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Crítica — Sonic 2: O Filme mistura atmosfera de desenho antigo com uma sagacidade impecável

Por Gabriel Mattos

Para um longa despretensioso, Sonic 2: O Filme carregava uma responsabilidade imensa. Depois do sucesso inigualável do primeiro título, a adaptação de videogames mais lucrativa do cinema, a expectativa para sequência era absurda. E mesmo assim, a Paramount conseguiu surpreender mais uma vez, entregando um filme divertido para todas as idades sem sacrificar sua qualidade.

FICHA TÉCNICA

Título: Sonic 2: O Filme (Sonic The Hedgehog 2)

Direção: Jeff Fowler

Roteiro: Patrick Casey, Patrick Casey

Data de lançamento: 7 de abril (Brasil)

País de origem: Estados Unidos

Duração: 2h 02m

Sinopse: O Dr. Robotnik retorna à procura de uma esmeralda mística que tem o poder de destruir civilizações. Para detê-lo, Sonic se une a seu antigo parceiro, Tails, e parte em uma jornada para encontrar a joia antes que ela caia em mãos erradas.

Pôster nacional de Sonic 2: O Filme

A diversão leve que faltava para um ano tão tenso

A premissa é muito simples, adaptando os eventos principais de Sonic The Hedgehog 3 (1994) de um modo que faz sentido para o universo construído no primeiro filme. Robotnik está de volta e, com a ajuda do poderoso Knuckles, ele sai em uma caçada pela Esmeralda Mestre para realizar seus sonhos malignos. Resta ao Sonic, ao lado do novato Tails, pôr um fim neste plano.

A jornada da dupla pode não ser surpreendente. Pelo contrário, o roteiro é bastante previsível do início ao fim. Mas este é o tipo de filme que não precisa de uma estrutura mirabolante para conquistar. A história simples dá um espaço maior ao que realmente importa, que são os momentos cômicos e o desenvolvimento dos personagens.

Sem perder o fôlego em momento algum, o humor se mostra extremamente afiado, em toda sua nuance. Há uma clara preocupação em agradar diferentes parcelas do público, sem deixar ninguém entediado. Para isso, o roteiro intercala referências modernas e um humor mais adulto, mirando nos marmanjos, com piadas mais físicas e visuais, que tiraram muitas gargalhadas dos pequenos.

Com Jim Carrey no elenco, humor noventista é um grande destaque.

Em poucas cenas, o longa consegue construir uma atmosfera muito gostosa e permissiva que perdura ao decorrer da trama. Lembra os desenhos animados dos anos 90. A lógica interna é bem permissiva, assim você entra em um estado de inocência quase infantil, acreditando que tudo pode acontecer. Mesmo quando a história foge totalmente do controle, como na cena em que uma noiva furiosa persegue um agente federal em um carrinho de golfe, ainda parece fazer sentido em um filme do ouriço azul.

Sonic 2: O Filme tem essa qualidade de tirar suas preocupações e te deixar apenas curtir a viagem. Em diversos momentos, a obra testa os limites do humor, sempre com muito bom gosto e sem ofender ninguém. E o grande motivo disso funcionar tão bem é a cuidadosa construção de universo que vem desde o primeiro filme e que atingiu a maturidade definitiva nesta sequência.

Enquanto o antecessor parecia estar pisando em ovos, sempre tomando o caminho mais seguro para o sucesso, Sonic 2 sabe muito bem no que está se metendo. Esta nova aventura é mais segura de si, ousada e poderosa. Não só na comédia, como também na ação.

Sonic, Tails e Knuckles carregam a história deixando pouco a desejar.

Perseguição na neve, duelos cheios de poderes e outras ideias interessantes trazem uma variedade muito bem-vinda às cenas de ação. Não tem aquele ar mecânico que os embates de CGI passaram a trazer em uma indústria cada vez mais acomodada. Pelo contrário, existe um dinamismo invejável que parece inspirado nos filmes de animação.

Na sua essência, Sonic 2: O Filme é uma animação que assume um estilo visual mais realista do que estamos acostumados. Mesmo que os efeitos especiais deixem a desejar em diversos momentos, é quase como O Rei Leãolive-action” da Disney, mas sem vergonha de ser caricato.  É uma abordagem orgulhosa de um projeto que nasceu da nostalgia e do olhar infantil, o que faz com que esta adaptação funcione onde outras erraram.

A história fica muito melhor por acreditar no potencial das suas raízes no mundo dos games. O roteiro é carregado pelo núcleo de extraterrestres fofinhos, que é exatamente o que o público quer ver. Por mais agradável que ele seja, ninguém vai assistir um filme de Sonic para conhecer mais sobre Tom Wachowski (James Marsden). Assim, confiar o estrelato ao trio Sonic, Tails e Knuckles foi a decisão mais sábia a se tomar.

Rivalidade com Knuckles é ponto alto do filme.

E rendeu muitos frutos, porque eles entregam simplesmente um outro nível de carisma. Todos funcionam muito bem sozinhos, de uma maneira muito fiel aos jogos, o que facilitou a naturalidade de suas interações. Eles trazem uma sinergia muito boa, mesmo que não seja à prova de falhas.

A dinâmica entre Sonic e Tails, de apoio mútuo e camaradagem, carrega um certo olhar de respeito que poderia ser melhor dosado. O Tails complementa muito bem o jeitão impulsivo e autocentrado do ouriço azul, despertando uma simpatia instantânea no público. Uma pena que, para isso, ele acaba apagando seu próprio brilho próprio. Tails acaba sendo apenas um grande fã do Sonic, recusando todas as oportunidades de mostrar uma motivação própria.

A rivalidade entre Sonic e Knuckles, por outro lado, é muito melhor resolvida. Os roteiristas aprofundaram a mitologia encontrada nos jogos para construir uma conexão delicada entre os dois. Impossível não enxergar os paralelos no passado de Sonic e Knuckles, levando ambos a se entenderem com muita facilidade. Há um respeito mútuo, como se eles enxergassem que estão num pilar de igualdade, que deixa as lutas mais gostosas de assistir.

 

O trio funciona verdadeiramente como irmãos em uma família nada tradicional. Tails é o irmão caçula, que idolatra seu irmão do meio. Sonic é um crianção que quer crescer logo, para ser como o mais velho, que seria o Knuckles — o adolescente de saco cheio com a vida, sem paciência para nada. Essa construção não só torna mais fácil acreditar nestas relações, como também facilita para o público mais jovem se conectar a nível emocional.

Nota: 4,5/5

No fim, Sonic 2: O Filme é um filme para crianças com uma mensagem muito bonita sobre responsabilidade e respeitar o seu ritmo. Mas o roteiro é construído de uma maneira tão envolvente, que os adultos não ficam de fora dessa diversão. A bobeira de Sonic transporta todo o público para este lugar mágico de inocência e liberdade que muitos filmes falham em alcançar. É algo tão precioso que compensa as falhas técnicas que o longa acaba apresentando.

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sobre o autor Gabriel Mattos

Editor, repórter correspondente de Wakanda, caçando Pokémon por onde eu vou! Sempre nas lives da Legião! • @gabeverse