Review: Caótico e divertido, Marvel’s Guardians of the Galaxy traz a galáxia à vida com maestria

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Review: Caótico e divertido, Marvel’s Guardians of the Galaxy traz a galáxia à vida com maestria

Por Melissa de Viveiros

Em 2014, a Marvel Studios fez o que, na época, foi considerado uma aposta arriscada: apostar em um filme dos Guardiões da Galáxia. O risco, no entanto, acabou mais que válido pela recompensa, que tornou uma equipe de heróis até então desconhecida em um grande sucesso.

Agora, o time cósmico está fazendo sua estreia também nos video games, e ganhará um título próprio no qual os jogadores poderão assumir o papel de Peter Quill e experienciar na pele como é difícil manter uma equipe tão diversa unida. Feito pela Eidos-Montréal, o jogo deixou muita gente em dúvida após alguns títulos do universo Marvel não serem tão bem recebidos como o esperado. Felizmente, os Guardiões mais uma vez conseguiram ir contra todas as expectativas e protagonizar um título divertido que tem muito a oferecer tanto para os fãs dos filmes quanto os dos quadrinhos — ou mesmo os novatos na franquia.

Ficha técnica

Título: Marvel’s Guardians of the Galaxy

 

Data de Lançamento: 26 de outubro de 2021

 

Desenvolvedora: Eidos-Montréal

 

Distribuidora: Square Enix

 

Plataformas: PlayStation 4, PlayStation 5, Xbox One, Xbox Series X | S, Nintendo Switch (Cloud version), GeForce Now e Microsoft Windows

 

Gênero: Ação e aventura

 

Modos: Single player

Holding Out for a Hero

Cenários coloridos e cheios de personalidade estão presentes desde o início do game.

Os filmes de super-heróis chegaram aos cinemas há décadas, mas nunca em tamanho volume ou conquistando tanto público quanto atualmente. Não é surpreendente, então, que adaptações desses personagens cheguem também aos videogames com frequência cada vez maior.

Entre os títulos baseados em obras da Marvel, os resultados até o momento são bem distintos. Se Marvel’s Spider-Man se tornou um grande sucesso, elogiado tanto por sua trama quanto por sua jogabilidade, o oposto é dito de Marvel’s Avengers, uma das maiores decepções no gênero. Felizmente, Guardians of the Galaxy consegue escapar ao destino deste último apesar da apreensão que muitos tiveram sobre o game seguir o mesmo caminho.

Na obra, o jogador assume o papel do Senhor das Estrelas, Peter Quill. Como líder da equipe, é você quem direciona Groot, Rocket, Drax e Gamora em batalha, combinando poderes e utilizando o potencial da equipe de desajustados ao máximo. É fora do combate, porém, que o game realmente se destaca, explorando mais das histórias individuais dos personagens, bem como de sua relação por vezes conturbada como grupo.

Não é tarefa rápida conseguir acesso aos muitos diálogos que revelam mais sobre os companheiros de Quill, mas a recompensa é justa para quem se interessa não só em ver heróis batendo em inimigos, e sim em conhecer suas histórias. Certos coletáveis servem para que, ao retornar à nave Milano, seja possível conversar com os outros personagens — podendo então saber mais sobre o passado de Rocket e alguém importante para ele, sobre o planeta de Groot, a família de Drax ou a vida de Gamora.

Esses grandes traumas, já conhecidos por quem acompanha a equipe em outras mídias, não deixam de ser trabalhados na trama principal. Um dos grandes destaques, nesse sentido, vai para Gamora. O game faz um ótimo trabalho de ressaltar como o passado dela é essencial para sua identidade como heroína, ao mesmo tempo em que pode torná-la mais violenta e impulsiva que a demanda por estar do lado certo aceita. 

Acima de tudo, o jogo é muito bem sucedido em fazer com que a pessoa com o controle consiga entender e empatizar com o que ela passa — afinal, por mais que possa ser difícil se colocar no lugar de alguém que teve sua raça dizimada e cresceu “adotada” por uma das maiores ameaças da galáxia, é extremamente simples se colocar no lugar de uma mulher cansada de ver homens poderosos usando garotinhas como ferramentas.

Este, porém, é apenas um exemplo entre vários momentos de construção que se aprofundam um pouco mais nos heróis que o esperado. O título conta com muitos outros, trabalhando a equipe como personagens para muito além do humor, embora este último esteja presente nos momentos certos. 

Mais uma surpresa bem-vinda que o jogo proporciona é em relação às escolhas. Em um título voltado para ação e aventura, que nunca se vendeu como jogo narrativo, é de se esperar que escolhas não afetem nada ou tenham resultados bem simplificados, aparecendo somente nos finais, como em The Witcher 3

Missão relacionada à Lady Hellbender é um dos primeiros momentos onde fica mais evidente que as escolhas importam.

