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Crítica: Assassino Sem Rastro coloca Liam Neeson em furada confusa e arrastada

Por Arthur Eloi

Não há dúvidas de que Liam Neeson é um dos grandes astros de ação de Hollywood, mas o tempo não perdoa ninguém. Aos 70 anos de idade, o ator segue firme e forte no gênero, mas os filmes que se envolve agora tentam refletir seu envelhecimento — mesmo que das formas mais duvidosas, como é o caso de Assassino Sem Rastro.

O novo filme de Martin Campbell — um diretor capaz de fazer 007: Cassino Royale (2006) ou cometer Lanterna Verde (2009) — busca explorar a imagem de Neeson como um assassino de aluguel que sofre de Alzheimer. A sinopse porém não faz jus ao quão inusitado, inconsistente e bagunçado o longa realmente é.

 

Ficha técnica

Título: Assassino Sem Rastro (Memory)

 

Direção: Martin Campbell

 

Roteiro: Dario Scardapane

 

Data de lançamento: 9 de junho de 2022 (Brasil)

 

País de origem: Estados Unidos

 

Duração: 1h 54min

 

Sinopse: Um assassino profissional com Alzheimer descobre que se tornou um alvo após se recusar a concluir um trabalho para uma organização criminosa perigosa.

Na real, a trama do assassino soa quase secundária dentro de seu próprio filme. Em El Passo, no Texas, a polícia mata um traficante que alicia a própria filha para a elite da cidade. A investigação da conexão entre o caso e os poderosos é o que guia a narrativa, com o agente especial Vincent Serra (Guy Pearce) e sua equipe batendo cabeças com seus chefes corruptos e com a magnata Davana Sealman (Monica Bellucci).

Sem saber exatamente o que quer explorar, o longa cambaleia entre núcleos de forma quase aleatória. É certo que a ideia parece ser mostrar os pequenos avanços e os empecilhos da investigação, mas o longa nunca dá espaço para seu suspense respirar, o que cria uma sensação artificial de urgência que só faz tudo se tornar igualmente arrastado e desconexo. Ajuda também que a equipe não é exatamente das mais interessantes.

O personagem de Guy Pearce é estático, com a personalidade de uma porta, e raramente se envolve em qualquer tipo de ação. Ele é facilmente ofuscado por seus dois colegas. Linda Amisted (Taj Atwel), que apesar de um sotaque altamente bizarro — é uma atriz britânica se passando por Texana –, conquista com seu jeito direto e sarcástico; e Hugo Marquez (Harold Torrez), que deveria ser o verdadeiro protagonista da trama. O agente mexicano é o primeiro a questionar a integridade de seu departamento, e não tem medo de apontar o dedo na cara de seus superiores.

Assassino Sem Rastro parece três filmes em um, e a maioria é conduzido pela equipe de investigadores

Onde Liam Neeson se encaixa nisso tudo? Bom, realmente parece que o ator está em um filme paralelo — um que sequer utiliza qualquer coisa que a própria premissa estabelece. A crise que passa seu assassino de aluguel é rapidamente deixada de lado em prol de um arco clichê de “o último trabalho de um matador querendo se aposentar”.

Sua condição se resume em uma ou outra cena em que o ator aparece com olhar meio distante, mas de resto atua em uma típica história de ação que poderia ser interpretada por alguém como Jason Statham sem muitos ajustes. Não que faça feio no papel, na verdade, as atuações são o menor dos problemas, especialmente na equipe de investigadora, que entrega performances minimamente sólidas. Mesmo Monica Bellucci, com uma vilã deliciosamente brega, se faz interessante de assistir.

Liam Neeson ainda segura a barra como herói de ação – mas Assassino Sem Rastro não dá muito para ele fazer

Aqui, Neeson vive mais uma fantasia de brucutu. Ele troca tiros, socos, seduz mulheres, e se revolta contra seus empregadores após descobrir um de seus alvos. Há poucas cenas de ação com o ator, e ele até mostra serviço em algumas, como ao brigar com um bêbado no bar de um hotel, mas o filme nem mesmo entrega bons momentos de porradaria ou tiroteios para justificar sua presença. Por mais que já esteja na casa dos 70 anos, Neeson ainda consegue segurar a barra como herói vingativo, mas aqui é terrivelmente subutilizado.

A sensação que Assassino Sem Rastro deixa é a de uma minissérie policial que foi espremida em um filme de duas horas. A trama parece sufocada em uma obra que é ao mesmo tempo urgente em todas as cenas, mas dolorosamente arrastada no geral. Por exemplo, é só na reta final que o longa se lembra (ironicamente) que o protagonista sofre de Alzheimer, unicamente quando a narrativa convém, em uma tentativa mal sucedida de unificar todos os arcos em um.

Assim como Bruce Willis, Liam Neeson se tornou alguém que aceita papéis até nos filmes mais duvidosos

Sem emplacar muitos blockbusters, Liam Neeson já se especializou em filmes duvidosos, mas mesmo aqui parece ter sido uma adição de última hora em um longa que já estava cheio demais para o próprio bem. Não é nada ofensivo ou intragável, mas sim pouco interessante ou original, daqueles melhor utilizados como barulho de fundo em uma tarde de domingo do que assistido com plena atenção.

Olhando seu currículo recente, repleto de obras medianas que se vendem em sua imagem, não seria nada surpreendente se o ator está apenas juntando grana para se aposentar tranquilamente, topando todo trabalho medíocre que surge pela frente. Em qualquer caso, Assassino Sem Rastro é mais um dos que ficará perdido em sua vasta — e geralmente melhor — carreira.

Nota: 1.5 de 5

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Arthur Eloi

Repórter entusiasta de filmes ruins, jogos de tiro e de horror em todas as suas formas. Dá notas duvidosas para obras questionáveis • @ArthurEloi117