Review: Call of Duty Vanguard relembra as origens da franquia com olhar moderno

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Review: Call of Duty Vanguard relembra as origens da franquia com olhar moderno

Por Arthur Eloi

Goste ou não, Call of Duty é essa máquina de fazer dinheiro que encontrou o equilíbrio entre uma fórmula altamente polida e pequenas inovações anuais para segurar o interesse do público. A noção popular é que não se deve confiar em franquias anualizadas, que sempre entregam mais do mesmo, mas eventualmente as micro-mudanças se acumulam.

A série explorou a Segunda Guerra Mundial, a Guerra Fria, guerras modernas – reais e fictícias -, e até mesmo imaginou como será o futuro do combate. Com a presença da franquia sempre por perto, fica até difícil enxergar sua evolução gradual ao longo das décadas. É isso que torna Call of Duty: Vanguard também surpreendente, que revisita com olhar moderno as sensibilidades dos shooters dos anos 2000 para dizer: sim, estamos ficando velhos quando já existem títulos de Call of Duty que podem ser considerados old school.

Ficha técnica

Título: Call of Duty: Vanguard

Desenvolvedora: Sledgehammer Games

Distribuidora: Activision-Blizzard

Plataformas: Xbox One, Xbox Series X | S, PC, PlayStation 4, PlayStation 5

Lançamento: 5 de novembro de 2021

Gênero: Jogo de Tiro em Primeira Pessoa

Modo: Single-Player, Multiplayer competitivo online, Multiplayer cooperativo online

Esquadrão Suicida

A campanha segue o molde da franquia de criar espetáculos cinematográficos de guerra igualmente rasos e bombásticos. Ao longo dos anos, para se manter a par do resto da indústria blockbuster, a série passou a se focar mais em seus personagens, com tramas pessoais em meio aos conflitos. Call of Duty: Vanguard retoma a abordagem dos primeiros games da saga, que buscam mostrar os vários fronts da Segunda Guerra Mundial, mas com algumas boas sacadas para não cair em repetição.

Dessa vez, a trama é ambientada na reta final do confronto, em abril de 1945, e acompanha uma equipe especial que é enviada para se infiltrar nas linhas inimigas alemãs para descobrir sobre uma elusiva operação. Quando o grupo é capturado, um oficial nazista ordena que todos sejam interrogados sobre a criação dessa inusitada equipe. Isso dá abertura para a campanha funcionar de forma não-linear, com missões que mergulham no passado de cada um dos quatro protagonistas ao longo da Segunda Guerra Mundial.

É uma abordagem que soa bastante como as War Stories de Battlefield, mas com um fio condutor que segura o jogador. O antagonista Hermann Freisinger, um oficial nazista da SS, funciona bem como vilão por sua presença ameaçadora e descontrolada, ainda mais quando se torna um Fuhrer em potencial após a morte de Adolf Hitler. Não que seja um personagem muito bem desenvolvido, claro, mas é tipo de superficialidade caricata que funciona quando se têm nazistas como alvos humanos para o jogador treinar a própria mira.

Os protagonistas também seguram a barra, mesmo sem nenhuma característica marcante além de serem durões, como o líder Arthur Kingsley e a sniper soviética Polina Petrova, ou carismáticos, como o piloto Wade Jackson e Lucas Riggs, especialista em explosivos.

O que faz a campanha se destacar é deixar de lado a pegada heróica de O Resgate do Soldado Ryan, filme de Steven Spielberg em que Call of Duty se espelhou por inteiro durante seus primeiros anos, e adotar uma sacada mais guiada à thrillers clássicos de guerra, como Os Doze Condenados (1967) e O Desafio das Águias (1968). Se o tom soar familiar com O Esquadrão Suicida (2021) em alguns pontos, é porque Vanguard e o diretor James Gunn compartilham das mesmas influências.

Ao longo de seis horas, o jogador terá sua mão segurada por missões lineares, ação ensaiada e uma trama deliciosamente caricata. A campanha se destaca quando funciona que nem fast food: mesmo que não ofereça nada de sustância ou valor nutricional tipo algum, é saborosa o bastante para atiçar partes específicas do seu cérebro e acaba rápido.

