Superman: Como a DC Comics comprou os direitos do herói por um valor pequeno

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Superman: Como a DC Comics comprou os direitos do herói por um valor pequeno

Por Junno Sena

Enquanto a primeira edição de Superman está sendo leiloada por dois milhões de dólares hoje em dia, os valores de aquisição do personagem para a Detective Comics Inc. tiveram alguns zeros a menos. Vendido por cento e trinta dólares no dia primeiro de março de 1938, a DC Comics comprou o que se tornou um dos personagens mais bem sucedidos da história dos quadrinhos.

Um cheque de custo baixo, mas valor caro

Criado por Jerome Siegel e Joe Shuster, os cento e trinta dólares foram referentes às 13 páginas da primeira história do Superman em Action Comics #1. Lançado apenas em 18 de abril de 1938, o contrato entre criadores e editora cobriam direitos perpétuos e exclusivos do personagem. 

Filhos de imigrantes judeus, Siegel e Shuster ofereceram o personagem para diversas editoras até conseguir firmar contrato com a Detective Comics. Hoje, o cheque vale mil vezes o valor escrito no mesmo. O posterior sucesso do personagem lhes deu certa dor de cabeça, mas também 94 mil dólares no ano seguinte da publicação do primeiro quadrinho.

Jerome Siegel e Joe Shuster junto de sua criação, o Superman

“Esse cheque de $130 criou uma indústria bilionária”, disse Vincent Zurzolo, responsável pelo leilão online da venda do cheque dado a Jerome e Joe pela DC Comics.

O valor posterior não impediu os dois de tentarem reaver seus direitos em relação a criação do personagem. Primeiro em 1947, depois em 1967 quando houve uma renovação dos direitos autorais de acordo com a legislação. As tentativas sem êxito levaram ao público a intervir para ajudar os dois.

Com uma longa campanha publicitária e com um Shuster parcialmente cego e um Siegel com problemas de saúde decorridos de um infarto, em 1975, a DC Comics assinou um acordo no qual concordava em pagar 20 mil dólares por ano para o resto da vida dos dois artistas. 

O que se tornou um caso único nos Estados Unidos foi convertido em uma lei. A Copyright Act de 1976 garante que qualquer autor de uma obra, ou seus herdeiros, podem encerrar a cessão de direitos autorais, desde que a criação não tenha sido um resultado de trabalho contratado.

Cheque pago aos autores pelos direitos do herói

Os direitos de Clark Kent

Capa de Superman #1

Com o falecimento dos dois artistas, a família de Siegel colocou a nova lei em prática e em 1997, a viúva Johanne Siegel e sua filha, Laura, pediram o término da transferência de direitos contra a Warner Bros. Entertainment Inc., a Time Warner Inc. e a DC Comics.

Vale lembrar que no fim dos anos 90, Superman já havia ganhado quatro filmes protagonizados por Christopher Reeve, além de produções da década de 50 e podia ser visto na TV, com a série Lois & Clark: As Novas Aventuras do Superman. Sem contar animações como Super Amigos.

Mesmo que a ampla reprodutibilidade do herói, mostrando o quanto a editora havia lucrado com aquele simples cheque de cento e trinta dólares, foi apenas em 1999 que concederam metade dos direitos do Superman aos herdeiros de Siegel. Com a disputa se estendendo por mais dez anos, em 2008, declararam os herdeiros como coproprietários da criação de Clark Kent, também conhecido como Kal-El, o Superman.

Entre direitos e representatividade

O que se destaca nesses trambiques jurídicos foi a necessidade de provar que o herói foi criado de forma independente. O fato da DC Comics ter enviado o cheque após o envio e apresentação do personagem foi capaz de evidenciar em meio jurídico que aquele não foi um serviço contratado. Pelo contrário, foi comprado sem uma “encomenda prévia”.

Diferentes versões do Superman

Algo que não era novidade para os dois autores, já que ambos haviam trabalhado anteriormente para a editora. Até mesmo para a elaboração de Bill Dunn, um vilão megalomaníaco que se auto intitulava Superman. Essa foi a primeira vez que o nome do herói foi utilizado nos quadrinhos, mas por um homem telepata que desejava dominar o mundo. Publicada em 1933, The Reign of the Super-Man fez pouco sucesso, fazendo com que Siegel e Shuster recorrerem ao outro lado do espectro herói-vilão.   

Como uma forma de levar inspiração em uma época pós crise de 1929 e Segunda Guerra Mundial, essa nova versão do Superman prometia ser a epítome do bem contra o mal. Com conceitos e referências à bíblia, ele se tornou mais um símbolo do American Way of Life e hoje, é reproduzido amplamente em cinema, séries e animações. Diferente do estilo perfeito e americano, agora, todas as variantes do personagem buscam, de alguma forma, trazer o que é ser um indivíduo nessa sociedade pós-moderna.

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sobre o autor Junno Sena

Pós graduando em Antropologia com o raio problematizador ligado no 120. Assiste filme trash para relaxar e dorme cantarolando a trilha sonora de A Hora do Pesadelo. Blaxploitation na veia e cinema coreano no coração. Atualmente mora em Petrópolis, RJ.