Review: Disco Elysium no PS5 ainda entrega uma viagem surreal e única

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Review: Disco Elysium no PS5 ainda entrega uma viagem surreal e única

Por Márcio Jangarélli

Demorou, mas chegou: Disco Elysium, o aclamado RPG do estúdio ZA/UM, lançado no final de 2019, ganhou uma versão aprimorada para PlayStation 4, PlayStation 5 e Stadia no final do mês passado. Depois de uma enxurrada de prêmios e elogios, chegou o momento de testarmos o game no console e decidir se a adaptação funciona tão bem quanto o original.

Joguei Disco Elysium pela primeira vez no PlayStation 5 e posso dizer que nunca, em todos esses anos de jogos eletrônicos, experimentei algo assim. Vem comigo desvendar os mistérios de Revachol!

O que é Disco Elysium?

Imagem promocional de Disco Elysium com o Tenente Kim Kitsuragi e o detetive sem memória.

Disco Elysium é o aclamado primeiro projeto do estúdio estónio ZA/UM. O game foi lançado em Outubro de 2019, exclusivamente para PC. Ele é um CRPG (Computer Role Playing Game) policial de investigação, sem batalhas, onde os “conflitos” e principais decisões são tomadas com rolagem de dados e probabilidade – baseado na distribuição de pontos em uma árvore de habilidades que contempla os traços de personalidade do protagonista.

A história de Disco Elysium se passa em Elysium, um mundo ficcional de realidade fantástica criado pelo roteirista do game, Robert Kurvitz, anos antes da produção do jogo começar. Nessa realidade, o jogador entra na pele de um detetive com amnésia que precisa investigar um possível linchamento no devastado e minúsculo distrito de Martinaise, situado na baía industrial da grande cidade de Revachol.

O jogo é feito em gráficos isométricos e você pode explorar as ruínas habitadas de Martinaise e seus arredores, como a Vila dos Pescadores, a Igreja da Mãe do Silêncio e o Píer Abandonado. Antes de iniciar o game, você deve definir o arquétipo do seu protagonista, podendo escolher entre “Pensador”, “Sensível”, “Físico” ou uma versão personalizada, onde você distribui os atributos do personagem.

Uma nova versão de Disco Elysium foi lançada em 30 de Março de 2021 com o subtítulo “The Final Cut”. Além de disponibilizar o game para consoles, começando pelo PlayStation 4 e PlayStation 5, agora o jogo conta com dublagem para todo o seu elenco de personagens, novas missões, se aprofundando na política de Elysium, e correção de erros que os jogadores encontraram no original. Aqueles que já possuíam o game receberam as novidades em uma atualização gratuita.

Vale ressaltar que Disco Elysium: The Final Cut está totalmente traduzido e localizado para o português brasileiro. Você pode encontrar o game na PlayStation Store, Epic Store, Steam, App Store e no Stadia.

O que achamos de Disco Elysium: The Final Cut?

Vista de Martinaise, o distrito onde o game se passa.

Já passamos muito da época em que jogos eletrônicos eram feitos apenas para esquecer um pouco da vida metralhando ou fatiando monstros. Conforme a criação de games independentes cresce, vemos novas interpretações, estilos e conceitos do que pode ser um jogo; de como essa mídia pode ser usada para gerar experiências completas, profundas, muito além de “só” diversão.

Fazia um tempo que eu queria testar Disco Elysium. Entre 2019-2020, durante a época de premiações, esse game indie e misterioso, que as pessoas só conseguiam descrever como “único”, estava lá derrubando títulos enormes da indústria. Mas eu não sou muito fã de jogar no PC, já passo muito tempo nessa máquina para colocar meu lazer aqui também, então resolvi esperar a vez dos consoles.

No último dia 30, depois de muita, muita espera, Disco Elysium chegou para PlayStation 4 e 5 em uma versão expandida do game. Em entrevistas, o pessoal do estúdio ZA/UM afirmou que tirou esse tempo para gravar e regravar dublagens para boa parte da infinidade de diálogos do jogo, algo que levou cerca de 14 meses para finalizar – além de adicionar correções pedidas pelos jogadores e novas missões. E vou dizer: todo o trabalho valeu a pena.

Disco Elysium vai te prender, seduzir, e deixar louco. É algo impressionante e dificilmente você vai sair dele sem querer discutir teorias com as pessoas ou pesquisar mais sobre esse mundo, esses personagens. E por personagens eu digo os físicos e as vozes interiores do protagonista. Assim, colocar uma dublagem incrível, de qualidade absoluta, em tudo isso foi o toque de mestre para gerar uma obra prima.

A arte de Disco Elysium foi criada pelo pintor estónio Aleksander Rostov.

Imagine que você começa sua aventura direto em uma conversa com os piores fantasmas internos do protagonista. É uma mistura de poesia e filosofia que te joga sem aviso na tormenta caótica que são esse detetive e mundo. As vozes te arrepiam, colocam as garras na base da sua espinha e você nunca se acostuma; cada parte dessa psique possui um comportamento diferente, bem moldado, que te guia nessa história.

Para melhorar, a arte de Disco Elysium é fantástica. Enquanto no sentido “gráficos” este é um jogo bem simples, seguindo o estilo isométrico na construção de mundo, menus sem muitas firulas e tudo mais, todo game é moldado como se você estivesse andando em uma pintura de pinceladas brutas, inspirada em vários períodos da arte europeia, principalmente do leste europeu. Os retratos de personagens, fotos que você tira ao longo do jogo, cada um dos ícones que representam sua personalidade multifacetada; todos eles poderiam estar em um museu.

Assim, não é exagero afirmar que esse é um dos jogos mais artísticos e conceituais por aí. Da narrativa poética ao design brilhante. Também, este é um game puramente político, que trabalha descaradamente e sem medo conceitos pesados, do materialismo histórico, luta de classes, economia, até corrupção estatal, individualismo, racismo e homofobia. Totalmente denso, onde o mundo de Elysium espelha, distorce, exagera e caricaturiza situações reais. As missões extras do The Final Cut são exatamente sobre política, expandindo esse lado do game.

Mas aí vem a questão: com tudo isso, Disco Elysium consegue ser divertido?

Sim. Muito.

Mesmo com toda essa intensidade nos blocos que constroem o jogo, o estúdio ZA/UM conseguiu a proeza de fazer uma aventura divertida, emocionante e viciante. Inclusive, talvez as novas dublagens tenham melhorado o game nesse sentido, quando ouvir os diálogos, com entonação, ritmo e humor, torna essas temáticas mais palatáveis do que apenas ler.

O visual do game é simples, mas mágico ao mesmo tempo.

Além disso, Disco Elysium possui um humor muito inteligente, aplicado nos momentos certos para dosar a trama. Enquanto você desvenda o assassinato e todas as questões sindicais de Martinaise, existem missões secundárias sobre mistérios possivelmente sobrenaturais, ou sobre a vida desregrada do detetive, que balanceiam essa conta. Sem contar que as opções de caminho para o seu personagem são muito divertidas e, no fim, você pode controlar que tipo de história quer trilhar.

No entanto, é preciso notar alguns pontos que poderiam ser melhorados nessa versão para console. Nem tudo são flores em Revachol.

Meu gameplay teve dois problemas principais com Disco Elysium. O primeiro deles foi na adaptação dos controles para o console. Como dito, esse é originalmente um CRPG, um jogo para PC, e era jogado com o mouse, apontando e clicando. A transição para um DualSense ou DualShock da vida não ficou das melhores na interação do seu personagem com o mundo. 

Você precisa escolher onde ele vai agir com o direcional direito, nem sempre todas as opções aparecem e as coisas podem ficar um pouco confusas. Ainda, a movimentação é um pouco travada e você vai acabar ficando preso em alguns momentos, principalmente por conta do mapa isométrico do game, que nem sempre colabora com um joystick.

Já o segundo ponto é sobre as fontes usadas no jogo, especialmente na caixa de diálogos. É uma fonte muito pequena, difícil de ler e com poucas opções de mudança. Considerando que o núcleo do game está nos textos, em ler e entender o que está acontecendo – mesmo com os diálogos dublados – esse é um problema sério, ainda mais para quem tem problemas de visão (eu sou míope). E era algo a se pensar nessa nova versão, visto que, no console, o game será jogado em telas grandes, mas com uma distância maior entre jogador e tela.

Qual a nota de Disco Elysium: The Final Cut?

Nota: 4,5/5 estrelas

Probleminhas à parte, Disco Elysium é brilhante. É um globo de espelhos girando ao som da balada do fim do mundo. Não importa que tipo de detetive você escolheu ser em Martinaise, do Apocalipse ou Superestrela; a diversão e a imersão que esse game entrega é fora dessa realidade.

Portanto, para a versão de console de Disco Elysium, a nota é 4,5/5. Três I’s: Inesquecível, imperdível e improvável.

Já jogou Disco Elysium? Não esqueça de comentar!

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sobre o autor Márcio Jangarélli

Assessor, redator e jornalista. Madonna de Jakku.