No meio disso tudo, até há surpresas genuinamente bem-vindas, como o fato de que Call of Duty enfim entendeu como momentos de silêncio podem realçar a ação. Quando Polina Petrova relembra seu passado como médica do Exército Vermelho, por exemplo, o jogador não mergulha direto no tiroteio, mas sim acompanha por bons minutos o cotidiano na cidade de Stalingrado (atual Volgogrado) antes da invasão nazista. Em outro momento, o piloto Wade Jackson conta de sua experiência na Batalha de Midway, e a missão mostra toda a preparação para decolar, a tomada de voo e os jatos patrulhando os céus antes de iniciar o conflito aéreo.

Há um esforço real da Sledgehammer Games em criar uma experiência com ritmo agradável, e que não fique presa aos mesmos cenários da Segunda Guerra Mundial que já estão saturados no imaginário popular. O estúdio até flerta em fugir um pouco da limitada fórmula de Call of Duty.

As missões de Polina Petrova, por exemplo, soltam um pouco a mão do jogador para que ele tenha mais opções na hora de lidar com arenas infestadas de nazistas, seja pescando inimigo por inimigo e se escondendo nas sombras, ou então mergulhando de cabeça no tiroteio. Tudo isso é elevado pela excelente trilha sonora de Bear McCreary (The Walking Dead, God of War), que dita a tensão de várias das cenas com arranjos macabros de cordas e violinos de arrepiar.

Se você apertar os olhos, quase dá para enxergar Vanguard como algo mais requintado do que realmente é. O problema é quando essa noção sobe à cabeça dos realizadores. A campanha funciona por ser curta e divertida, mas é assombrada por uma falsa noção de ter algo a dizer. Seja na escolha de Arthur Kingsley – um homem negro – como líder da equipe, ou de Polina Petrova como a mais habilidosa do grupo, o jogo frequentemente tenta se pintar como relevante através de um progressismo vazio, sem sutilezas e desprovido de contexto.

Talvez Call of Duty não seja o jogo mais apto a discutir luta antirracista?

Em uma missão, por exemplo, Wade Jackson é resgatado no front do Pacífico pela 93ª Divisão de Infantaria, um batalhão de soldados negros que realmente lutou na Segunda Guerra Mundial. Pela situação e pelo carisma dos personagens, eles já teriam funcionado sozinhos, mas o momento parece carregar a tarefa de educar – tanto Wade quanto o jogador.

Nada soa honesto e ou esclarecedor, apenas autocongratulatório. Há motivos de sobra para desconfiar dessa virada pseudo-progressista de Call of Duty, uma franquia com um currículo considerável de revisionismo histórico, financiamento por forças duvidosas, e até mesmo envolvimento e glorificação de criminosos de guerra da vida real, como ter trazido Oliver North – figura central do escândalo Irã-Contras – como consultor para Black Ops II (2012).

Claro, é sempre bom ver mais protagonismo em minorias, mas aqui não só tudo é conduzido de forma rasa, como também fica difícil lavar o gosto amargo da desespero quando essa tentativa superficial acontece justo quando a Activision-Blizzard – dona da franquia – passa por um escândalo de denúncias de abuso sexual e má conduta em todos os seus departamentos, com até mesmo o presidente da empresa mergulhado em podridão.

A campanha de Vanguard diverte bastante, e chega até mesmo a surpreender pela pelo ritmo, cenários e pela ótima trilha sonora, mas a trama só se sustenta em um vácuo de contexto, torcendo para que o jogador só aceite suas mensagens superficiais e nunca questione o contexto em que foi feita.

No fim das contas, racionalizar a tentativa de pintar a Segunda Guerra Mundial como uma união humanitária contra o preconceito não só é impreciso e revisionista, como também esbarra na maior verdade dita pelo autor Kurt Vonnegut (que de fato lutou no confronto) em seu clássico Matadouro 5: nada de inteligente pode ser dito sobre a guerra.

