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Review: Returnal sabe quebrar muito bem seus próprios ciclos

Por Gus Fiaux

Um dos lançamentos mais aguardados do ano, Returnal é um novo exclusivo do PlayStation 5 que acaba de chegar às lojas. O jogo desenvolvido pela Housemarque te coloca na pele de Selene, uma mulher que é obrigada a reviver a sua queda em um planeta alienígena toda vez que morre – tudo isso enquanto enfrenta seres estranhos nas ruínas de uma civilização ancestral.

Bebendo da fonte de H.P. Lovecraft e outros autores do horror cósmico, o game combina o melhor de dois mundos – seu visual exuberante e cheio de detalhes e uma trama misteriosa, repleta de enigmas que vão se desenrolando. Mas tudo isso vem junto de uma jogabilidade suave e que faz o melhor uso possível do controle DualSense. Ficou curioso? Então confira aqui a nossa crítica de Returnal!

Ficha Técnica:

Desenvolvedora: Housemarque

Publicadora: Sony Interactive Entertainment

Diretor: Harry Krueger

Produtor: Jari Hokkanen

Programadores: Ari Arnbjörnsson e Markku Velinen

Artista: Suvi Järvinen

Escritores: Harry Krueger e Harry Tikkanen

Compositores: Bobby Krlic

Plataforma: PlayStation 5

Data de lançamento: 30 de abril de 2021

Returnal sabe quebrar muito bem seus próprios ciclos

A ideia de vida e morte é um dos maiores pináculos da nossa sociedade, como um todo. Religiões cultuam esses dois aspectos, templos são erguidos e o “embate” entre esses conceitos é explorado em todas as formas de narrativas possíveis, da televisão aos livros, filmes, quadrinhos e, obviamente, jogos. Em um jogo, uma de suas principais metas é não morrer. Você precisa enfrentar seus inimigos enquanto chega ao fim com vida para conseguir sua almejada vitória.

Claro que, nos últimos anos, vários jogos têm desafiado essa lógica – games como Death Stranding, onde a morte te ronda com um apetite voraz; o recente It Takes Two, onde ela simplesmente é irrelevante e os vários outros jogos que acabaram incorporando modos hardcore permadeath. Porém, Returnal leva isso a outro patamar, ao criar uma ambientação tão densa e claustrofóbica que consegue, pouco a pouco, te fazer clamar pela insanidade e pelo fim de tudo.

O jogo produzido pela Housemarque começa de uma forma bem  simples – e é melhor se habituar a esse começo, já que você vai revisitá-lo incontáveis vezes. Selene, uma exploradora espacial, acaba caindo no mundo desolado de Atropos, um planeta fora dos limites de sua jurisdição. Lá, ela acorda com uma única pistola e precisa viajar pelos biomas inóspitos do planeta enquanto é atacada por vários seres hostis. A cada novo lugar, ela descobre mistérios inéditos enquanto o jogador precisa decifrar tudo que há por trás daquele mundo.

Porém, nem tudo é tão fácil quanto parece. A cada vez que você morre, retorna para seu lugar de origem – ou seja, o local da queda de sua nave. Você perde todas as suas melhorias, itens e armas novas e volta como no começo, com uma pistola e sozinha contra o mundo. Porém, Returnal sabe contornar o que seria uma jogabilidade totalmente insuportável e modorrenta ao fazer com que o próprio planeta ao seu redor mude a cada retorno.

Basicamente, um único cenário é fixo. Quando você volta, todo o mapa é reconfigurado para sempre te fornecer uma experiência nova e desafios progressivos. Mesmo que você morra e retorne à vida continuamente, sempre encontrará novas ameaças e lugares inexplorados. Até mesmo os cenários sofrem leves alterações, sempre causando um senso de desorientação e confusão. De início, o que é repetitivo logo se transforma em algo mais desafiador e ousado.

O grande problema aqui é a dificuldade. Derrotar as criaturas em si não é um problema muito grande – ao menos, não até chegar nos chefes. Porém, ainda é bem difícil desbravar os mapas quando não se tem um senso certo de onde ir – e isso é algo que permeia bastante as primeiras horas do gameplay. Mais para o meio, quando você já memorizou alguns dos biomas e sabe o que fazer em cada pedaço do mapa, as coisas ficam muito fluidas e engajantes – é aqui que o jogo começa a mostrar seus contornos gloriosos.

Fica nítido, desde o início, que Returnal esconde muita coisa sob sua superfície. É bem mais do que uma história envolvendo um planeta esquecido pelo tempo e que já foi habitado por criaturas magníficas. Tudo gira em torno da própria Selene – e não é à toa que ela está sempre vendo cadáveres de si mesma em todos os lugares que passa. A forma como o jogo aborda justamente o ciclo é excepcional e digna de grandes obras da ficção científica, como A Chegada.

Por fim, ainda há a questão da jogabilidade. O game pode parecer simplório quando você retorna sempre com a mesma arma, mas ao longo do mapa há várias armas diferentes e melhorias – ainda que você só possa usar uma por vez. A fluidez de movimentação é outra coisa muito positiva, embora a área de inventário e itens consumíveis seja um pouco confusa, ainda mais com toda a questão das mortes e retornos.

Porém, o que mais cativa em Returnal é justamente sua produção técnica e estética. O jogo faz todo o uso da mais nova tecnologia do PlayStation 5 (ainda que seja desenvolvido com a Unreal Engine 4) para entregar visuais que são, acima de tudo, belíssimos e misteriosos. A névoa parece real, as árvores e seres possuem texturas e até mesmo o design de Selene casa muito bem com a proposta – mesmo sendo algo bem mais simples que o mundo terrível ao seu redor.

Um destaque é o uso dos gatilhos adaptativos e dos sensores hápticos do DualSense. No controle, você consegue sentir as mínimas variações de vibração que indicam a chegada de inimigos. Quando chove, é como se gotas de chuva fustigassem suas mãos. Tudo isso ajuda o jogador a ficar ainda mais imerso na trama. Quanto mais morremos, mais queremos ver os mistérios que esse mundo escondem porque a Housemarque faz um trabalho brilhante de te colocar de fato dentro da história.

E para os fãs de uma ficção científica e um horror mais “cabeça”, como os mitos de Cthulhu e toda a exploração sombria do horror cósmico, há muito a se observar aqui – ainda que o jogo crie algo novo e não fique apenas explorando repetições da obra de H.P. Lovecraft. Ainda assim, há uma sensação de miudeza cósmica, quase como se o peso do mundo fosse grande demais e nos esmagasse a todo tempo.

Em suma, Returnal é um dos lançamentos da nova geração mais interessantes já produzidos. É um jogo que transita entre o medonho e o curioso, enquanto você nunca perde um senso de perigo iminente. Mesmo com os retornos, cada morte tem um peso e não é tão simples passar por elas quanto parece. Mas se você, assim como Selene, está disposto a deixar tudo o que ama para trás e começar do zero, talvez seja o jogo perfeito para você.

Nota do jogo: 4,5/5

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux