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O mito da liberdade criativa em Hollywood

Por Gus Fiaux

Pode não parecer, mas uma das discussões mais antigas para qualquer teórico da nona arte era a seguinte: afinal, cinema é arte ou não. Não precisa ter uma graduação na área para descobrir isso. Textos de grandes pensadores, entusiastas e estudiosos sempre tocaram nessa delicada questão. Até hoje, por mais que tenhamos um conceito de cinema bem mais solidificado, vez ou outra pipocam na internet alguns debates parecidos. E responder isso é algo difícil e complexo, mas vamos simplificar aqui: sim, cinema é arte – mas também é uma indústria.

Falo isso porque, em luz dos recentes eventos, tivemos uma grande comoção pública acusando estúdios de interferir em filmes famosos e mexer com a preciosa “liberdade criativa” de certos diretores com um ar mais “autoral”. Porém, será que num cenário tão estruturado quanto Hollywood, há mesmo espaço para liberdade criativaEstúdios podem mexer no que quiserem nos filmes que produzem? Como se concilia a divisão entre arte e mercado?

São discussões difíceis de se confabular, mas que precisam ser levantadas para que possamos mostrar que não, nem todo estúdio é vilão e que, quando falamos da dinâmica dessas grandes empresas por trás de grandes franquias, a liberdade criativa é um mito completo. Você pode até pensar que ela existe, mas seria como acreditar em unicórnios alados, fadas e terra plana. Então segue aqui para que possamos debater um pouco disso!

Liga da Justiça, o melhor caso recente de interferência do estúdio.

Como funciona a dinâmica dos estúdios de Hollywood?

Entender como funciona a produção de filmes nos Estados Unidos é uma das bases para falar dessa “liberdade” em termos criativos. Diferente de outros países (como o Brasil), Hollywood desde sua Era de Ouro funciona no sistema dos estúdios – isto é, grandes empresas que são responsáveis por financiar, produzir e até mesmo distribuir os filmes. Esse é o modelo tradicional, que explica porque nomes como Warner Bros., Disney, Sony, Paramount Fox se tornaram conhecidos no mundo todo.

Originalmente, o filme começava a partir do roteiro. Um roteirista vendia seu trabalho para os grandes estúdios e eles se encarregavam de contratar diretores para dar vida àquele filme. Em alguns casos, roteiristas e diretores iam juntos à sede do estúdio, com uma ideia bem clara do que e com fazer, antes mesmo do projeto ser comprado. Hoje em dia, esse modelo ainda é presente, mas quando falamos de grandes franquias, o negócio agora é outro. Em suma, temos produções feitas sob demanda. Um estúdio quer fazer filme de uma propriedade intelectual, então são contratados roteiristas, diretores e atores que possam se encaixar nesse projeto.

Muitas vezes, esses filmes são anunciados antes mesmo de começarem a ser produzidos. É o caso de boa parte dos filmes da Marvel Studios, cujos roteiros são escritos depois que eles já foram anunciados ao grande público e já possuem uma data de estreia marcada no calendário. Assim sendo, a produção ocorre sob as normas do estúdio, seguindo prazos e limites enquanto o estúdio alimenta, simultaneamente, uma campanha de marketing para gerar interesse no produto anos antes de seu primeiro trailer ser exibido.

Nesse sentido, é importante ver os estúdios como parte do processo completo na realização de um filme. Eles não apenas estão lá para mandar e desmandar nas ideias de um diretor, mas também para financiar o projeto e até mesmo distribuí-lo para as redes de cinema. Com a ascensão do streaming, a questão da distribuição pode passar por uma grande mudança já que você pode lançar seu próprio produto em seu próprio serviço digital, sem precisar da mediação das salas de cinema.

Quarteto Fantástico e o paradoxo do fã X estúdio X fã

Como o diretor se encaixa nisso? Ele é livre para dirigir?

Imagine o seguinte: Você trabalha em uma grande firma e sua função é pintar folhas brancas de papel até que elas fiquem azuis. Se um dia, você simplesmente decide que vai passar a pintá-las de vermelho, como isso seria visto por seus chefes e seus superiores? Provavelmente com maus olhos. Com diretores, não é muito diferente. Geralmente, quando falamos do modelo de produção dos grandes estúdios, o diretor só serve para materializar o roteiro em um filme.

É por isso que os estúdios se certificam de contratar os diretores e guiá-los durante todo o processo de produção. E quer saber de mais uma coisa? Isso não é algo novo. Desde que o cinema se tornou uma indústria lucrativa nos EUA, a partir do final da década de 40 e começo dos anos 50, o diretor geralmente era visto como um funcionário para o estúdio, transformando o roteiro em um filme que seria exibido nos cinemas e renderia rios de dinheiro. Claro que alguns diretores se sobressaiam, fazendo grandes obras transgressoras e memoráveis, mas no fim do dia, o que importava era quanto um filme iria arrecadar nas bilheterias.

Atualmente, esse modelo ainda segue em vigor, mas é muito pior. Estúdios – que antes, só tinham como medir a recepção do público através do lucro arrecadado nas salas de cinema – hoje possuem uma vasta miríade de ferramentas utilizadas para medir o sucesso e o fracasso de um projeto. Coisas como buzz nas redes sociais, alta procura por determinado assunto na internet, visualizações em trailers, bilheteria, venda em video on demand… tudo isso é contabilizado nos algoritmos que determinam o sucesso ou o fracasso de um filme antes mesmo que ele seja lançado.