Mundo em Guerra

Como é tradicional de Call of Duty, a campanha serve só como um aperitivo, e o prato principal é o modo multiplayer. É nele que você provavelmente vai passar o restante do ano, trocando balas com outros jogadores internet afora. Nesse aspecto, a franquia dificilmente decepciona, e anda em uma maré de bons títulos com Modern Warfare (2019), Warzone (2020) e Black Ops Cold War (2020).

Vanguard puxa de volta o motor de Modern Warfare, que é mais fluido e dinâmico que o antecessor da Treyarch. A diferença é notável, mas há poucas semelhanças com o game de 2019, que tinha proposta de ser (levemente) mais tático. Na real, o novo título segue a deixa da campanha, e mira em resgatar a essência dos jogos mais antigos da franquia.

Aos fãs de longa data da série, o game tem um certo gostinho de World at War, último projeto pré-Black Ops da Treyarch, lá de 2008. Isso se manifesta em como a jogabilidade é leve, mas também na sensação meio engessada de controlar boa parte do arsenal, mais truncado de malear que os equipamentos dos títulos recentes. As killstreaks – recompensas por sequências de baixas – também reforçam essa noção, já que parecem mais modestas (e menos apelonas) que a dos capítulos anteriores.

Mesmo o design dos mapas evoca essas comparações, com vários cenários que fogem do padrão de três rotas para criar arenas imprevisíveis e divertidas. Fica claro que o foco aqui é na simplicidade, para dar mais espaço para que os jogadores resolvam suas diferenças na bala.

Essa sensibilidade retrô – afinal, World at War já tem mais de 13 anos – é complementada por alguns sistemas mais modernos. A extensão customização de armas apresentada em Modern Warfare, e replicada em Warzone e Cold War, veio para ficar. Dessa vez, é possível complementar os equipamentos com até 10 peças adicionais, um valor que permite uma variedade enorme de combinações únicas.

A mudança soa um pouco excessiva, com muito mais peças para liberar (e mais níveis para upar necessários para upar o arsenal), mas é uma decisão lógica quando se considera que, ao longo dos anos, o foco da criação de classes mudou das habilidades (Perks) para armas bem calibradas. Vai que dessa forma os desenvolvedores conseguem incentivar os jogadores a explorarem mais combinações ao invés de só se apegarem ao meta da vez, né?

Quando se trata dos modos de jogo, a Sledgehammer também não quis fugir das opções clássicas e consagradas, como Mata-Mata em Equipe, Dominação e por aí vai. Há um modo inédito chamado Batalha dos Campeões, que é uma evolução do modo Tiroteio onde equipes se enfrentam em arenas, na tentativa de drenar os pontos de outros jogadores até se tornarem a última com pontos, mas que é uma bagunça pouco interessante, francamente. Uma das melhores adições é, curiosamente, um filtro para a busca de partidas.

Ao escolher qualquer playlist, o jogador agora tem a opção de definir o ritmo que quer jogar, entre partidas mais cadenciadas ou mais caóticas, com a quantidade de participantes alternando de 12 até 24 players. Em uma opção mais flexível, isso significa cair em uma sala padrão em um momento, e em outra de pura loucura e frenesi logo na sequência, o que ajuda a tornar as playlists mais imprevisíveis e variadas, especialmente em longas sessões de jogo. É algo pequeno? Sim, mas seria ótimo se fosse adotado por mais títulos.

Variedade é o que define o multiplayer de Vanguard. Ainda que preze por dias mais simples de tiroteio online, o pacote é bastante completo e robusto, seja na extensa customização de armas, ou então na grande quantidade de mapas inclusos logo no lançamento.

Com mais de 20 arenas, é raro ficar caindo no mesmo cenário durante algumas horas de jogatina, algo que era bastante comum (e cansativo) em Cold War, por exemplo. A qualidade dos mapas é consistente, com alguns pensados para uma porradaria mais frenética, com Das Haus, e outros mais abertos e complexos, como Tuscan, Red Star e Demyansk. Outra questão que a Sledgehammer resolveu foi não pesar a mão nos remakes, optando por criar arenas originais. De mapas clássicos que voltam, por enquanto há apenas Castle e Dome de World at War, e Shipment de Call of Duty 4.

Os mapas inéditos se destacam dentre os jogos recentes por tentarem fugir daquele padrão de três caminhos, tão motivado pela cena competitiva, que acaba criando rotas previsíveis. Parte disso se dá por um sistema de destruição, que é um dos pontos altos da experiência.

Entre portas, paredes e cercas quebráveis, é possível criar novos caminhos, surpreender inimigos, ou então pegar campers de surpresa. Não espere nada como Rainbow Six Siege ou mesmo Battlefield, mas é o suficiente para dar um gostinho de novidade e surpresa em uma fórmula tão conhecida.

Considerando que é pelo multiplayer que você vai passar mais tempo em qualquer Call of Duty, Vanguard não decepciona, e entrega uma experiência altamente familiar, mas bastante completa e divertida. A maioria de seus problemas – como servidores instáveis e respawns traiçoeiros – podem ser ajustados com atualizações, e a Sledgehammer deve continuar fornecendo mais mapas e modos ao longo do próximo ano, além de conteúdos inéditos para Warzone, que terá progresso e novidades temáticas daqui para frente.

Não é nenhuma reinvenção da fórmula que a franquia faz tão bem. Muito pelo contrário, é um game que abraça de vez suas raízes, e é um verdadeiro prato cheio para quem só quer trocar uns tiros online.

Carne podre

Se a campanha é a entrada, e o multiplayer é o prato principal, sobre um espacinho para a sobremesa: o modo zumbi. Vanguard marca a primeira vez que a Treyarch – desenvolvedora que criou o estilo em World at War – assume o desenvolvimento do modo no game de outro estúdio. O resultado é… morno?

Com um único mapa chamado Der Anfang, Zumbis realmente parece um produto de segunda classe, ainda que encabeçado por uma equipe paralela ao restante do jogo e especialista no gênero. A ideia toda é que o modo do novo título seja um prólogo para os eventos de Cold War, mas essa trama – que envolve viagem no tempo e realidades alternativas – já se tornou algo tão complexo e incoerente ao jogador médio que passa a afetar até a forma como os mapas funcionam.

Ao invés da tradicional lógica de sobreviver a hordas de mortos-vivos, o mapa funciona como uma hub em Stalingrado para várias outras dimensões, para onde o jogador precisa ir e cumprir pequenos objetivos. Há demônios, altares e sistemas de upgrade em excesso, ao ponto de que o vai-e-vem se torna cansativo para quem já não está investido nas particularidades dessa trama para poder justificar a dinâmica.

É uma experiência mais puxada ao modo Outbreak, de Cold War, mas que não se sustenta sozinha. Com sorte, a Treyarch ainda pretende lançar mapas mais tradicionais e divertidos para o modo no futuro, mas por enquanto serve apenas como uma diversão secundária entre opções melhores.

Se você já tem uma opinião formada sobre Call of Duty, Vanguard dificilmente vai te convencer. É assumidamente mais do mesmo, só que dessa vez orientado aos jogos clássicos ao invés de ter alguma sacadinha inédita para tentar te convencer. No fim das contas, isso funciona.

O game oferece um encontro entre as sensibilidades de shooters do início do século com tendências modernas, e entrega uma experiência simples e divertida que não tinha mais espaço entre os excessos barulhentos dos capítulos anteriores da franquia.

A Sledgehammer entrega um pacote bastante completo logo no lançamento, e que só deve crescer ainda mais com o tempo. Call of Duty chegou no ponto em que já tem idade o bastante para ser nostálgica por suas raízes, e ver a combinação do velho com o novo traz a tona como pequenas decisões criam grandes mudanças quando acumuladas ao longo das décadas.

NOTA: 8/10

Call of Duty: Vanguard está disponível no Xbox One, PlayStation 4, PC, Xbox Series X | S e PlayStation 5. A review foi feita com base na versão de Xbox One.

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sobre o autor Arthur Eloi

Repórter entusiasta de filmes ruins, jogos de tiro e de horror em todas as suas formas. Dá notas duvidosas para obras questionáveis • @ArthurEloi117