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O Legado de Júpiter: Josh Duhamel fala sobre a tragédia familiar da série

Por Cristiano Rantin

Adaptação dos quadrinhos de Mark Millar, O Legado de Júpiter está chegando na Netflix nesta semana. Em nome da Legião dos Heróis, participei de uma coletiva de imprensa com Josh Duhamel, intérprete de Sheldon Sampson, mais conhecido sob a alcunha de Utópico, o maior herói deste universo de seres extremamente poderosos. Em uma conversa bem interessante, o ator falou sobre o que o atraiu para a série, os desafios de interpretar um personagem tão complexo e o que ele mais gostou na história. 

Em O Legado de Júpiter acompanhamos a história da primeira geração de super-heróis do mundo. Após um século protegendo a humanidade, eles precisam encarar um novo desafio: O peso do seu legado e seus filhos que tentam seguir a carreira heroica. No entanto, muitas tensões surgem com a segunda geração, uma vez que os jovens não pensam como a velha guarda, tendo ideias bem diferentes do que um herói deveria fazer para salvar o dia.

Uma tragédia familiar 

Lady Liberdade, Utópico e Onda-Cerebral

É Sheldon e sua família que servem como o centro de toda a narrativa da série. Começando nos anos 1930, o protagonista e um grupo de aventureiros partiu em uma jornada épica que resultou em seus poderes fantásticos. Anos depois, já nos dias atuais, a história de Utópico e sua esposa Lady Liberdade gira em torno do drama familiar: Enquanto Brandon, o filho do casal, tenta desesperadamente ser como seu pai, mesmo tendo dúvidas sobre o código de regras estabelecido por ele, Chloe, a filha dos dois heróis, se ressente com os pais ausentes e prefere viver afastada deste legado heroico, seguindo uma vida de festas e drogas.

Para Duhamel, foi exatamente esse conflito ideológico entre pais e filhos que o atraiu para a série:

Meu personagem acredita com muita força nesse código, algo que eles meio que sempre seguiram. Ele se recusa a abandonar isso,” explica. “E isso causa muita rejeição, tanto das pessoas, quanto de sua família. Essa geração mais jovem acredita em algo diferente. Eles acreditam que deveriam ter mais mais poder, mais habilidade de liderar. Mas meu personagem acredita que eles servem as pessoas, sem liderar e, definitivamente, sem matar.” 

Ainda que Utópico seja firme em sua visão, Duhamel teve dificuldades em aceitar o conjunto de regras do seu personagem. Conforme a série avança, vemos muitas discussões sobre se eles deveriam matar ou não os vilões. Enquanto alguns argumentam que isso é uma forma de salvar vidas, o herói é irredutível, defendendo que não cabe aos super agirem como júri e executor. “Se eu pudesse te contar a quantidade de conversas que eu tive com os produtores, os roteiristas e os diretores sobre esse assunto, esse código… Eu não conseguia entender isso,” confessa. “Eu ficava tipo, ‘Tá, me diga isso: Se alguém está prestes a matar o filho dele, o Brandon, você está me dizendo que o Utópico não mataria aquele cara primeiro?’” 

Longe de ser uma pessoa que clama por violência, o ator explica que em uma situação como essa, caso seu filho estivesse sendo ameaçado, ele não hesitaria em fazer qualquer coisa para salvá-lo, mesmo que isso acabasse machucando alguém. Utópico, por outro lado, costuma insistir em buscar outras soluções, sem seguir para a opção de matar em legitima defesa. “Uma das coisas mais  bonitas dessa história é que isso não apenas criou uma grande ruptura entre Utópico e sua família e o público, isso causou muito ressentimento em sua família, com seus filhos e seu irmão,” conta. “A série tem elementos de uma tragédia moderna e eu amo isso. É muito sobre o lado humano [desse universo] e as relações dessa família disfuncional.” 

No entanto, o amor pelo projeto não surgiu logo de cara. Duhamel revela que sua reação foi bem diferente quando ele recebeu o roteiro. No começo eu fiquei ‘Oh, Deus, mais uma série de heróis!’ Eu não sou muito interessado nisso.” Foi somente quando ele começou a ler o projeto, mergulhando fundo nesse drama que conecta os personagens, que ele foi fisgado: “Senti que era muito mais rico do que eu estava esperando,” conta. “É uma experiência muito divertida. Antes disso eu nunca pensei muito nisso, nunca tive muito interesse em fazer algo de heróis, mas agora aconteceu e foi o drama familiar que me conquistou.” 

