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Missa da Meia-Noite: Entenda a influência de Stephen King na nova série da Netflix

Por Gus Fiaux

Atenção: Alerta de Spoilers!

Missa da Meia-Noite é a nova série de terror da Netflix. Criada, roteirizada e dirigida por Mike Flanagan (que já havia trabalhado com a plataforma de streaming em A Maldição da Residência Hill e sua “sequência”, A Maldição da Mansão Bly), a série explora a vida na ilha de Crockett, enquanto a população local descobre as bênçãos e as maldições de seu novo padre.

A minissérie conta com apenas sete episódios e é o trabalho mais pessoal da carreira de Flanagan – não é à toa que ele pretendia explorar essa história desde o começo de sua carreira, primeiro como um livro e depois como um filme. Porém, muitos fãs estão notando várias semelhanças entre a história retratada aqui com obras literárias do Mestre do Horror contemporâneo, Stephen King – e essas “coincidências” podem ter sido muito bem pensadas…

Missa da Meia-Noite segue a vida dos habitantes da Ilha de Crockett.

Qual é a trama de Missa da Meia-Noite?

Em Missa da Meia-Noite, viajamos até a ilha de Crockett, localizada próxima ao litoral de Washington. Riley Flynn é um ex-morador da ilha que cometeu um crime trágico em seu passado – ele matou uma mulher ao dirigir bêbado – e isso fez com que ficasse quatro anos na cadeia. Depois de liberto, ele volta à ilha para reencontrar sua família e tentar recomeçar sua vida.

Enquanto isso, um novo padre chega à cidade. Paul Hill parece ter vindo para substituir o Monsenhor Pruitt, antigo reverendo local que estava bem debilitado de saúde e que estava peregrinando para Israel, para cumprir o grande sonho de sua vida – aliás, ele era tão amado pela cidade que toda a viagem foi custeada pela população local, para dar a ele um último momento de felicidade.

O Padre Paul chega mudando toda a dinâmica da cidade, ao realizar diversos milagres – como por exemplo, fazer uma menina cadeirante voltar a andar. Porém, esses dons milagrosos possuem um custo terrível que envolve não apenas a população religiosa, mas também pessoas que não têm fé – como é o caso de Riley. Aos poucos, vamos descobrindo o que aconteceu com o Monsenhor Pruitt e qual é a origem de Paul Hill.

Mike Flanagan já dirigiu Doutor Sono, adaptação de famoso livro de Stephen King que serve como sequência de O Iluminado.

Mike Flanagan e Stephen King

Antes de falarmos da influência de Stephen King na obra, é importante falarmos do criador dela. Mike Flanagan é um diretor norte-americano nascido em 1978, na cidade de Salém, em Massachusetts. Com criação fervorosamente católica, ele se formou em Cinema e Mídia Eletrônica pela Towson University. No começo, Flanagan tinha um gosto pelo cinema de melodrama, mas aos poucos foi adentrando o mundo do horror.

No começo da década passada, ele começou a lançar seus primeiros longas-metragens de grande alcance, como O Espelho (2013). Seu nome começou a circular como um dos grandes cineastas de horror em ascensão, e logo ele estava preparando várias obras bem conceituadas, como Hush: A Morte Ouve (2016) e Ouija: Origem do Mal (2016). Com nome já garantido, ele começou a adaptar algumas obras que sempre teve interesse.

Flanagan chegou a trabalhar no roteiro de uma adaptação de Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado, mas o projeto nunca saiu do papel. Contudo, ele sempre teve um grande fascínio pelas obras de Stephen King – e isso acabou sendo definidor em sua carreira, quando adaptou Jogo Perigoso (2017). O livro de 1992 virou um filme da Netflix, rendendo novos elogios para o cineasta.

