Review: Life is Strange True Colors não tem medo de emocionar e construir sua própria história

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Review: Life is Strange True Colors não tem medo de emocionar e construir sua própria história

Por Melissa de Viveiros

Em 2015, a Dontnod Entertainment deu início à franquia Life is Strange, conquistando muitos com a história de Max. A mescla inusitada de uma trama que lidava com problemas muito reais e uma protagonista com poderes especiais caiu no gosto do público, com isso a série recebeu um segundo título, spin-offs e se expandiu até para outras mídias.

O primeiro derivado foi desenvolvido pela Deck Nine, que se tornou a responsável pelo próximo grande título da série, Life is Strange: True Colors. Dessa vez, a trama não se preocupou em estabelecer conexões, apresentando uma nova ambientação, novos personagens, e uma produção que se sustenta sem a necessidade de fazer referências aos jogos anteriores.

Ficha Técnica

Título: Life is Strange: True Colors

 

Data de Lançamento: 10 de setembro de 2021

 

Desenvolvedora: Deck Nine

 

Distribuidora: Square Enix

 

Plataformas: PS4, PS5, Xbox One, Xbox Series X|S e PC

 

Gênero: Aventura gráfica

 

Modos: Single player

Lado A

Quem já conhece a franquia Life is Strange sabe que sua proposta não é trazer mecânicas inovadoras ou complexas, com títulos que tem grande foco na narrativa interativa que apresentam. Para um jogo do tipo conquistar, é preciso uma história interessante, com personagens que façam você se importar e, talvez ainda mais importante, que exista a sensação de que cada escolha importa. Também não é simples criar um personagem que sirva de avatar para o jogador de modo tão direto quanto nas narrativas interativas e ainda assim dar a ele uma personalidade. Felizmente, True Colors acerta em cheio nisso tudo.

Na trama, você assume o papel de Alex Chen, uma empata que vê auras coloridas representando as emoções das pessoas ao seu redor. A jovem se muda de um orfanato para a cidade de Haven Springs, onde irá morar com Gabe, o irmão do qual ela foi separada há 8 anos. É exatamente aí que o jogo tem início, com a personagem descendo do ônibus que a leva para sua nova vida, carregando todos os seus pertences em uma grande mochila. Enquanto aguarda na ponte que serve de entrada para a rua principal do vilarejo, ela (e o jogador) tem um primeiro gostinho de quão espetaculares alguns dos cenários do jogo são. Na versão de PS4, a ambientação cinematográfica se mostrou propícia para fotos múltiplas vezes.

Alex observa a paisagem de seu novo lar.

Também é logo no início que temos as primeiras escolhas, que permitem moldar um pouco o relacionamento entre os Chen e a personalidade da protagonista. Escolhas têm papel fundamental em qualquer jogo de narrativa interativo, mas True Colors trabalha com elas muito bem. Diferente de jogos da Telltale, por exemplo, que frequentemente criavam uma ilusão de escolha que é desfeita caso você tente jogar novamente seguindo outro caminho, o que é decidido no novo Life is Strange de fato afeta o rumo que a história toma. Mesmo em comparação com outros games da franquia, como o primeiro título da série, há uma construção melhor de impacto e consequência. Não existe uma única grande escolha que define tudo. Ao invés disso, as escolhas resultam na construção de uma trajetória que leva a diferentes lugares.

O game consegue fazer com que você queira jogá-lo novamente, explorando cada cena e decisão para ver o que muda no fim. Vale destacar também a facilidade de refazer certos momentos, já que o menu apresenta a opção de repetir ou reiniciar qualquer cena de cada um dos cinco capítulos. Isso permite que o jogador mude a história a partir de qualquer ponto específico, sem precisar jogar tudo de novo para mudar uma escolha em um capítulo avançado, por exemplo.

Os detalhes espalhados nas diversas interfaces do jogo também chamam a atenção. Se o passado da protagonista parece vago à princípio, sem explicações de porque ela estava em um orfanato, como foi separada de seu irmão ou o que aconteceu com seus pais, tudo é proposital. As pistas estão por aí, montando um quebra-cabeças que só se torna completo com a conclusão da história, mas que é bem construído o bastante para que a falta de informação inicial seja um incentivo ao invés de um incômodo.

Ao explorar mensagens antigas e passagens do diário da personagem, é possível ter uma ideia mais clara de quem Alex é, além de como ela chegou até onde está. As memórias espalhadas em objetos presentes no mundo dão mais informações sobre os outros personagens, permitindo que o jogador os conheça melhor a partir de outras perspectivas. Em geral, a interatividade e possibilidades tornam a experiência excelente, fazendo com que o título vá além de ser um filme levemente interativo.

Muitos detalhes podem ser encontrados no MyBlock, nas mensagens e no diário da Alex.

Tudo isso é acompanhado pelas reações da protagonista, que sempre tem um comentário a oferecer sobre as novas descobertas. Seja por meio das piadas, do quão fácil é se relacionar com ela ou de seus dramas, Alex é feita na medida certa para que você se coloque no lugar dela sem se tornar vazia — e é uma das melhores personagens da franquia, na minha opinião.

A heroína da trama não é a única que se destaca, no entanto. Gabe é o irmão mais velho que todo mundo gostaria de ter, e é difícil não gostar de Eleanor, Riley, Duckie ou Jed. Até personagens mais “babacas” como Mac não são caracterizados de modo insuportável, sempre tendo mais de uma característica ou motivação. É impossível não querer conhecer os integrantes do elenco melhor. Mesmo os NPCs das ruas, que sequer são parte da trama principal, fazem com que você queira saber o que acontecerá com eles. A vontade que fica é de permanecer em Haven por mais tempo, apenas para passar mais tempo ao lado dos personagens. 

É difícil não querer um irmão como Gabe.

Steph e Ryan, os amigos que te acompanham ao tentar desvendar o mistério central da trama, não só são divertidos como muito bem construídos. Por mais que seja fácil gostar deles, nenhum dos dois é perfeito, e suas falhas apenas contribuem para torná-los mais profundos e humanos. Os dois também são as opções de romance apresentadas para Alex, e o jogo acerta nisso ao incluí-los na trama igualmente. Quem não escolheu Chloe como par romântico no primeiro jogo da série sabe que Warren não recebeu o mesmo desenvolvimento ou envolvimento na trama, mas True Colors não comete o mesmo erro.

Como já deve ter ficado claro, um dos pontos mais fortes do novo LiS são seus personagens. Nenhum deles parece um estereótipo ou caricatura, ninguém é completamente bom. Em um jogo que lida tanto com emoções, o trabalho de mostrar a complexidade disso é excelente. Pessoas boas também têm sentimentos terríveis, e pessoas ruins nem sempre são desprovidas de sentimentos bons. Ver as “verdadeiras cores” de cada um por meio dos poderes de Alex torna tudo ainda melhor, possibilitando que situações interessantes sejam criadas com a oposição entre o que alguém demonstra e o que realmente sente.

A mecânica dos poderes de Alex se integra perfeitamente na narrativa, além de ser muito interessante.

A trama toca em diversos assuntos delicados que vão de drama pessoais à assuntos mais abrangentes e complexos, desde abandono parental ao impacto que uma grande empresa tem em uma cidade pequena. Charlotte, a namorada de Gabe, protagoniza um momento pesado e emocionante que acrescenta muito à história, lidando com as dificuldades e contradições inerentes aos sentimentos de modo sensível e significativo. Alguns elementos, como o passado da própria Alex, são profundamente tocantes, principalmente após passar tanto tempo na pele dela. Os paralelos com a realidade não são poucos, e mesmo que o jogo não se aprofunde em tudo, o que é apresentado é feito com grande cuidado, emocionando em mais de um capítulo da história. 

