animes, mangás, filmes... Criadora de conteúdo no instagram Anime Dicria, viciada em café e leitora de fanfics ruins nas horas vagas. Instagram: fllavia_pedro