Chucky 1×02: Me dê algo bom para comer

Capa da Publicação

Chucky 1×02: Me dê algo bom para comer

Por Gus Fiaux

Quem acompanha a franquia do Brinquedo Assassino desde o começo sabe que, ao longo de sua sanguinolenta trajetória, Chucky já passou por fases diferentes no cinema. Se excluirmos o reboot de 2019, ele teve sua primeira fase na trilogia original, onde precisa caçar o menino Andy Barclay. Aqui, ele é tido como um assassino letal que não faz distinção quando o assunto é matar.

A segunda fase engloba A Noiva de Chucky O Filho de Chucky, e é quando o personagem se torna um ícone não só do horror mas também do humor, ao mesmo tempo em que se torna mais humanizado e tem a chance de formar sua própria família ao lado de Tiffany Glen/Glenda. A terceira fase, que vem de A Maldição de Chucky O Culto de Chucky, já resgata o lado mais sádico do boneco, ao mesmo tempo que o mostra como um exímio manipulador.

E agora, temos Chucky, a série de TV lançada pelo SyFy (que está vindo ao Brasil pela Star+), produção elogiada e que traz de volta o brinquedo macabro para as mãos de seu criador, Don Mancini. E é bem interessante notar algo muito curioso aqui: em vez de apenas ser uma “nova fase” nessa saga, a série consegue reunir o que há de melhor e mais interessante em cada um dos “ciclos” anteriores do personagem.

Chucky tenta se aproximar de Jake.

O segundo episódio, intitulado “Me Dê Algo Bom para Comer” começa pouco tempo depois do final do primeiro, ao passo em que Jake Wheeler precisa ir morar com seus tios e seu primo em um casarão suntuoso, enquanto cuida de Chucky, para que o boneco não saia matando a torto e a direito. Porém, é claro que as coisas não funcionam que nem o planejado e o brinquedo decide que é uma ótima ideia ir para uma festa de Halloween.

E nesse sentido, o episódio consegue capturar o espírito dessa data ao mesmo tempo em que nos fornece algo único e original. O boneco vaga a esmo pelas ruas de Hackensack, enquanto causa caos no subúrbio – e tudo isso usando uma máscara da Hello Kitty como disfarce! É tão grotesco e absurdo que toca nos dois extremos de forma convincente, tanto o humor quanto o horror.

Chegando ao local combinado, o boneco logo trata de fazer amizade com uma personagem um tanto quanto peculiar: Caroline Cross, a irmã mais nova de Lexy. É interessante observar como o desenvolvimento do assassino engloba mais aspectos e não pende unicamente pro lado do “psicopata louco”. Tanto nas cenas do presente quanto em vários dos flashbacks que exploram mais do passado de Charles Lee Ray, temos um desenvolvimento… curioso.

Lexy se torna a principal “vilã” da série.

Isso porque, ao menos nesses dois episódios, Chucky consegue abraçar os várias aspectos de suas “fases” anteriores para compor uma personalidade nova e mais tridimensional. Claro que suas tendências homicidas falam mais alto – tanto é que ele faz uma vítima completamente aleatória aqui -, mas ele também consegue mostrar sua manipulação e até mesmo um senso familiar. É quase como se ele estivesse tentando de tudo para não se sentir solitário.

Evidentemente vemos um peso maior disso em Jake, especialmente quando os dois têm momentos de diálogos e de trocas. A sede de sangue está presente, mas ao menos “nas aparências”, Chucky parece se importar com Jake – e não apenas para agredi-lo. O menino, que está passando pela sua própria “coming of rage” (como diz o próprio material promocional da série), começa a se sentir acolhido e influenciado pelo seu único “amigo”.

E se você já viu mesmo qualquer coisa da franquia no passado, sabe que essa trégua e esse período de união não deve demorar muito tempo – e logo, logo, Chucky vai ligar seu modo “frenesi assassino” e inclusive ir atrás de Jake. Só que enquanto isso não acontece, é interessante pautar a mensagem da série de como o bullying também deixa suas marcas e elas são tão violentas quanto agressão física.

A influência de Chucky se espalha…

Quando Lexy Cross se fantasia como pai de Jake Wheeler no momento de sua morte, vemos um protagonista que é falho, humano e cheio de emoções conflitantes num período turbulento e assustador como a puberdade. Mas mais do que isso, Jake Wheeler também mostra como é um garoto despedaçado. Como ele precisa mudar para que as pessoas o levem a sério. E é aí que Chucky entra – não como inimigo, mas como uma Fada Madrinha Sanguinária.

Será interessante ver até onde isso vai rolar e quais serão as principais consequências não só para o brinquedo e seu dono, mas também para toda a cidade de Hackensack. É esperado que uma grande carnificina venha aí – e vale citar que estamos apenas no segundo episódio de oito, então muita coisa já aconteceu, mas ainda vem mais por aí, e parece que as coisas vão seguir um ritmo bem mais denso e assustador.

Chucky continua se provando uma das melhores adições à franquia. É sádica, cruel e ácida, ao mesmo tempo em que parte de anseios muito humanos e mostra como Don Mancini conhece tão bem o personagem que ele mesmo criou. Em seu segundo episódio, a série sabe conciliar humor e horror e explora uma grande variedade de facetas para um boneco – e se isso não é abraçar completamente a essência absurda e camp dessa saga, eu não sei o que é.

Chucky está sendo exibida semanalmente às quartas-feiras, no Star+.

Abaixo, veja também:

Imagem de perfil
sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux