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Vote Loki: Entenda a HQ que dá origem para o Loki Presidente

Por Gus Fiaux

Loki já foi muitas coisas: deus da trapaça, das histórias e do próprio tempo, sempre tomando várias formas para dar prosseguimento aos seus planos. Ele sempre serviu aos seus próprios ideais e propósitos, nunca se curvando às vontades alheias. Um personagem tão rico em mitologia e complexidade precisava de algo que o tornasse ainda mais próximo da nossa realidade – e talvez, isso tenha vindo na forma de Vote Loki.

A minissérie foi publicada em 2016 e traz a divindade nórdica em uma posição completamente inusitada: ele decide se candidatar à presidência dos Estados Unidos. A única promessa de sua campanha: ele vai mentir para você, mas ao menos será honesto com relação a isso. O quadrinho explora um pouco da política num cenário maior ao mesmo tempo que traz um pouco de nuance para Loki Laufeyson. E, levando em conta que a série do vilão fez uma grande referência a essa história, aqui está tudo o que você precisa saber sobre Vote Loki!

A publicação da minissérie

Vote Loki é uma minissérie em quatro edições que foi lançada em 2016, entre os meses de junho a agosto daquele ano. A série foi criada por Christopher Hastings e desenhada por Langdon Foss Paul McCafrrey, e mostra um evento particularmente interessante na vida do Deus da Trapaça: ele decide se tornar candidato à presidência dos Estados Unidos.

A HQ não é ambientada em um universo alternativo e se passa pouco após os eventos do quadrinho Loki: Agente de Asgard. O que temos aqui é uma continuidade da história de Ikol – a nova versão do personagem, que havia sido apresentada pela primeira vez nos quadrinhos de Jornada ao Mistério e nos Jovens Vingadores. Isso quer dizer que, diferente da série de TV, não se trata de uma “Variante” do Deus da Trapaça.

A história acabou sendo um sucesso de vendas e de crítica, alavancando ainda mais a ideia de Loki como uma figura caótica e que não é necessariamente boa ou má – em vez disso, é um agente da entropia que faz o que quer e tenta só se manter fiel aos seus próprios princípios. A HQ acabou não tendo impactos consideráveis sobre a continuidade do Universo Marvel nos quadrinhos, mas é até hoje lembrada por muitos leitores.

Sátira política

Quer você goste ou não, arte é política – afinal, é produzida em meio a um contexto político. Por conta disso, ela pode intencionalmente ou não fazer críticas sobre algo que está acontecendo no nosso mundo real. No caso de Vote Loki, a referência é bem proposital, uma vez que a HQ tentava traçar alguns paralelos com a eleição presidencial dos Estados Unidos de 2016, que culminou na vitória de Donald Trump sobre Hillary Clinton.

Toda a premissa da série era a ideia de que Loki só se tornava candidato por um “acaso”, e as pessoas começavam a votar seriamente nele por ser um candidato que, apesar das mentiras, seria honesto quanto a elas. Isso é interessante quando analisamos o contexto do mundo real, uma vez que as eleições de 2016 foram pontuadas pelo uso político de fake news – notícias falsas e difamatórias.

E no fim das contas, a minissérie da Marvel sequer está puxando sardinha para um dos lados, sejam os Democratas ou Republicanos. Na verdade, o que a minissérie faz é mostrar como a população se enjoa da política tradicional e de toda a sujeira que há embaixo disso, o que favorece a criação de ídolos completamente insanos apenas porque há um desespero generalizado sobre a figura de um “herói que vai salvar toda a política”.

A trama

A história começa em 2016, em um debate eleitoral entre os candidatos democrata e republicano (aliás, são figuras fictícias dentro do contexto da história). Seguimos Nisa Contreras, uma jornalista do Clarim Diário cuja vida foi marcada pela atuação de Loki, já que ele estava lutando contra os Vingadores quando acabou destruindo a casa dos Contreras. Ainda assim, ela cresceu com fogo no coração e se tornou uma grande jornalista.

O evento é invadido por agentes da HIDRA disfarçados, que ao se revelarem, fazem os presentes de refém, além de ameaçarem começar um massacre. E é nessa hora que um dos civis presentes se revela como Loki, que usa todos os seus poderes mágicos para impedir a atuação dos criminosos, na frente de várias câmeras. Após detê-los, Loki dá um breve discurso para a televisão, dizendo que nem se importa com políticos porque todos mentem muito mal.

Isso acaba fazendo com que Loki ganhe muita projeção política. No dia seguinte, diversas pessoas começam a fazer campanhas dizendo que “Loki vai queimar Washington”, como se ele devesse ser o próximo presidente eleito dos Estados Unidos. E o Deus da Trapaça decide seguir essa ideia, inclusive forjando uma certidão de nascimento falsa para provar que é um cidadão nascido nos EUA.

Ele acaba se encontrando com Nisa Contreras, desejando se expiar dos crimes de seu passado. A jornalista, por sua vez, aproveita o momento para fazer uma grande matéria ao Clarim Diário, expondo como Loki seria um perigo para a política. Contudo, quando o artigo sai, a manchete é alterada e isso faz parecer que ela está elogiando o Deus da Trapaça. Por sua vez, tudo fazia parte do plano de Loki para ganhar mais atenção para si próprio.

Como termina?

Ao longo das quatro edições, tudo o que vemos é Loki fazendo as coisas mais absurdas e sendo recompensado por isso. Ele prepara um ataque violento à Latvéria, poucos dias depois de um debate onde diz que os Estados Unidos não deveriam interferir na política de outros países, contrariando os outros candidatos. Também é revelado que ele mesmo forjou o ataque da HIDRA em um dos debates eleitorais, apenas para ganhar projeção para si mesmo.

Só que em vez disso enfraquecê-lo, ele acaba ganhando mais força enquanto a população embarca em uma histeria coletiva, categorizando-o como o único salvador possível para os Estados Unidos. Nisa tenta diversas vezes expor a verdade por trás do Deus da Trapaça, mas cada vez que algo novo é revelado, ele sobe nas pesquisas, como se tudo isso fosse uma grande brincadeira.

Ao fim, ela desiste de tentar revelar a verdade e pensa em viajar para o Chile, caso Loki ganhe a presidência. Tudo culmina em um último debate eleitoral, onde ela não faz questão de falar nada a respeito do que há de errado com Laufeyson. Sem ter quem acusá-lo de algo, o Deus da Trapaça pela primeira vez responde ao público sobre sua própria campanha e seus projetos de lei.

E é aí que a coisa toda acontece: Loki não tem nenhum plano para a presidência. Ele apenas quer ver o circo pegar fogo, mas não está preocupado com a economia, a segurança, a desigualdade social. E quando o público vê isso em primeira mão, ele perde completamente a força na véspera da eleição e perde. Depois, ele afirma que tudo não passou de um plano para dar a Nisa uma chance de se tornar uma repórter ainda maior, como uma forma de pedir perdão pela destruição de sua casa no passado – mas ele é o Deus da Mentira, e nem nisso podemos acreditar direito.

Adaptação?

Essa “versão” do Loki, se é que podemos chamar assim, apareceu no Universo Cinematográfico da Marvel através do quinto episódio de Loki, a série solo do vilão lançada no Disney+. Aqui, vemos que ele é uma Variante – ou seja, uma versão alternativa de outra linha do tempo – do Deus da Trapaça, que lidera outras Variantes enquanto parte em busca do Loki Clássico, do Kid Loki, o Loki Jacaré e a novíssima “variante” do Deus da Trapaça.

Embora o visual do personagem esteja totalmente fiel aos quadrinhos de Vote Loki, não há muito sobre a história desse personagem, e nem conexões que mostram que ele passou pela mesma história dos quadrinhos. Na verdade, essa Variante fica menos de cinco minutos em tela, e aparece apenas para mostrar a infinidade de Lokis que ficaram presos no Vazio, um local próximo do fim dos tempos.

Ainda assim, dá para especular muitas coisas com base nessa aparição – por exemplo, será que esse Loki só foi tido como uma Variante por tentar se candidatar à presidência dos Estados Unidos, quebrando a ordem natural de eventos do planeta? Caso não tivesse sido sequestrado pela Agência de Variação Temporal, ele teria ganhado? E em que momento ele foi criado na cronologia do Universo Cinematográfico da Marvel?

É pouco provável que vejamos esse personagem novamente, ou até mesmo que essa minissérie seja adaptada em algum momento no futuro. Ainda assim, é uma HQ bem interessante que explora as mentiras do Deus da Trapaça de uma forma jamais vista. E para quem gosta de sátiras políticas e uma dissecação do que tem acontecido nas eleições mundiais nos últimos dez anos, é uma obra perfeita para se ler.

Loki está disponível no Disney+. A minissérie Vote Loki foi publicada no Brasil pela Panini Comics.

Abaixo, fique com easter-eggs e referências do quinto episódio de Loki:

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux