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Review: Lost in Random é um jogo bonitinho, mas será que vai além das aparências?

Por Lucas Rafael

É fácil ter sua atenção ser fisgada por Lost In Random. O game conta com um visual cartunesco muito caprichado que aperta num gatilho de nostalgia certeiro evocando a era em que Tim Burton não estava num coma criativo. E pode apostar que as análises apontando que LiR é uma “animação jogável de Tim Burton” vão chover aos montes. Mas será que por baixo da pintura gótico-fofinha existe um game digno do seu tempo?

Ficha Técnica

Título: Lost in Random

 

Data de Lançamento: 10 de setembro de 2021

 

Desenvolvedora: Zoink Studios, Thunderful

 

Distribuidora: Electronic Arts, EA Orignals

 

Plataformas: PlayStation 4, PlayStation 5, Nintendo Switch, Xbox One, Xbox Series X, Microsoft Windows

 

Gênero: Ação, Aventura, Indie

 

Modos: Jogador solo

Um Mundo Cativante

Lost in Random é ambientado num universo promissor. As primeiras horas de jogo, no entanto, são maçantes e densamente expositivas: você conhece aquele universo através de diversos diálogos e cutscenes. Basicamente, é um mundo regido pela aleatoriedade do rolar de dados – e a rainha (que é a vilã), reside em Sixtopia – cada número do dado tendo uma cidade equivalente que você irá visitar no decorrer do game. Bem, você joga como Even, indo atrás de sua irmã Odd (e esse é apenas um dos inúmeros trocadilhos que o jogo vai martelar). Acontece que ao alcançar os 12 nos, crianças devem rolar um dado mágico que irá decidir para qual dos reinos elas serão transportadas para viver. A irmã de Even rola um 6 e é levada pela rainha. 

Bom, a partir daí inicia sua jornada. Lost in Random demora para engrenar, mas o problema é que essa gordura presente no início do game retorna aí pela metade e bem, a coisa toda é meio arrastada com picos esparsos de diversão. Lost In Random tem um momento a momento de jogabilidade bem questionável. Mas talvez seja este redator que esteja mal acostumado.

Veja bem, ultimamente os jogos tem trabalhado bastante em fazer do simples ato de se mover algo ao menos divertidinho. A movimentação em LiR é pesada e lentinha, mesmo quando você aperta o botão de correr. Talvez tenha sido uma decisão deliberada para que você pudesse absorver melhor aquele universo singular, dotado de uma direção de arte tão primorosa. Só que depois de um tempo o efeito encantador de Lost In Random passa – a maioria das áreas tem o mesmo tom gótico a lá Tim Burton e até os modelos de personagens começam a ser reciclados alucinadamente. 

A glória redentora aqui está em pontuais missões e personagens que trazem um brilho para a jogatina. Um dos chefes requer uma – super manjada e simples, porém inusitada – batalha de rimas para ser vencido. No terceiro mapa uma criatura assombrosa saída de alguma versão distorcida de uma fábula dos irmãos Grimm pede sua ajuda para acabar com uma guerra entre três gêmeos que se digladiam com mechas gigantes. O absurdo e inventividade das situações compensa o ritmo moroso de Lost In Random, até que em breve você se encontra novamente andando por mapas parecidos, tendo de aturar toneladas de diálogos de personagens que querem soar excêntricos. Quando não é divertidamente interessante, Lost In Random é tedioso.

Mas muito se falou sobre o tal combate do jogo, que mistura esse fator aleatório com um jogo de cartas e tudo mais. 

Até o ritmo do combate é repreensível aqui. Logo no começo do game você encontra Dicey, um dadinho que te segue por aí. No combate, você rola Dicey e dependendo do número que ele tirar, você ganha pontos para jogar cartas com efeitos variados – explosivos, diminuição da defesa dos inimigos, armas, cura; cabe a você ir comprando e colecionando novas cartas para aumentar o arsenal de combate.

Talvez eu esteja acostumado demais ao combate frenético de títulos da Platinum ou FPS que requerem uma resposta rápida por parte do jogador, porque até o ritmo do combate aqui pareceu moroso demais. 

Você precisa atirar em cristais nos inimigos para coletar umas bolinhas azuis que preenchem um medidor dizendo quantas cartas você vai sacar. Então eventualmente você aperta triângulo para rolar o dado e pausar o tempo, podendo escolher quais cartas entrarão em ação (cada carta requer uma quantidade X de pontos que correspondem ao número que você rolou no dado) e, se forem cartas de efeito em área, onde elas entrarão em ação. 

Chegou ao ponto que eu não aguentava mais a surra de diálogos excêntricos do game e nem o ritmo engessado do combate – que nunca é lá muito desafiador, veja bem. Sempre parece que você está numa vantagem meio absurda, ou talvez eu só tenha selecionado muitíssimo bem meu deck de cartas ao ponto de tornar a experiência em algo sem graça.

Lost in Random possui um universo único, bonito e carismático até certo ponto. É um título de orçamento limitado, sim, um indie distribuído pela EA originals. Mas infelizmente ele nunca se sobressai em suas mecânicas, tornando a experiência toda em algo de ritmo duvidoso que faz você questionar o uso do seu tempo. Tem seus momentos e é fofinho, mas é todo cravejado por um gameplay que dificilmente arranca alguma satisfação do jogador.

Para dar algum senso de “coisas acontecendo” quando você explora os mapas abertos, por exemplo, o jogo distribui vários vasos em posições nada discretas para que você os quebre e consiga moedas enquanto anda por aí. É um level design absurdamente vazio que faz o belo universo de LiR parecer oco por trás de seus personagens soturnos e engraçadinhos. É melhor assistir O Estranho Mundo de Jack.

Nota: 5/10

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sobre o autor Lucas Rafael

Redator. Entusiasta de coisas demais