Em 2019, ele também investiu em Doutor Sono, a “continuação” de O Iluminado, que segue Dan Torrance – o filho de Jack, já adulto e enfrentando o alcoolismo como seu pai. A partir do longa, ele iria trabalhar em um novo projeto focado em Dick Halloran, um dos personagens presentes em O Iluminado Doutor Sono, mas isso foi deixado de lado depois que a adaptação de Doutor Sono recebeu uma bilheteria bem aquém do esperado.

Flanagan é fã confesso de King e já tentou trazer algumas obras do escritor para os cinemas, como Revival – outra produção que nunca saiu do papel. De 2018 para cá, ele começou a produzir suas próprias séries na Netflix, como A Maldição da Residência Hill e A Maldição da Mansão Bly, ambas adaptações de obras clássicas da literatura gótica. Após o sucesso das duas, ele recebeu carta branca para fazer Missa da Meia-Noite, e o resultado está entre nós.

Salém (ou A Hora do Vampiro) é uma das principais bases de Missa da Meia-Noite.

Quais livros de Stephen King “inspiraram” Missa da Meia-Noite?

Para falar de como King influencia a nova série de Flanagan, é importante dar um spoiler muito grande da série, então se você ainda não assistiu e quer ter a experiência completa, saia do artigo agora.

Na metade da série, descobrimos que o Padre Paul é, na verdade, o Monsenhor Pruitt envelhecido após encontrar um “anjo” em uma caverna, durante sua peregrinação para Israel. Embora isso nunca seja verbalizado, o anjo parece ser um vampiro, que suga o sangue de Pruitt e o faz beber seu próprio, transformando-o em uma criatura com sede de sangue implacável e que não pode entrar em contato com a luz do sol.

Quando Pruitt (agora Paul) chega à ilha de Crockett, ele começa a misturar um pouco do sangue do “anjo” no vinho da comunhão – e é assim que ele consegue realizar “milagres”, já que tal sangue contém propriedades regenerativas. A ilha se torna cada vez mais próspera, mas a tensão religiosa cresce e, ao fim, temos um grande massacre no qual o padre sugere que seus fiéis morram para que possam renascer – como vampiros.

Tudo isso parece ter saído diretamente de uma obra de Stephen King bem conhecida. Salém (ou A Hora do Vampiro) conta a história de uma pequena cidade habitada por um clã enorme de vampiros, enquanto o foco da história também recai sobre um padre – Donald Callahan, mas que enfrenta os vampiros em vez de ser o “líder” deles.

As ideias religiosas e o debate sobre fé também estão presentes em vários outros livros de King, como o próprio Revival – que também é sobre um padre tendo questões com sua própria fé. Há uma outra personagem na série, chamada Bev Keane (uma fanática religiosa) que também lembra bastante algumas figuras criadas por King, como Margaret White de Carrie, a Estranha e a Sra. Carmody do conto que deu origem a O Nevoeiro.

Outro ponto interessante recai sobre o alcoolismo de Riley, que parece ser reminiscente tanto de O Iluminado e Doutor Sono quanto várias outras obras de King. Tanto o escritor quanto Mike Flanagan já lutaram contra o vício em momentos diferentes de suas vidas, mas a abordagem de ambos para o tema é bem similar. Por fim, toda a mudança de vida no povo de Crockett tem respingos de Trocas Macabras, outro livro que explora a interferência de um estrangeiro em uma cidade que, até então, era pacata.

Dado o histórico de Flanagan como fã de Stephen King, nenhuma dessas “homenagens” parecem ter sido “sem querer”. O diretor nutre um grande respeito pelo Mestre do Horror – e isso é mútuo, já que o próprio King falou bem de todas as suas adaptações pelas mãos de Flanagan e inclusive elogiou Missa da Meia-Noite em seu Twitter. E se para você, ainda parece algo feito sem intenção, dê uma olhada bem atenta nas cenas que se passam no quarto de Riley, especialmente em sua coleção de livros…

Missa da Meia-Noite está disponível na Netflix.

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux