Não Olhe Para Cima: As temáticas que inspiraram o filme de Adam McKay

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Não Olhe Para Cima: As temáticas que inspiraram o filme de Adam McKay

Por Jaqueline Sousa

Em meio a um fluxo intenso de teorias da conspiração, negacionismo e fake news, o filme Não Olhe Para Cima chegou no catálogo da Netflix na última semana. Dirigido por Adam McKay (A Grande Aposta, Vice), a produção tem gerado discussões acaloradas na internet, especialmente devido às semelhanças da trama com o atual cenário pandêmico que vivemos, além das referências à crise climática e à insistência de muitas pessoas em negarem a realidade mesmo diante de fatos comprovados.

Na sátira política de McKay, a astrônoma Kate Dibiasky, interpretada por Jennifer Lawrence, faz uma descoberta surpreendente: um meteorito está vindo em direção à Terra, e a colisão será capaz de destruir o planeta. Diante da iminente catástrofe, Kate e o cientista Randall Mindy, vivido por Leonardo DiCaprio, tentam alertar a humanidade para o perigo que se aproxima, mas a tarefa não vai ser tão fácil quanto eles imaginavam. 

Caso você já tenha assistido ao filme, provavelmente identificou no enredo algumas temáticas bem familiares – e bastante discutidas – no século XXI. Assim, como a ficção imita a realidade, reunimos aqui algumas temáticas que inspiraram o filme de Adam McKay. Confira!

O que inspirou Adam McKay a fazer o filme?

Em meados de novembro de 2019, a produção de Não Olhe Para Cima teve início sob o comando de Adam McKay, que dirigiu, produziu e também roteirizou o filme. Antigo redator-chefe do programa humorístico norte-americano Saturday Night Live, o diretor contou, em entrevista à revista The Atlantic, que a ideia para a satíra política da Netflix surgiu a partir de um comentário do jornalista David Sirota. McKay relatou:

“Ele disse algo que era mais ou menos ‘O cometa vai colidir e ninguém se importa’. Foi algo improvisado, mas a ideia ficou ali me atormentando.”

A princípio, McKay queria fazer uma crítica relacionada à crise climática, causada pelo aquecimento global, e como muitas pessoas preferem ignorar os sinais do desastre iminente ao invés de reagir. Mas, após finalizar o roteiro, em meio ao clima apocalíptico da pandemia de coronavírus, o diretor se viu dentro de um cenário bastante similar ao de Não Olhe Para Cima. Ele comentou, durante a entrevista ao The Atlantic:

“Nós basicamente fomos para casa… e sentamos em nossas mãos por seis meses juntamente com o resto do mundo.”

McKay também contou que, a partir da nova realidade, ele adicionou novos elementos e situações no roteiro, fazendo com que a história se tornasse ainda mais absurda (via The Atlantic). 

A crise climática e a cultura do colapso

Já em relação aos paralelos do filme com a crise climática, o meteorito que está vindo em direção ao planeta pode ser visto como uma metáfora para o aquecimento global. Como dito anteriormente, a primeira ideia de McKay era justamente fazer uma crítica ao descaso diante das catástrofes climáticas que o mundo enfrenta, consequências da intensa ação humana no meio ambiente.

Em entrevista ao jornal Los Angeles Times, Leonardo DiCaprio, que além de ator também é um ativista ambiental, comentou que sua motivação para participar do longa foi por causa do final:

“O final do filme é muito sombrio, e se ele não tivesse essa mudança de tom, acho que não estaríamos tão entusiasmados para fazer. Não dá para saber qual será a influência cultural de um filme, mas o final deste é realmente um soco na cara.”

Jennifer Lawrence, que também concedeu uma entrevista ao Los Angeles Times sobre sua visão acerca do filme, disse que:

“Tenho certeza que falo isso em nome de todos: é frustrante ser um cidadão que acredita na mudança climática e que está com medo […]”

Em vista desse cenário, Adam McKay também usou o filme para criticar a falta de habilidade comunicativa do século XXI frente a assuntos sérios, como o aquecimento global. Mesmo em um mundo globalizado, com dispositivos eletrônicos e redes sociais à disposição, o futuro do planeta continua por um fio, e a sociedade segue por um caminho ainda mais polarizado do que antes.

O cenário pandêmico, a descrença na ciência e o negacionismo

A não ser que você esteja vivendo em uma caverna, não é novidade para ninguém que nós ainda estamos vivenciando uma pandemia de Covid-19. O decreto oficial da Organização Mundial da Saúde (OMS) aconteceu em março de 2020 e, desde então, o mundo como o conhecíamos não existe mais. Diante de um cenário digno de filme de terror, a pandemia também evidenciou outros vilões além do vírus, como a descrença na ciência e o aumento da desinformação, consequência das temidas fake news.

Em Não Olhe Para Cima, as tentativas dos dois astrônomos em alertar a humanidade sobre a catástrofe são um grande fracasso. A imprensa não leva a sério e dá mais atenção para a vida amorosa de uma artista do que para o futuro sombrio. Nem mesmo a presidente dos Estados Unidos, interpretada pela majestosa Meryl Streep, entende a gravidade da situação, e está mais preocupada com sua próxima campanha eleitoral. Enquanto isso, o empresário Peter Isherwell, interpretado por Mark Rylance, quer usar a situação para conquistar ainda mais dinheiro.

Meryl Streep como a presidente Orlean em Não Olhe Para Cima, da Netflix.

Perante a realidade, pode-se traçar um paralelo com a falta de confiança na ciência que muitas pessoas manifestam, principalmente com a chegada das vacinas. Enquanto os cientistas imploram para que a sociedade os escute, ainda há aqueles que se recusam a aceitar a realidade, mesmo diante de fatos comprovados. Movimentos antivacina e o uso da desinformação por figuras governamentais para controle das massas (uma realidade que os brasileiros, infelizmente, conhecem muito bem) tornaram discursos negacionistas ainda mais frequentes. 

Mesmo que a comunidade científica aponte para uma direção segura e que auxilie no combate à pandemia, muitos preferem simplesmente não olhar para o que está bem diante de seus olhos. A relação com o filme fica perceptível quando, no longa, o cometa está cada vez mais próximo e já pode ser avistado no céu. O embate entre as campanhas “Não Olhe Para Cima”, lançada pelo governo dos EUA, e a “Olhe Para Cima”, comandada pelos cientistas, relembra as carreatas contra o isolamento social que ocorreram no Brasil, no início de 2020, devido à pandemia (via Nexo).

Ao longo do filme, as inspirações temáticas de Adam McKay são escancaradas ao público, que vive em um mundo onde cada vez mais ativistas e cientistas são ridicularizados por constatarem fatos. A personagem de Lawrence é um grande exemplo disso, já que, após se exaltar durante sua participação em um programa de televisão, vira piada na internet. Logo, diante de uma cultura do colapso, a ausência de um senso de urgência na sociedade pode ser o verdadeiro meteoro que já está colidindo com a Terra.

O que você achou de Não Olhe Para Cima? Alguma outra temática te chamou atenção no filme? Comente!

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sobre o autor Jaqueline Sousa

Jornalista. Apaixonada por cinema, música e literatura. | @jqlnsss