Uma origem sombria

Utópico enfrentando um dos seus inimigos

Apesar de ser a criatura mais poderosa do planeta, Utópico está longe de ser perfeito ou de ter a vida plena. Tanto na versão dos anos 30, quanto na dos dias atuais, vemos um homem atormentado e complexo, longe da versão idealizada que esperamos quando falamos de um super-herói. “Esse é um cara que passou por muita coisa pelos últimos noventa anos,” declara.

Quando o conhecemos, Sheldon é apaixonado, ingênuo e muito entusiasmado. Mas então, após uma tragédia familiar, vemos uma jornada sombria em sua própria mente. Entre delírios e terrores, o personagem consegue seguir sua jornada e conquistar seus poderes, mas isso definitivamente não foi uma tarefa fácil. “O que eu amo nessa história é que é uma ótima origem. Você conhece exatamente quem são essas pessoas e como a história deles aconteceu. E eu me diverti muito interpretando esse personagem de época,” conta.

Para o ator, uma das coisas que o atraiu para O Legado de Júpiter foi poder interpretar essas duas versões do mesmo personagem. Ele afirma que gostou igualmente dos dois “personagens”, especialmente pela trama mais sombria que sua contraparte mais jovem enfrenta em sua história de origem. “Eu amei ter que ir para esses lugares sombrios e assustadores pq eu realmente vou pra esses lugares e ai levou um bom tempo para sair disso,” comenta. “Pra mim, se eu vou fazer isso, eu preciso ir para esses lugares obscuros.” Apesar do grande desafio que foi lidar com esse aspecto psicológico, o ator defende que foi um processo muito positivo. “Ao mesmo tempo isso é estranhamente terapêutico, sabe, tirar essas coisas de mim.” 

Grande herói, péssimo pai

Utópico tem grandes poderes, mas não lidou bem com sua maior responsabilidade: Ser um bom pai.

Já com ao encarnar Utópico, o que Duhamel mais gostou de trabalhar no personagem foi sentir o peso do mundo em suas costas. Ele é um cara que não se importa mais com esses poderes porque ele os teve por muito tempo,” reitera. E conforme o personagem questiona suas ações, principalmente sobre como ele falhou com sua família, foi possível dar mais profundidade ao herói: “Ele tem muita coisa pra lidar e eu acho que isso é muito divertido de interpretar. Ele tem tanto peso e responsabilidade e estresse, tudo isso junto.”  

Mas viver tanto tempo com esses poderes, sendo o grande herói da terra, tem seu peso: “Você consegue imaginar o sentimento de poder que vem com isso. Ele está em um ponto em que percebe que ter sido consumido pelo Utópico. Ser o líder desse grupo o tirou de coisas que provavelmente eram mais importantes, como estar presente para os seus filhos.”

“Existe um ressentimento com seus filhos. Por causa das expectativas ele coloca no seu filho, Brandon, e da sua incapacidade de se conectar com sua filha, Chloe. Isso faz com que ele questione sua própria vida e o caminho que ele seguiu,” continua Duhamel. “Sim, ele lidera essa liga e ele lidera sua família, mas ele conseguiu liderar sua própria vida em um bom caminho? Ele nunca teve a intenção de fazer isso. Sabe, esse cara consegue fazer qualquer coisa. Ele consegue voar, ele consegue ver um diamante na lua, mas não consegue se conectar com sua filha de 20 e poucos anos. E eu acho que esse é o aspecto da série que eu amo. É muito humano. E é sobre isso que é a série.”

A discussão sobre violência e morte presente na série, ecoa temas que estão sendo debatidos na sociedade atual. Para Josh, é possível fazer muitos paralelos entre O Legado de Júpiter e o mundo real, e de acordo com ele, essa era a intenção do projeto. “O que eu acho que essa série faz é que ele te força a assistir a maneira que sempre agimos e como podemos melhorar no futuro,” diz. “Eu acho que os dois lados precisam se entender. Ele precisa ouvir as novas ideias e possivelmente mudar ou então é darwinismo, a sobrevivência dos mais fortes, e se você não muda e evolui, você morre.”

Por fim, o ator espera que, assim como ele, os fãs deem uma chance para O Legado de Júpiter e sejam surpreendidos positivamente com a série: “Eu acho que as pessoas provavelmente vão chegar esperando uma coisa e sair pensando algo diferente. Eu torço que vejam isso, porque essa era a nossa intenção.” 

A primeira temporada de O Legado de Júpiter chega na Netflix dia 7 de maio.

Confira também tudo sobre  a HQ que inspirou a série da Netflix:

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sobre o autor Cristiano Rantin

Jornalista • Editor • Mestrando em Comunicação pela UEL • Twitter e Instagram: @Chris_Rantin • "Eu sou o fogo e a vida encarnados. Agora e para sempre eu sou a Fênix!"