Esse não é o caso aqui: certas escolhas e o sucesso ou falha em momentos chave podem te levar para caminhos bem distintos, ao ponto que é preciso jogar novamente para ver certas cenas e locais no decorrer da trama. Um exemplo disso se dá relativamente no começo, quando a equipe tenta vender um monstro para Lady Hellbender, personagem original do game. O sucesso nessa tarefa não é garantido, e tanto ele quanto a falha dão continuidade à história, ainda que por caminhos diferentes.

Quem é familiar com a equipe dos quadrinhos vai perceber que, apesar de ter inspiração e referências ao mundo apresentado nas HQs, muito também foi adotado dos filmes que tornaram o grupo titular bem mais popular. É o caso, por exemplo, em relação às músicas que permeiam todo o jogo, seja viajando na Milano ou em batalha ao usar o especial do grupo. 

Isso também se reflete nas personalidades de vários integrantes do elenco, que são mais próximas do MCU que dos quadrinhos. Em certos personagens, essa escolha funciona, embora em outros seja algo negativo. Uma das personagens mais prejudicadas pela decisão é Mantis, que acaba se tornando irritante em certos momentos, por ser ao mesmo tempo a personagem divertida e “boba” dos filmes e a Madona Celestial dos quadrinhos.

Certos momentos com Mantis são divertidos, mas personalidade mais próxima dos filmes se torna irritante às vezes.

Ainda assim, a inspiração da trama e a aparição de outros personagens tem muitas influências dos quadrinhos. A principal delas é a saga Aniquilação, cuja trama foi de certo modo adaptada para servir como pano de fundo para o passado do universo apresentado na história.

O enredo do game pode não ser muito surpreendente para os fãs das HQs, mas é executado de modo excelente. O jogo realmente se destaca nesse aspecto, conseguindo divertir e entreter com uma trama bem desenvolvida que é concluída de modo satisfatório. Guardians of the Galaxy surpreende justamente por sua história, que consegue ser interessante, bem desenvolvida e incrivelmente voltada para os personagens. 

Hit Me With Your Best Shot

Além de combate, algumas partes do jogo contam com batalhas de naves, onde você assume o comando da Milano.

Nem só de trama é feito um game de ação e aventura, no entanto. A jogabilidade também tem sua importância, e mesmo com toda a narrativa, não são poucos os momentos de combate presentes no jogo.

Nesse ponto, o destaque não vai para o simples ato de atirar, embora esse seja um elemento recorrente ao se colocar no papel do Senhor das Estrelas. São os poderes e habilidades especiais que realmente tornam as coisas mais interessantes, possibilitando combinações diversas entre a equipe para aumentar o dano ao máximo, e tornando tudo um pouco positivamente caótico quando os inimigos são muitos.

Outro ponto positivo são as armas elementais do protagonista, retiradas diretamente das HQs. A descoberta de novos elementos com efeitos diferentes é importantíssima para impedir que o combate permaneça igual a todo momento, ou que pare de progredir quando os personagens já têm a maior parte de suas habilidades.

Todos os trajes opcionais já são inclusos no jogo, sendo um dos coletáveis. Muitos também são referências aos quadrinhos, e o jogo faz questão de dar os créditos à primeira aparição de cada roupa e dos responsáveis pela obra.

É aqui, porém, que o game começa a apresentar alguns problemas de performance no PS4. Batalhas com número muito grande de inimigos parecem ser pesadas demais para o console da geração passada, que sofre com a queda de FPS nesses momentos. O problema se repete em áreas com grande número de NPCs mesmo fora de combate, e ainda que não torne o jogo “injogável”, o problema é perceptível e pode chegar a irritar em certos momentos.

A situação, porém, parece ser uma consequência da mudança de geração, mais que de falta de qualidade do jogo.Assim, é possível que nos consoles da nova geração esse problema não aconteça. Além disso, pode ser preciso recarregar o último save ao ficar preso entre certas partes do cenário que não foram feitas para serem um caminho. Fora esses dois problemas, porém, o game funciona bem em todos os outros aspectos. 

The Final Countdown

Com muito a ser descoberto e coletado, diferentes caminhos a se seguir ao longo da história e um combate divertido, Marvel’s Guardians of the Galaxy tem muito entretenimento a oferecer a qualquer fã da equipe cósmica. Nem todo jogo precisa ser um “jogo do ano” — e embora não seja um competidor nesse nível, o game certamente cumpre tudo a que se propõe muito bem.

Engraçado, épico nas proporções certas e surpreendentemente cheio de possibilidades, o jogo dos Guardiões da Galáxia consegue trazer o melhor da equipe à vida. Não seria nada mal ter uma continuação com outra história e uma configuração um pouquinho mais expandida da equipe mais caótica da galáxia.

Nota: 9/10

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sobre o autor Melissa de Viveiros

Editora. Graduanda em Letras na UFMG. Elfa noturna em Azeroth, Au'Ra em Eorzea, apoiadora da Casa Martell em Westeros, LoLzeira noxiana e grisha etherealki. Fã de coisas demais e sempre hiperfocada em algo diferente. || @windrunning_