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Crítica: Lightyear é um divertido Interestelar para crianças que leva a magia Pixar para uma ópera espacial

Por Gabriel Mattos

Lightyear, a nova aposta da Disney-Pixar, explora o universo de Toy Story de uma maneira nunca antes imaginada. Sem Woody, Andy e longe dos brinquedos animados, o enredo acompanha a história do astronauta (fictício) que deu origem ao boneco do Buzz Lightyear. Mas se você, assim como eu, revirou os olhos com a ideia de mais um derivado desnecessário, saiba que este não é um truque barato para pegar dinheiro dos fãs — Lightyear é uma deliciosa surpresa que faz rir, chorar e pensar.

Ficha técnica

Título: Lightyear

 

Direção: Angus MacLane

 

Roteiro: Jason Headley e Angus MacLane

 

Data de lançamento: 16 de junho de 2022 (Brasil)

 

País de origem: Estados Unidos

 

Duração: 1 hr 40 min (100 min)

 

Sinopse: Nesta aventura de ficção científica cheia de ação, conhecemos a origem definitiva de Buzz Lightyear, o herói que inspirou o brinquedo. Após se perder no espaço, o patrulheiro estelar está decidido a encontrar um jeito de voltar para casa, mas uma invasão alienígena está em seu caminho.

Pôster de Lightyear.

Ficção Científica à moda Pixar

A premissa, por si só, é bem interessante. Na trama, um astronauta falha em uma missão de reconhecimento e precisa encontrar um jeito de voltar para casa. Mas o genial é que Lightyear foi criado para ser o filme favorito de Andy em Toy Story (1995).

Esta é a fita que ele alugava todo fim de semana e entregava na locadora sem rebobinar. Este é o motivo de ter enchido o saco dos seus pais para ganhar um boneco do Buzz Lightyear no seu aniversário.

E esse mero detalhe define toda a estrutura do filme, dando uma liga que os produtores souberam dosar para ficar divertido para todas as idades. Ao invés da sua típica aventura Pixar, Lightyear tem um jeitão de ficção científica dos anos 80 — a ingenuidade de Star Wars, a inventividade de Star Trek, um cheiro de Duna (1986) e outros clássicos.

Talvez o caminho mais fácil seria abraçar a natureza aventuresca deste gênero em uma jornada por diversos planetas, cheio de cenários inventivos e cores que chamassem a atenção dos menores, mas felizmente não foi o caso. Os produtores se desafiaram a contar uma história que se mantém orbitando ao redor de um único mundo, dando espaço a uma aventura pé no chão. Quase como se a gravidade trouxesse sempre o Buzz àquele momento.

Lightyear tem uma forte veia sci-fi, que dita até o estilo visual da animação.

E tempo é um elemento chave para esta história. A estrutura sci-fi permite que o roteiro brinque com o passar do tempo de uma forma espetacular. Não é absurdamente inovador, mas é bastante inteligente e fácil de entender. De certo modo, é como um Interestelar feito para crianças, com o conceito elevado à centésima potência. Mas o melhor presente desta herança oitentista é a construção do protagonista, o próprio Buzz Lightyear.

Um herói de plástico em um drama de carne e osso

Buzz personifica a essência dos protagonistas de filmes de ação e ficção científica dos anos 80, ou seja, um cruzamento de masculinidade tóxica com complexo de “o escolhido”. Ele é o cara que chega e resolve as coisas. Sempre ignora as ordens, porque só ele sabe o que é melhor a ser feito e mais ninguém. Nunca erra, porque isso é coisa para fracotes. Basicamente resume como os garotos foram criados para serem naquela época.

Não demora para ficar bem claro o peso de sempre precisar alcançar todas essas expectativas nada realistas. No menor sinal de fracasso, o Buzz quebra e este é o herói que temos de verdade ao longo do filme. Um herói quebrado, atormentado, inseguro, teimoso e mais preocupado em provar para os outros do que realmente viver.

No início, a dublagem de Marcos Mion funcionou como uma barreira para a credibilidade do personagem. Afinal, o jeito como Buzz se apresentava era de alguém imponente, confiante e não é a primeira coisa que vem em mente quando ouvimos o ator. Entretanto, conforme o filme avança e as falhas do personagem aparecem, a voz parece se encaixar melhor. A dublagem hesitante de Mion acaba casando bem com a presença conflituosa do personagem.

O novo Buzz é metido, arrogante, mas estranhamente carismático. A voz de Mion acostuma depois de um tempo.

Mais do que qualquer invasão alienígena, está constante luta mental é o que dá tom ao filme. O herói está inconformado com o presente, mas apegado demais ao passado para mudar. E com isso, o filme consegue explorar qualidades que toda pessoa precisa aprender quando chega na vida adulta — delegar tarefas e conviver com os erros.

Trabalho de equipe não é uma mensagem exatamente nova em filmes infantis, só é apresentada com uma nova roupagem nesta aventura. É menos sobre todos juntos fazendo algo em sincronia e mais em acreditar que os outros são tão capazes quanto você. É mais sobre não abraçar o mundo e se sobrecarregar tentando.

E o grande foco da narrativa, presente na trama de cada personagem, é a necessidade de aprender a conviver com os erros. Todo o enredo é desencadeado por um erro cometido por Buzz nos momentos iniciais. Só que o herói dá uma importância tão grande para este momento nada gracioso do seu passado que ele acaba criando uma série de cobranças desproporcionais.

