Como o Steam Deck pode beneficiar todos os jogadores de PC

Capa da Publicação

Como o Steam Deck pode beneficiar todos os jogadores de PC

Por Arthur Eloi

Os fãs da Valve seguem esperando por Half-Life 3 ou por outro Portal, mas a empresa se mantém ocupada com muitas outras coisas, como administrar o Steam, ou então brincar com o desenvolvimento de hardware. A última investida nessa área, porém, parece ter conquistado o público. O recém-anunciado Steam Deck promete cumprir o potencial de um PC portátil, unindo a praticidade de um Nintendo Switch com a vasta (e mais barata) biblioteca de jogos disponíveis nos computadores.

Os fãs do mundo todo curtiram a ideia, mas os brasileiros, claro, são cientes da própria situação, e sabem como é difícil uma máquina dessas chegar ao Brasil, especialmente com um valor acessível. Dessa vez, vale manter o hype mesmo assim pois, se o Steam Deck der certo, ele será benéfico ao PC como um todo.

O preço da portabilidade

É certo que o Steam Deck é pensado para competir com o Switch, e essa comparação é bastante válida. Não só os dois aparelhos têm finalidades parecidas, como também o console da Nintendo demonstrou que existe um público gigantesco para curtir experiências blockbusters no modo portátil – mesmo que alguns sacrifícios sejam feitos pelo caminho.

Além de ótimos exclusivos, a biblioteca do Switch é marcada por “versões impossíveis”: conversões de jogos que testam todos os limites do dispositivo, mas que ainda rodam de forma minimamente satisfatória, no fim das contas. É o caso dos shooters da Bethesda, como Doom Eternal e Wolfenstein II: The New Order. Ambos feitos no motor gráfico id Tech, os games já faziam o PlayStation 4 e o Xbox One chorar um pouco, mas mesmo assim ganharam adaptações de respeito no portátil.

Os gráficos e as taxas de quadros, obviamente, são inferiores aos consoles de mesa, mas nenhuma funcionalidade ou modo é cortado, e o resultado é poder curtir alguns dos melhores FPS dos últimos anos em qualquer lugar. O mesmo vale para títulos como The Elder Scrolls V: Skyrim, The Witcher 3: Wild Hunt, Tony Hawk’s Pro Skater 1+2, entre muitos outros. Com o sucesso de vendas desses jogos na plataforma, é visível que há uma grande parcela dos gamers que está confortável em abrir mão da fidelidade gráfica para poder ter mais obras de peso na plataforma.

No Switch, The Witcher 3: Wild Hunt roda em 720p/30fps, mas ainda compensa pela portabilidade

Infelizmente, o Switch é um ambiente fechado. Quando um estúdio, como a excelente Panic Button, se dedica ao máximo para criar uma conversão para a plataforma, é apenas a versão para o console da Nintendo que recebe tais funcionalidades. E é aí que o Steam Deck pode dar a volta por cima.

PC para todos

Diferente do Switch, o PC é um ecossistema aberto. É possível acessar o Steam através de uma gigantesca variedade de configurações de peças e sistemas operacionais. Na verdade, é até possível ignorar o Steam e seguir com outras lojas, como Epic Games Store, GOG ou a loja da Microsoft. E isso é algo que se manterá válido para o Steam Deck.

O portátil da Valve utilizará o SteamOS, uma versão modificada de Linux, mas em essência continua sendo um PC como qualquer outro. Isso significa que, em teoria, será possível curtir games de outras lojas, aproveitar o catálogo do Xbox Game Pass e, claro, até mesmo instalar Windows. Como explica o LowSpecGamer, Youtuber espanhol focado em tecnologia de baixo custo, a grande sacada da empresa não é restringir os usuários ao Steam, mas sim garantir uma experiência melhor e mais facilitada para quem optar pela loja digital.

Sem criar um ambiente fechado, tudo que a Valve adicionar ao Steam Deck será válido para todos os usuários do PC. Eventos semelhantes já ocorreram no passado. Quando a empresa lançou o ousado Steam Controller, seu sucesso não foi dos maiores, mas as funções de mapear livremente os botões do joystick, e também o uso de seus touchpads e giroscópios, passaram a funcionar até com outros controles. Ao ligar no PC um Dualshock, do PlayStation 4, agora é possível usar tanto a barra de touch quanto o sensor de movimento do periférico. Antes, o controle sequer era compatível com a maioria dos jogos, que costumavam apenas reconhecer os comandos do Xbox.

Isso é ainda mais visível no Linux. O sistema operacional livre, com suas várias modificações mantidas por pequenas empresas ou por entusiastas, sempre foi tratado como piada entre os gamers, perdendo até para o MacOS em termos de jogos compatíveis. Quando a Valve “abraçou o pinguim” e anunciou o SteamOS lá em 2013, é possível notar que mais estúdios passaram a investir em adaptar seus títulos para o Linux, com nomes grandes como a saga Tomb Raider, Hitman e muitos outros passando a rodar nativamente.

