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Evangelion: O que é o Projeto de Instrumentabilidade Humana?

Por Junno Sena

Atenção: Alerta de Spoilers!

Entre conceitos filosóficos, psicologia e individualidade, Neon Genesis Evangelion nasce como um anjo durante o Primeiro Impacto. Em outras palavras, destruindo absolutamente tudo ao seu redor. Mas, enquanto para uns, o embate entre EVAs e Anjos se trate do fim, para outros é um renascer de uma humanidade que tem caído em desgraça.

E, encabeçando essa nova era, o Big Bang se torna o Projeto de Instrumentalidade Humana. Mencionado apenas bem à frente da trama do anime, esse plano ambicioso não é tão fácil de se compreender inicialmente. Mas, para conversarmos sobre as intenções da SEELE e NERV, é preciso dar alguns passos atrás.

O que é o Campo AT?

Hexágonos laranjas com o primeiro anjo enfrentado por Shinji no centro

O Campo AT do primeiro Anjo enfrentado por Shinji

Sendo assim, preciso elaborar outro conceito do anime: o Campo AT (Absolute Terror Field, ou Campo do Terror Absoluto). Inicialmente, é explicado que se trata de uma barreira quase impenetrável que ambos, Anjos e Evangelions, podem gerar. Servindo como um campo de força para defesa ou ataque, apenas se pode penetrar um Campo AT com outro Campo AT.

Por esse motivo, os EVAs são imprescindíveis para a luta contra os filhos de Adão. No decorrer da trama, vamos entendendo um pouco mais da funcionalidade desse campo e, até mesmo, é descoberto que todos os seres vivos possuem um Campo AT.

De acordo com Kaworu, é esta força que impede os egos de seres individuais de se tornarem um conjunto. Isto é, uma única entidade. A diferença do Campo AT de um ser humano para o de um Anjo ou Evangelion é que o dessas criaturas é potencializado a ponto de ser facilmente detectável.

O Dilema do Ouriço

A individualidade e solidão são temas recorrentes de Neon Genesis Evangelion

Porém, o que é visto como Campo AT para os cientistas da NERV, é compreendido por Shinji como o Dilema do Ouriço, ou Hedghehog’s Dilemma. Criado por Schopenhauer na obra Parerga e Paralipomena, ele trata da dificuldade dos seres em se aproximar um dos outros sem causar danos um ao outro.

Na parábola de Schopenhauer, os espinhos e a intimidade são o Campo AT. Onde se permitir se aproximar é permitir que essa proteção seja aberta, um processo tanto doloroso quanto reconfortante. Shinji desde seu primeiro momento, se mostrou uma pessoa solitária, procurando o aconchego e aprovação do pai.

Quando inicia sua trajetória em Neon Genesis Evangelion, ele passa por esse processo de se doar e conectar. De se aproximar. Porém, o que para os outros é uma dor comum, para Shinji, é algo insuportável. Motivo pelo o qual o garoto se afasta de tudo durante diversos momentos no anime.

O Projeto de Instrumentalidade Humana

Shinji deitado em um fundo branco, com um traço rabiscado

Shinji questiona o Projeto de Instrumentalidade Humana nos últimos episódios do anime

É nesse ponto que o Projeto de Instrumentalidade Humana tenta suprir as necessidades da humanidade. No original, ele é chamado de Jinrui Hokan Keikaku, que pode ser traduzido literalmente como “Complementation Project”, ou Projeto de Complementação.

Seu plano, então, é utilizar um Campo Anti-AT capaz de destruir o Campo AT de toda a humanidade e torná-lo um único ser. Isso criaria uma existência onde ninguém existiria singularmente, mas como parte de um todo.

No artigo A Representação de Dilemas Morais e Existenciais em Neon Genesis Evangelion, Kaio Felipe traça comparações entre o Projeto de Instrumentalidade Humana com o holismo de Hegel.

“[…] em ambos há a ideia de um sistema como um anel, em que o começo é o fim, e o fim é o começo. É um pensamento ideal, uma ‘auto-realização dos conceitos’, que envolve as contradições e confrontos dinamicamente, integrando-os de forma monística”, explica.

Em outras palavras, transformar o mundo nessa “sopa primordial” é vislumbrar-se em um mundo comunitário. Um que o vazio de cada indivíduo é compensado pelo outro, criando um ser perfeito e completo.

Então esse era o plano da SEELE?

Monolitos negros com números dispostos em um círculo

A SEELE em sua reunião com Gendo Ikari

Esse plano, onde todos são um, é uma tentativa de unir o mundano ao que seria o ser primordial: deus. Não apenas na figura metafórica, mas também na imagem de Lilith, que é quem deu vida à humanidade.

Para a SEELE, atingir esse patamar é a evolução lógica do ser humano, é atingir um grau de divindade. Mas, no anime, não é bem assim o que acontece. Gendo Ikari não parece deixar claro, nem para a NERV ou SEELE, quais são seus intuitos com o Projeto de Instrumentalidade Humana.

Durante a conferência entre Ikari e a SEELE, um dos membros mencionou que tinha planos de usar o EVA como uma “arca”, capaz de impedir que se tornasse parte desse novo ser. Outras mídias sugerem que o intuito da SEELE era criar uma nova ordem mundial, em que eles seriam o centro da criação de uma nova sociedade. Que é o que ocorre com Shinji e Rei durante o Terceiro Impacto.

E qual era o plano de Gendo Ikari?

Gendo de óculos laranja, mãos dispostas no rosto, olhando para frente

Gendo Ikari, pai de Shinji

Mas, se a SEELE não tinha ideia do que estava financiando, Gendo Ikari conhecia todas as etapas de seu plano. Devido aos experimentos com a Unidade 01, o EVA pilotado por Shinji, sua esposa Yui se uniu ao Evangelion.

A conexão neural criada entre Yui e a Unidade 01 destruiu o Campo AT da cientista, tornando máquina e mulher apenas uma entidade. É isso que possibilita a conexão tão intensa entre o EVA e Shinji, uma vez que existe uma ligação posterior ao encontro da criança com o robô: a maternidade. Mas esse vento também é o que motiva Gendo.

Transformar toda a humanidade em uma “sopa primordial” é, invariavelmente, reencontrar a esposa. Mesmo que o encontro não aconteça de forma consciente e nem pelo “ego”, o indivíduo, Gendo acredita que apenas assim descansará ao lado de sua amada.

“Embora oficialmente o objetivo desta organização seja combater os Anjos, este é apenas o método, e não a finalidade dela. Apesar de Gendo parecer ser o vilão de Evangelion, na verdade ele é um personagem tão complexo e frágil quanto os demais”, explica Kaio em seu artigo.

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sobre o autor Junno Sena

Pós graduando em Antropologia com o raio problematizador ligado no 120. Assiste filme trash para relaxar e dorme cantarolando a trilha sonora de A Hora do Pesadelo. Blaxploitation na veia e cinema coreano no coração. Atualmente mora em Petrópolis, RJ.