Nenhuma criança deve ter a bagagem necessária para entender perfeitamente os sentimentos de Buzz, mas isso não é realmente necessário. Enquanto este pode ser um momento de reflexão para os adultos, para os menores vai ser divertido sempre torcer para os personagens superarem o próximo desafio. O importante é que o roteiro planta na cabeça dos menores um sementinha para construir relações mais saudáveis no futuro.

As maiores batalhas de Lightyear acontecem dentro da sua cabeça.

Especialmente em relação ao trabalho, pois não demora para o filme mostrar 0 absoluto desgaste que Buzz construiu com o seu trabalho. O longa não tem medo de mergulhar nestes assuntos mais assustadores da vida cotidiana de um adulto, lembrando as críticas de séries de ficção científica renomadas como Ruptura (2022), da Apple TV. Quem não aprende a separar a vida pessoal da profissional pode acabar se esquecendo de viver. Um clássico do capitalismo tardio.

Mas não é só em forma de críticas e gatilhos para adultos cansados que vive este roteiro — o poder do erro é a grande força motriz que impulsiona toda a narrativa. As cenas de ação sempre tem situações dando errado, elevando a tensão ao máximo com medo de que tudo só piore. As piadas se deleitam em momentos falhos e o elenco é a cartada final para solidificar a mensagem de que errar é humano.

Errar é a alma do negócio

Nunca existiu uma equipe menos qualificada na história do cinema.

De início, parece que os amigos do Buzz são apenas um grande grupo de perdedores sem nenhum talento. Mas depois de passar mais tempo com eles, conforme a trama avança, você descobre que no fundo eles na verdade são mesmo um bando de manés destrambelhados. Só que essa é a graça!

Por perceber que todos são tão incapazes de realizar a mais simples das funções que o público se vê refém deste grupo de desajustados, torcendo nas situações mais bobas. Eles podem ser fracassados, mas estão fazendo sempre o seu melhor, poxa. Chega uma hora que se um personagem consegue usar uma caneta na hora certa, você solta confete para comemorar.

É uma vulnerabilidade tão absurda que realmente vende a ideia de que eles são gente de verdade. Humanos que poderiam existir como eu e você. Afinal, ninguém criaria um personagem tão cheio de falhas de propósito, mas de algum modo os roteiristas desvendaram a fórmula para criar uma pessoas com defeitos na medida para não ser irritante.

Izzy e Sox são incríveis e trazem uma leveza que harmoniza com o Buzz.

E essa fragilidade do elenco te cativa, te incita a querer saber mais. Pena que eles continuem sendo um grande mistério até o fim. É um fato que todo mundo tem as suas próprias batalhas invisíveis para enfrentar. Porém para metade do elenco, essas batalhas terminam em circo, puro alívio cômico, em prol de mais impacto dramático à trama pessoal do Buzz e de Izzy.

A dupla desenvolve uma amizade improvável que desperta o melhor em cada um. E o mais interessante é que sua conexão é exatamente a personagem que mais trouxe polêmica no filme, antes mesmo de lançar — Alisha Hawthorne. Ela era a parceira original do patrulheiro estelar que tem um doce relacionamento com uma mulher. Por incrível que pareça, mesmo não tendo destaque na trama, toda a questão é tratada com uma naturalidade e um respeito imenso. Cria uma base emocional tão sólida que respinga ao longo do filme no laço entre Buzz e Izzy, como também no surgimento do vilão.

Ao Infinito…

Lightyear é sensível sem perder o ritmo

Sem entrar em território de spoilers, vou me ater a elogiar a construção do vilão como um dos pontos mais inteligentes do filme, que espelha muito bem com os dilemas de Lightyear. O grande mal é a teimosia e não estar disposto a admitir estar errado, ouvir conselhos e mudar.

O jeito como isso é apresentado, de início, é uma homenagem muito bem-vinda a Toy Story 2, mas ganha logo complexidade para algo mais profundo. Os poucos momentos de fan service do filme não existem só para arrancar suspiros do público, mas sim agregar na construção de alguma mensagem maior.

Outra grande surpresa é o gatinho Sox, que é basicamente como seria o R2-D2 se a gente pudesse entender o que ele fala. Sincero, espontâneo e irreverente, ele sempre tem uma tirada legal para cada situação e uma solução inesperada para os problemas mais absurdos. De quebra, ele ajuda seu amigo sem apressar o seu ritmo pessoal de evolução.

Ele está ali para dar apoio nas situações, mesmo quando Buzz não quer agir como deveria. Não tenta forçá-lo a superar suas limitações antes da hora. Prefere  criar um lugar de acolhimento que é muito importante no desenvolvimento emocional de qualquer um. Ele é o tipo de amigo que você sempre quer ter perto. Então além de funcionar como a solução coringa para as necessidades do roteiro — seja ação, comédia ou drama — Sox ainda traz um ótimo exemplo aos pequenos.

Em todo momento, Lightyear equilibra uma narrativa empolgante com um significado emblemático. Não é o filme mais emocionante da Pixar, nem de longe, mas está entre os mais bem resolvidos e profundos. Há uma história por trás da história aqui. Por debaixo do patrulheiro estelar que virou um dos brinquedos mais famosos do cinema, há alguém de carne e osso — mesmo que animado — com erros e acertos. Ninguém é perfeito, nem mesmo o lendário Buzz Lightyear. Mas essa é a questão: isso nunca impediu ninguém de ir ao o infinito e além!

Nota: 4/5

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Gabriel Mattos

Editor, repórter correspondente de Wakanda, caçando Pokémon por onde eu vou! Sempre nas lives da Legião! • @gabeverse