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Crítica: Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo entrega o verdadeiro caos que o multiverso merece

Por Gabriel Mattos

Doutor Estranho no Multiverso da Loucura, com todos os seus méritos e deméritos, foi muito contido na hora de explorar as possíveis realidades alternativas e a insanidade natural desta ideia. De certo modo, não entregou aquilo que prometeu bem no título, diferente do novo filme co-produzido pelos Irmãos Russo, Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo, que é tão caótico quanto o nome sugere.

Ficha técnica

Título: Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo (Everything Everywhere All at Once)

 

Direção: Daniel Kwan, Daniel Scheinert

 

Roteiro: Dan Kwan, Daniel Scheinert

 

Data de lançamento: 23 de junho de 2022 (Brasil)

 

País de origem: Estados Unidos

 

Duração: 2 hr 19 min

 

Sinopse: Uma ruptura interdimensional bagunça a realidade e uma inesperada heroína precisa usar seus novos poderes para lutar contra os perigos bizarros do multiverso.

Pôster nacional de Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo.

Em meio ao mais absoluto caos

A trama acompanha a história de uma chefe de família, Evelyn (Michelle Yeoh), que carrega o peso de resolver tudo dentro de casa ao mesmo tempo — o comodismo de seu marido, a teimosia de seu pai idoso e a rebeldia de sua filha adolescente. Sem falar nos clientes chatos de sua loja falida, nos problemas com impostos e outras chatices da vida adulta. Mas sua história muda de repente quando ela descobre ser a chave para impedir a destruição de todo o multiverso.

Deste ponto em diante, o longa se transforma em um verdadeiro surto, do tipo mais gostoso de se ver. A direção disseca o conceito de realidades alternativas e explora de todas as frentes possíveis — tudo, em todo lugar, ao mesmo tempo. Qual é a implicância de saber de tudo que poderia ter acontecido em sua vida? Como é estar ciente dos sentimentos de sua versão de todo lugar alternativo? E como uma pessoa mudaria depois de viver isso ao mesmo tempo?

Sem pressa, o filme é dividido entre estas três partes e toma seu tempo para que o espectador saiba exatamente de que perspectiva interpretar cada segmento sem ficar perdido. Funciona como um fio condutor para manter o foco quando as imagens na tela te puxam para todos os lados de uma só vez, propondo uma situação mais criativa que a outra.

A luta é tão gostosa de assistir sem pesar o clima, mantendo sempre o humor lá no alto.

Essa genialidade toma forma em cada aspecto da produção, especialmente nas cenas de ação. As lutas são insanas, absurdamente de outro nível, e carregam uma coreografia tão engraçada, limpa, leve e impactante que evocam sem dúvidas os melhores trabalhos de Jackie Chan. E conforme o filme avança, e o público aprende a esperar o inesperado, o surto vai evoluindo a níveis gritantes. Nada está fora dos limites e tudo pode acontecer.

Chegar neste estado mental de suspensão de descrença em que você, como público, realmente está aberto a qualquer maluquice é um caminho sem volta. O filme pode te jogar pessoas com dedos de salsicha em um momento super dramático que você comprará a ideia. Quanto mais os diretores extrapolam nas doideiras, mais fácil fica aceitá-las e o filme se permite brincar com as possibilidades mais bizarras e intrigantes já imaginadas.

Mas o fascinante é perceber que o tom animado e confortável construído pela ação e humor cativa o público, permitindo que o roteiro mergulhe em questões filosóficas profundas sem ficar maçante. Cada troca de diálogo entre a heroína e a vilã explora conceitos cada vez mais desconfortáveis — uma grande batalha entre a filosofia niilista e existencialista — provocando os limites do próprio público. A arte tem essa função de provocar e o longa consegue trazer essa discussão sofisticada sem parecer pedante.

Conceito de multiverso ganha novas dimensões ao longo da trama.

Parte disso vem do enredo afiado, que traz falas tão diretas e honestas entre os personagens que você fica se questionando se veio de um lugar de fã ou hater. É nas entrelinhas das farpas trocadas que surge o questionamento sobre o lado mais cético e cru da condição de existir, sem largar mão de apontar os paradoxos da relação humana.

Talvez essa seja a maior força do filme: encarar qualquer questão de frente, sem ceder a nenhum pensamento, por mais doloroso que seja. E fazer tudo com um sorriso, com uma piada, com uma situação inusitada que vai te fazer rir do ridículo. A aleatoriedade da vida cotidiana por si só é ridículo, algo que é captado bem pelos diretores Daniel Kwan e Daniel Scheinert, que fizeram um trabalho verdadeiramente fantástico e eficiente.

A grande lição é que um filme não precisa se levar a sério para ser levado a sério. Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo consegue discutir questões absurdamente complexas de filosofia e psicologia sem comprometer sua irreverência. É a prova de que um filme não precisa ser chato para ser significativo, algo que tanto filmes cults quanto blockbusters ainda precisam aprender.

Filme não deixa de ser profundo por ser bobo.

O segredo está no orçamento mediano típico de uma produção independente. Sem ter rios de dinheiro a sua disposição, os produtores são obrigados a pensar em soluções mais inteligentes, ao invés de depender de efeitos visuais caros para toda e qualquer situação. A escassez de recursos abre espaço para soluções visuais interessantes, que incorporam adereços inusitados e uma montagem competente.

Mesmo nesta realidade em que tudo beira o ridículo e o incompreensível, o elenco segue entregando uma atuação de altíssimo nível, sem pestanejar nas situações mais extravagantes. Até os personagens mais satélites, como o pai feito por Ke Huy Quan, o avô de James Hong ou a irritante personagem de Jamie Lee Curtis — todos tem seu momento de brilhar e impressionar.

Todas essas tramas pessoais engrandecem o enredo principal, quase como rios distintos desaguando em um mesmo oceano. E entre estas correntezas, o grande destaque fica mesmo para a dupla principal: Michelle Yeoh e Stephanie Hsu.

Elenco competente se transforma a cada novo surto do filme.

A história só funciona porque ambas estão entregando o máximo de si — elas realmente confiam neste roteiro. A intensidade que entregam como mãe e filha carrega a credibilidade da trama nas costas. Elas trazem um leque absurdo de sentimentos com uma sutileza capaz de tocar qualquer um.

O sentimento é palpável, mesmo que alguma coisa insana esteja acontecendo na tela. E é na poderosa conexão entre Yeoh e Hsu que a complexa batalha entre visões de mundo — do niilismo, onde nada importa; ao existencialismo, em que os prazeres dão significado à vida — se transforma em um delicado drama familiar.

Ao despir o longa de todo espetáculo visual, o que sobra ainda é uma sólida história sobre os conflitos de convivência de uma família. Em essência, não é muito diferente de Red – Crescer é uma Fera ou Encanto: temos mais um drama familiar que tira proveito do seu plano de fundo étnico para trabalhar conflitos geracionais complexos, que não são tão preto no branco.

Stephanie Hsu traz a energia caótica e imprevisível de Arlequina para sua personagem.

Ao mesmo tempo, o jeito que a narrativa é contada está muito ligado em como Evelyn, a dona de casa sobrecarregada do começo do filme, vivencia o mundo. Como uma pessoa que sofre com transtorno de ansiedade, ela sente como se tudo estivesse lhe pressionando ao mesmo tempo. Refém da culpa dos erros passados e esperançosa pelo que pode vir do futuro, a aventura de Evelyn pelo multiverso é uma jornada para aprender a viver no presente e apreciar as coisas como elas são.

Tudo em Todo o Lugar Ao Mesmo Tempo funciona tão bem por ancorar a sua interpretação de multiverso nos dilemas de uma única pessoa. Em suas situações ridículas, lutas impossíveis e no humor barato, o filme encontra uma forma elegante de dizer que nós contemos multitudes.

O ser humano é muito complexo, um multiverso em si próprio. Quando usamos este conceito como ferramenta narrativa, ao invés de um artifício de marketing para metralhar fanservice, é quando ele revela seu verdadeiro potencial. Sem se deixar seduzir pelo caminho fácil, Tudo em Todo o Lugar Ao Mesmo Tempo entrega uma das experiências cinematográficas mais satisfatórias dos últimos tempos.

Nota: 5/5

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Gabriel Mattos

Editor, repórter correspondente de Wakanda, caçando Pokémon por onde eu vou! Sempre nas lives da Legião! • @gabeverse