Ethan é outro personagem que se destaca, não só por ser ótimo como pelo que acrescenta à trama como uma criança em meio ao drama que acontece. O garoto protagoniza alguns dos usos mais interessantes do poder de Alex, já que por meio de emoções intensas ela pode explorar o mundo pelo ponto de vista de outra pessoa. Os poderes da protagonista possibilitam cenas incríveis, principalmente aliados à visão de mundo do garoto. A primeira delas acontece logo no primeiro capítulo, quando ela passa a ver o mundo por meio do medo dele.

Para uma criança aterrorizada, uma ravina pode parecer um monstro.

Lado B

Talvez até como resultado de apresentar um desenvolvimento tão positivo no decorrer da trama, o final é um dos pontos mais fracos do jogo. Embora as revelações e reviravoltas sejam bem feitas, e algumas das últimas cenas sejam realmente impactantes, a conclusão em si parece corrida. Em oposição a tudo que vem antes, em um game que te deixa percorrer a rua principal e interagir mesmo com NPCs sem relação com a narrativa principal, o final sequer possibilita a interação com os personagens mais importantes da história, apresentando tudo de modo rápido que tira o peso de certos acontecimentos.

De modo relacionado, o romance acaba sendo um ponto negativo no fim. Embora acerte ao desenvolver os dois interesses românticos e sua amizade com eles, True Colors falha ao deixar essa amizade de lado no final. A partir do momento em que um romance é escolhido, o relacionamento com o outro personagem deixa de ter importância, o que é péssimo em um jogo onde os personagens e interações são um ponto central.

Algumas coisas fizeram falta no fim do jogo.

Tecnicamente, o novo Life is Strange também apresenta alguns probleminhas, que incomodam mesmo que não sejam graves. Um dos bugs encontrados fazia com que uma luz esverdeada tomasse metade da tela, que em outros momentos ficava preta. Também aconteceu uma vez de, ao retornar a uma cena em busca de coletáveis, o jogo parar de funcionar, embora nada semelhante tenha acontecido que impedisse ou atrapalhasse o progresso em outros momentos. A tradução é outro problema, chegando a apresentar erros em determinados momentos, como na mudança de “draw” em relação a puxar uma carta para “desenhar”, o que não faz sentido algum no contexto em que acontece. Ainda assim, é possível que esses problemas sejam consertados, o que faria a diferença para tornar um bom jogo ainda melhor.

Nota

O maior acerto do game está em todos os sentimentos que ele proporciona, do quentinho no coração em cenas leves e descontraídas ao peso e tristeza das partes mais trágicas. Ao colocar o jogador no papel de uma empata, alguém de fora vivenciando o mundo pelas emoções dos outros, essas situações se tornam ainda mais vívidas e interessantes, contando com um ótimo trabalho de construção, visuais incríveis e momentos muito impactantes. A trama não tem medo de brincar com as emoções do jogador, tornando a jornada uma montanha-russa no melhor sentido possível.

Sem medo de caminhar com as próprias pernas, o título apresenta uma história inteiramente nova que não depende de seus antecessores, mas aprende com tudo que veio antes. Como resultado, Life is Strange: True Colors se consolida como um dos melhores títulos do gênero, e recebe nota 9/10 da Legião.

Life is Strange: True Colors leva uma nota 9/10

Life is Strange: True Colors estará disponível para PlayStation 4 e 5, Xbox One e Series X|S, PC por meio da Steam e da Windows Store, GeForce Now e Google Stadia do dia 10 de setembro de 2021. Além disso, o jogo receberá a DLC Wavelengths, protagonizada por Steph, no dia 30 de setembro deste ano. No Nintendo Switch, o novo LiS chegará em algum momento no fim do ano.

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sobre o autor Melissa de Viveiros

Graduanda em Letras na UFMG. || What is infinite? The universe and the greed of men. || @windrunning_