Review: A realidade aumentada de The Witcher: Monster Slayer não entende o mundo real

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Review: A realidade aumentada de The Witcher: Monster Slayer não entende o mundo real

Por Márcio Jangarélli

The Witcher é uma das franquias mais interessantes da atualidade. As aventuras do bruxo Geralt em um mundo decadente e lotado de monstros encantaram o público nos livros, games e nas adaptações da Netflix, gerando até mesmo spin-offs incríveis.

Tentando uma chance no universo de jogos mobile, de realidade aumentada, The Witcher: Monster Slayer foi lançado no final de julho, gratuito para iOS e Android. Em um sistema “Pokémon GO”, o game transforma o mapa da sua região na vida real em um campo infestado de ameaças e missões do mundo dos bruxos, te dando a possibilidade de literalmente sair para caçar monstros nas suas redondezas.

Mas será que, em 2021, essa proposta ainda funciona? Fui caçar alguns monstros com o game e trouxe uma resposta para vocês.

Pegue suas espadas de aço e prata, óleos e poções, e vem comigo nessa!

Arte promocional de The Witcher: Monster Slayer. (Reprodução)

Ficha Técnica:

Lançamento: 21 de Julho

Estúdio: spokko

Distribuidora: CD Projekt Red

Plataformas: Android, iOS

Gênero: RPG, Ação, Realidade Aumentada

Modos: Single Player

Aparelho usado para review: Iphone SE; iOS 14.6

Iniciando a caça

Sua rua ficou rodeada de monstros.

Desde o alvoroço que foi o lançamento de Pokémon GO, várias empresas tentaram empregar os sistemas do game da Niantic em suas propriedades, almejando um pedacinho desse sucesso. Vimos jogos mobile de procurar fantasmas, de investigação, até com os animais fantásticos do universo de Harry Potter, mas poucos deles tiveram algum impacto – e praticamente nenhum trouxe algo novo e interessante para competir com o titã da Nintendo.

Hoje, games mobile de realidade aumentada já não são novidade ou geram uma comoção tão grande quanto nas épocas de Pokémon GO. Mesmo assim, a spokko e a CD Projekt Red resolveram apostar no gênero com o universo de The Witcher. Com a proposta de colocar o jogador na pele de um Bruxo – que não é o Geralt – para caçar monstros e realizar missões nos mapas do mundo real, The Witcher: Monster Slayer foi lançado no final de julho. 

Confesso que o sentimento que o jogo trás é um tanto agridoce: ele é muito divertido, bem feito e criativo, mas foi lançado no momento errado e é muito caro.

De primeira, é impossível não ficar impressionado com o que o game te mostra. Os visuais são verdadeiramente incríveis; as artes, os gráficos, até mesmo o mapa, é tudo muito bonito, de encher os olhos, e absolutamente fiel aos games de PC e console. Parece uma extensão mobile de The Witcher 3, por assim dizer. Não é algo deslocado ou que te dá aquela sensação de que foi feito nas coxas, apenas para uma divulgação ou venda.

Isso é amplificado pela trilha do game, vinda direto do original da CD Projekt. A música, os efeitos sonoros e a dublagem dos personagens te jogam de cabeça no mundo de The Witcher. Se você já teve contato com a franquia, o reconhecimento e a imersão são instantâneos.

É baixar o game, escolher um dos avatares de bruxeiro, seu nome e pronto: você voltou (ou entrou pela primeira vez) no universo de The Witcher.

Afiando sua espada nos monstros

O game está totalmente traduzido para PT/BR!

Algo muito interessante em Monster Slayer é que o game incorpora o sistema de quests de RPG. Assim, além de caçar seus monstros diários, você encontra NPCs, escuta suas histórias e decide se quer ajudá-los. Logo de início, você passa por uma missão de treinamento com seu Mestre Bruxo; depois o game te apresenta o mercador Thorstein, de Skellige, que te coloca na sua primeira quest oficial – que faz referência à missão do Grifo de The Witcher 3.

São essas quests que dão um gostinho mágico ao game. Ainda que o sistema pareça simples – você aceita o trabalho e o mapa te mostra um ponto “próximo” onde seu objetivo está – as missões contam com escolhas durante o processo, podem se estender em mais buscas e acompanham a história do seu Bruxo. Legal, né?

O único problema é que, bom, o game escolhe um ponto do mundo real para essa quest sem considerar os nossos problemas urbanos diários. Assim, pode ser que você seja direcionado para um local não muito seguro, de acesso restrito e tudo mais. Como não somos realmente bruxos, fica difícil. Sem falar que as distâncias geralmente ficam por volta de mais de 1,5 km, um trajeto nada atrativo ou divertido, mesmo com a proposta do game.

Outro ponto agridoce de Monster Slayer é o sistema de batalha. Diferente de Pokémon GO, aqui você não captura nada; você mata. Seu objetivo é limpar o mundo dos monstros, um de cada vez. Para isso, o jogo entrega um confronto muito divertido contra as ameaças, mas com alguns contras.

Para enfrentar um monstro, ele precisa entrar na sua área de batalha no mapa. É um espaço consideravelmente satisfatório e que te permite jogar de casa – mas você não vai crescer como bruxo se não sair do lugar. Quando a ameaça chega, você clica no monstro, seleciona seu equipamento para enfrentá-lo (contando com espada, poções, óleos e bombas) e a luta começa.

O bestiário do game é bem extenso.

Durante a batalha, você possui dois tipos de ataque: forte e rápido. Você golpeia arrastando o dedo pela tela, em direção ao monstro, e existe um ritmo para deferir cada tipo de golpe. Se você for acertando a fraqueza daquele inimigo, sua barra de crítico enche e te dá um golpe especial. Além disso, você pode defender clicando apenas uma vez, atirar bombas e usar Sinais, que requerem um movimento específico na tela, imitando a runa daquele poder.

O sistema em si é muito legal e desafiador. É uma versão mobile perfeita da batalha original de The Witcher. Cada monstro possui suas fraquezas, você pode usar espada de aço ou prata, vários tipos de bomba, óleo e poção e por aí vai. No entanto, por conta disso, é uma ação que consome tempo e concentração e que dificilmente você consegue fazer andando ou correndo, como capturar um Pokémon. Principalmente para inimigos mais difíceis, será necessário parar em um lugar e ficar um tempo ali até derrotá-lo. Talvez você precise tentar mais de uma vez.

Assim, jogar Monster Slayer da forma que ele se propõe te deixa mais vulnerável na vida real do que deveria. Em épocas tão difíceis, além de não ser recomendado sair ou ficar tanto tempo fora de casa, parar em lugares abertos, com celular em mãos, não é a melhor opção.

Parece que a atenção técnica dada ao game foi tamanha que a produção perdeu um pouco o escopo “humano” da realidade aumentada. Esse é um game single player, que pouco incentiva jogar com amigos e que requer que você passe muito tempo fora de casa, te manda para lugares distantes e possivelmente problemáticos e que te faz ficar parado em um ponto por muito tempo. Pode ser que em países com uma taxa de violência urbana baixa isso funcione. No Brasil, não recomendo.

Dê muitas moedas para o Bruxo

Moedas demais pro Bruxo.

Isso sem contar que, ainda que seja gratuito, esse é um jogo caro. Como é de se imaginar, Monster Slayer conta com suas microtransações com moedas, equipamentos, poções, óleos, bombas e itens variados. Para se ter uma ideia, o “kit de iniciante” do game custa R$27,90 – e mesmo que venha com muitos itens e uma espada de prata (você começa apenas com uma espada de aço), ainda é um valor altíssimo, principalmente quando os consumíveis do jogo são muito necessários para o seu avanço.

Se você já jogou The Witcher 3, sabe o peso que óleos, poções e bombas possuem em suas batalhas. Na verdade, ter um item específico pode ser a diferença entre sua vitória e derrota na maioria das vezes. Monster Slayer funciona da mesma forma, com a diferença que seus inimigos não te deixam moedas ou coisas para vender, você precisa trabalhar muito para conseguir ingredientes para produzir seus próprios itens e as missões diárias pagam uma miséria.

Tudo o que você precisa para enfrentar os monstros está disponível na loja, porém. Lá, as moedas de ouro variam entre R$4,90 até R$546,90 – e os itens, em si, não custam poucos trocados.

Um sistema com valores tão pesados tira qualquer graça que o game teria, ainda mais quando ele já é prejudicado pela falta de tato com o mundo real. O sistema de recompensas não é justo e a loja passa longe de ser razoável. Dessa forma, pode até ser divertido matar alguns monstros no início, mas, como existem esses empecilhos na progressão, logo você perde a vontade de continuar ali.

Nota

Nota: 6,5/10

Tecnicamente, The Witcher: Monster Slayer é fenomenal. A experiência inicial do game é ótima e deve fazer qualquer fã da franquia feliz. É notável o trabalho que a equipe de desenvolvimento empregou no jogo e ele introduz vários elementos interessantíssimos para o universo mobile e de realidade aumentada.

No entanto, os valores das microtransações, as recompensas baixas do game e a falta de tato na aplicação da realidade aumentada na… realidade(?) podem minar o tempo de vida de Monster Slayer – o que, sinceramente, é uma pena.

Pelo primor técnico e fidelidade inquestionável à franquia The Witcher, Monster Slayer leva 6,5 estrelas da Legião. Poderia e ainda pode ser melhor se os desenvolvedores entenderem que o mundo real é mais perigoso e problemático que o universo do Geralt.

E você, já jogou The Witcher: Monster Slayer? Não esqueça de comentar!

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sobre o autor Márcio Jangarélli

Assessor, redator e jornalista. Madonna de Jakku.