Tá certo que a empresa reduziu seus esforços assim que ficou evidente o fracasso das Steam Machines, a primeira investida da Valve de criar um híbrido entre PC e console. Mesmo assim, nos últimos anos o Steam se tornou ainda mais amigável para os gamers de Linux graças a implementação do Proton, função apoiada pela Valve que “converte” jogos de Window para rodar no sistema operacional livre.

Por mais inusitadas que pareçam as criações da Valve, o jogador comum do PC sempre acaba ganhando alguma coisa nova por tabela.

Motivada pelo lançamento das Steam Machines, atualização do Modo Big Picture ajudou todos os jogadores que queria jogar PC na sala, com controles

Baixo custo, alto rendimento

Pensar em um PC gamer traz à mente uma imagem de peças caríssimas, teclados mecânicos, monitores 4K e um banho de luz RGB. A realidade – especialmente no Brasil – não é exatamente assim. Por exemplo, o levamento de hardware feito pelo próprio Steam aponta que as placas de vídeo mais populares entre os usuários são a GTX 1060 e a GTX 1050ti, respectivamente. Os dois componentes da Nvidia não só estão datados, tendo sido introduzidos há mais de cinco anos, como também são consideradas peças de entrada. As placas de vídeo integradas, que acompanham processadores Intel e AMD, também representam porcentagens expressivas na lista. Assim, é certo dizer que curtir mundos com ray tracing, ou disputar tiroteios com a fluidez de 120 quadros por segundo, são sonhos para poucos.

E isso não é necessariamente um problema! Ainda que todos queiram a ostentação de investir o valor de um carro popular em um PC, o grande apelo da plataforma é sua versatilidade. Para desfrutar de qualquer game de PlayStation ou Xbox, é obrigatório ter um console, cuja única função é rodar jogos. Para curtir algo no computador, seja um blockbuster ou um título grátis como Valorant e League of Legends, vale tanto ter uma máquina poderosa quanto o notebook capenga que se usa pra fazer trabalhos para a faculdade. Não importa a configuração, seu PC sempre vai rodar algo.

O Steam Deck é muito mais próximo de um notebook. Sim, seu chip proprietário da AMD tem uma arquitetura semelhante ao Xbox Series S, e não deve fazer feio nos blockbusters, mas ainda se trata de um portátil pensado para rodar as coisas apenas satisfatoriamente, e não exaltar gráficos ultrarrealistas. Assim como o Nintendo Switch, a ideia é compensar um desempenho modesto com a portabilidade. Mas se os estúdios de jogos perceberem que o público está se tornando mais flexível em sua obsessão com visuais de ponta, é possível imaginar uma leva de títulos feitos sob medida para rodar até nos PCs mais simples.

A tecnologia de placas de vídeo integradas também está evoluindo: já é possível jogar algo como Resident Evil 8 direto nos processadores Ryzen, da AMD

Basta olhar os maiores sucessos da plataforma para entender como requisitos mínimos acessíveis se traduzem em públicos maiores. O apelo dos já citados League of Legends e Valorant é que não é preciso investir muito para curtir: além de gratuitos, esses jogos são pensados para rodar minimamente bem no maior número de peças possível.

Fortnite, hit feito na pesadíssima Unreal Engine, só foi aprender essa lição após o lançamento. Foi só em dezembro de 2020 que a Epic Games lançou um modo para PCs de baixo desempenho, que facilitou a vida dos gamers de notebook e outras configurações mais modestas que gostariam de aproveitar o jogo sem ter que fazer um upgrade. O mesmo vale para Disco Elysium. Através de uma atualização carinhosamente chamada de “Update da Classe Trabalhadora”, o premiado RPG single-player baixou seus requisitos mínimos para funcionar até em um Intel Core 2 Duo, linha de processadores produzida entre 2006 e 2012. Imagine isso em termos de consoles: quais as chances de rodar um lançamento de 2019 em seu Xbox 360 ou PlayStation 3? Isso só acontece no PC, e isso é algo que deveria ser valorizado.

Se o Steam Deck der certo, os estúdios podem passar a dar mais atenção a adaptar seus títulos para rodar na placa de vídeo integrada do portátil. Essas melhorias vão facilitar a vida dos donos do console da Valve, mas também vão ajudar o gamer de notebook, ou então aquele jogador cujas peças do computador já estão quase na idade de entrar no ensino fundamental.

Ainda não é certo dizer se a aposta da Valve vai dar certo. A empresa gosta da experimentação, e seu passado é marcado por erros (como as Steam Machines) e acertos (como o SteamVR e o Half-Life: Alyx). De qualquer forma, todos que jogam no PC devem sair ganhando alguma coisa.

Imagem de perfil
sobre o autor Arthur Eloi

Repórter entusiasta de filmes ruins, jogos de tiro e de horror em todas as suas formas. Dá notas duvidosas para obras questionáveis • @ArthurEloi117