(Pausa rápida para um exemplo: lembra do Quarteto Fantástico de 2015, dirigido por Josh Trank? O filme foi bombardeado com críticas e reclamações dos fãs na época de sua produção, em relação ao elenco e a detalhes vazados da trama. O estúdio interferiu no processo e criou um filme terrível, lembrado até hoje pelos fãs como um dos piores longas de super-heróis já feitos. Mas de quem é a culpa disso, do estúdio ou do público que imprimiu fortemente sua ideia do que deveria ser aquele filme, atingindo os algoritmos do estúdio?)

Além disso, a eliminação dos filmes de “médio orçamento” da grade dos grandes estúdios é outro problema bem considerável, que já foi elucidado várias vezes por figuras como, por exemplo, Martin Scorsese. Atualmente, investe-se muito mais em produções que supostamente tem alta chance de retorno financeiro e menos em cinema autoral, justamente porque um filme como Vingadores: Guerra Infinita tem muito mais chances de lotar as salas do que um filme como O Irlandês.

E vamos à lógica: quanto mais dinheiro você investe, mais “seguro” você quer que seja o retorno do seu lucro, certo? É por isso que os estúdios têm, mais do que nunca, limitado consideravelmente a liberdade criativa de seus diretores e artistas. Um filme precisa agradar a todo seu público alvo para fazer sucesso, e a arte é deixada em segundo plano em prol de um retorno financeiro garantido para os bolsos dos investidores e produtores.

Cruzada, de Ridley Scott, foi um filme que se beneficiou de um corte do diretor.

Dá pra fazer filmes autorais em Hollywood?

Resposta rápida: sim e não.

Quando um diretor é contratado para fazer um filme, ele basicamente se curva ao estúdio e mostra que fará o que eles querem. Isso não significa que um diretor não possa inserir assinaturas pessoais e ideias próprias ao projeto, mas tudo tem que passar pelo crivo do estúdio para que isso possa ser avaliado. É assim que funciona há um bom tempo, e só dessa forma as grandes corporações têm conseguido lançar franquias magnânimas como o Universo Cinematográfico da Marvel e até mesmo toda a saga de Velozes & Furiosos – filmes de bilheterias monumentais.

Inclusive, não são nem um pouco raros os casos em que artistas – sejam eles diretores, atores ou roteiristas – deixam projetos por diferenças criativas. Esse termo que mais parece uma desculpinha boba significa que alguém entrou em desacordo com alguém (seja o diretor com o estúdio, o ator com o diretor, o estúdio com o roteirista e por aí vai). Um caso bem famoso disso foi o filme do Homem-Formiga, que estava sendo planejado por Edgar Wright há zilhões de anos. Quando o diretor entrou em desacordo com a Marvel Studios e a Disney, ele preferiu se retirar do projeto.

(E sim, isso nos mostra que até mesmo a Marvel Studios limita a liberdade criativa de seus autores, diferente do que muitos pensam por aí)

Quando um estúdio interfere ativamente na produção de um filme, um cineasta ainda pode coletar todo o seu material e lançar sua própria versão do diretor. Algumas dessas são lançadas com o aval dos próprios estúdios, quase como um mea culpa ao ver que as interferências causadas por eles provocaram um grande problema no filme, levando à baixa bilheteria ou às críticas ruins. Porém, não é todo caso que isso acontece.

Por outro lado, ainda há uma forma muito mais simples e direta de se fazer filmes com liberdade criativa mais ampla – e basicamente, é a seguinte: basta fazer filmes que não são baseados em propriedades intelectuais que pertencem a um desses grandes estúdios. Se você quer fazer um longa original, transgressor e que seja diferente de tudo o que as pessoas já viram na história do cinema, talvez não seja uma boa ideia fazer isso justamente em um filme da Marvel ou da DC.

É por isso que streamings como a Netflix e o Prime Video têm crescido no mercado – justamente por oferecerem um espaço com maior liberdade criativa para que diretores possam fazer seus filmes da maneira que bem entenderem. E eles não são os únicos. Estúdios de cinema menores, como a A24, a Blumhouse e a Laika fazem um trabalho bem parecido. Porém, por não dominarem grandes propriedades, esses estúdios geralmente não competem com o lucro de filmes da Warner e da Disney. E como tudo é um ciclo, eles fazem filmes de orçamentos mais limitados para que possam compensar essa diferença nas bilheterias.

Em suma: se você quer ser criativo em Hollywood, saiba que seu lugar é mais próximo do cinema independente do que da Marvel e da DC Comics. A cultura de estúdios não vai se extinguir tão cedo e é bem provável que ela piore ainda mais nos próximos anos, com a eliminação total do aspecto artístico do cinema em prol do lucro. Mas nós, como público, também precisamos entender que é assim que funcionam as coisas na indústria e que cobrar liberdade criativa e menos interferência executiva nesse tipo de produção é, no mínimo, inocente.

Abaixo, veja 10 filmes que poderiam ter um corte do diretor lançado:

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux